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Correio Braziliense

Estudo mostra que é possível atingir auge criativo depois dos 50 anos

Os jovens não são os únicos a propor ideias inovadoras. Tudo depende da forma como a pessoa lida com os desafios diários


postado em 02/06/2019 07:00

(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
 

 

Ser criativo é uma característica buscada por grande parte das pessoas. Isso porque pode ajudar em áreas diversas, principalmente a profissional. O senso comum prega que se trata de um privilégio das mentes mais jovens. Mas, ao analisar um grupo de vencedores do Prêmio Nobel de Economia, cientistas americanos concluíram que os picos criativos podem ocorrer em momentos distintos da vida, a depender da maneira como as pessoas lidam com os desafios diários.

 

Dispostos a confrontar ideias predefinidas, Bruce Weinberg, pesquisador da Universidade de Ohio, nos Estado Unidos, e colegas avaliaram a criatividade em profissionais das ciências exatas. “Eu estava particularmente interessado em saber se as mesmas ideias aplicadas aos artistas também se aplicavam aos cientistas, e achamos que deveríamos começar com um tema muito admirado, a economia. Acontece que a economia é um campo muito bom para os nossos propósitos porque existe uma ampla gama de economistas importantes, e eles podem ser facilmente distinguidos nas suas linhas de trabalho”, explica ao Correio o também autor principal do estudo, publicado em uma edição especial da revista especializada De Economist.

 

A equipe analisou 31 ganhadores do prêmio Nobel de Economia, que foram organizados em uma lista que variou do mais experimental ao mais conceitual. Essa classificação teve como base características específicas e objetivas do trabalho de cada cientista. “Por exemplo, economistas conceituais tendem a usar suposições, provas e equações e têm um apêndice matemático ou uma introdução aos seus trabalhos. Já os economistas experimentais dependem da inferência direta dos fatos, de modo que seus trabalhos tendem a ter mais referências a itens específicos, como locais, períodos de tempo e indústrias ou mercadorias”, detalha Bruce Weinberg.

 

Depois de classificar os laureados, os pesquisadores determinaram a idade em que cada um deles fez a contribuição mais importante para a economia e que poderia ser considerada o “pico criativo”. Dessa forma, concluíram que os laureados conceituais atingiram a fase de destaque aos 29 ou aos 25 anos de idade. Já os vencedores do Nobel experimentais, com aproximadamente o dobro da idade — entre 50 e 57 anos.

 

Para os investigadores, os resultados ajudam a entender quando as pessoas são mais inovadoras e como essa condição varia entre os indivíduos. “Alguém que aborda a inovação de forma muito abstrata provavelmente fará seu melhor trabalho mais cedo na vida, enquanto as pessoas que pensam mais concretamente são mais propensas a ser inovadoras em idades posteriores”, explica Bruce Weinberg.

 

A maioria das pesquisas sobre criatividade avalia os períodos de auge comparando áreas do conhecimento, como física versus ciências médicas. Segundo Bruce Weinberg, esses estudos geralmente encontram pequenas variações entre os temas estudados, com a criatividade atingindo o máximo entre os 30 e os 40 anos de um indivíduo, na maioria dos indivíduos. “Essas pesquisas atribuem diferenças nos picos criativos à natureza dos próprios campos científicos, e não aos cientistas. A nossa sugere que, se você é mais criativo, isso é fruto mais da forma como você aborda o trabalho que faz, e menos do campo científico em que está inserido”, frisa.


Além da economia

 

Apesar de ter se concentrado em uma área do conhecimento, os investigadores ressaltam que os resultados obtidos podem ser interpretados de forma mais geral. “Acreditamos que o que encontramos não se limita à economia, mas pode ser aplicado à criatividade de forma mais ampla. Muitas pessoas acreditam que a criatividade é exclusivamente associada à juventude, mas depende de que tipo de criatividade você está falando”, diz Weinberg. Mario Louzã, médico psiquiatra e membro filiado do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, concorda. “O estudo mostra como os indivíduos têm um estilo diferente de construir a informação e, dessa forma, de atingir o seu ápice de criatividade”, justifica.

 

Para o psiquiatra brasileiro, os dados estão em concordância com outras características já conhecidas sobre a atividade criativa, como os recursos necessários para que ela ocorra. “As pessoas que têm grande bagagem teórica, um amplo conhecimento, precisam de liberdade para pensar, uma certa flexibilidade para começar a olhar o mesmo problema por um ângulo diferente. Por isso, se usa o termo ‘sair da caixinha’. Mas sair do comum exige uma base de conhecimento muito grande, não é possível criar em cima do nada. É o que vemos nesse tipo de análise”, detalha.

 

Alexandre Pedro, psicanalista pela Sociedade Internacional de Psicanálise de São Paulo, aponta uma abordagem que faltou no estudo americano. Segundo ele, ao focar no comportamento puro e simples do criativo, deixa-se de olhar para o que está por trás desse hábito. “Entendemos os criativos, mas o segredo do resultado pode estar escondido justamente no oposto. Não identificamos os motivos pelos quais as pessoas que não são criativas não são criativas. Essa é a informação mais importante”,  explica. “Empresas como Google e 3M conseguem estimular seus colaboradores. Portanto, a partir daí, podemos perceber que, se estimulados, podemos ser criativos, uma vez que essa é uma característica nata do ser humano.” 

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