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Correio Braziliense

Estressado? Teste permite avaliar níveis de forma rápida e em casa

Dispositivo avalia a quantidade de hormônios presentes na urina, na saliva e em outros fluidos para determinar o nível de esgotamento físico e emocional de um indivíduo. A possibilidade de fazer o exame em casa poderá facilitar o monitoramento da condição


postado em 12/06/2019 06:00

A tecnologia é de fácil acesso, com possibilidade de uso em qualquer lugar, incluindo a casa e o trabalho(foto: Lucas Pacífico/CB/D.A Press)
A tecnologia é de fácil acesso, com possibilidade de uso em qualquer lugar, incluindo a casa e o trabalho (foto: Lucas Pacífico/CB/D.A Press)
É comum sintomas do estresse, como irritação, medo e desconforto, se integrarem à rotina das pessoas. O problema é que esse esgotamento físico e emocional pode levar a complicações graves, como hipertensão e infarto. Por isso, segundo especialistas, ele merece ser monitorado. Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Cincinnati, em Ohio, nos Estados Unidos, se dedica ao desenvolvimento de um dispositivo que poderá ajudar nesse sentido. De forma prática, a solução mede a quantidade de hormônios do estresse usando o sangue, o suor, a urina ou a saliva humanos. A tecnologia é de fácil acesso, com possibilidade de uso em qualquer lugar, incluindo a casa e o trabalho, e foi apresentada recentemente na revista American Chemical Society Sensors.

Segundo Prajokta Ray, coautora do trabalho e estudante de doutorado de engenharia elétrica da Universidade de Cincinnati, o que motivou ela e os colegas a iniciarem o projeto foi a preocupação com o crescente número de pessoas estressadas. A equipe tinha o propósito de desenvolver uma solução que fosse barata, fácil e eficaz. De acordo com a pesquisadora, experimentos com fluidos corporais coletados de exames anteriores mostraram resultados animadores. A próxima etapa será a checagem em tempo real. “Este teste tem o potencial de se tonar um forte dispositivo comercial”, aposta.

O exame foi projetado com biossensores, que permitem o processo de avaliação de forma rápida, simples e de fácil interpretação. Quando uma pessoa enfrenta alguma situação estressante, o corpo libera no sangue e em outros fluidos corporais alguns hormônios, chamados biomarcadores. A proposta da tecnologia é de que o próprio indivíduo colete uma pequena quantidade de um desses fluidos, a coloque no dispositivo e descubra em que nível de esgotamento se encontra. “A detecção da concentração de biomarcadores é uma das várias observações experimentais necessárias para determinar o nível de estresse de um indivíduo”, frisa Prajokta Ray.

Doenças físicas, como diabetes, pressão alta, depressão, distúrbios neurológicos e ganho de peso, podem ser atribuídas ao estresse. Dessa forma, por meio da tecnologia, o paciente, acompanhado do seu médico, poderá investigar como o estresse o afeta individualmente. “O nível de estresse, ou seja, a concentração de biomarcadores, varia de acordo com cada indivíduo. Se ele for exposto a longos períodos de estresse, essa liberação constante de hormônio pode causar danos devastadores ao corpo”, frisa Ray.

Complexidades

Em procedimentos comuns, para dosar o estresse, é necessário analisar vários marcadores — entre eles cortisol, serotonina e catecolaminas. Professora do curso de biomedicina do Centro Universitário do Distrito Federal (UDF), Renata de Souza explica que os métodos utilizados atualmente são de alta complexidade, com etapas demoradas. Para ela, as maiores vantagens da solução proposta pelos americanos são a facilidade de obtenção da amostra e a possibilidade de cuidados melhorados e personalizados. “O uso do dispositivo proporcionará um efeito rápido e sensível, facilitando o rastreio de patologias associadas aos biomarcadores analisados. Novas análises também poderão ser feitas, o que dispensa a necessidade de processamentos mais complexos”, afirma.

Apesar dos resultados promissores, a especialista brasileira enfatiza que, se chegar ao mercado, o dispositivo não deverá substituir a avaliação dos testes laboratoriais comuns. Isso porque, por enquanto, não tem a mesma precisão nem consegue fornecer resultados tão qualitativos. “É preocupante, pois poderia gerar má interpretação de quem o estivesse usando, já que dispensaria o profissional treinado para fazer o manuseio. Também poderia promover a automedicação, uma vez que faria a avaliação do estresse”, pondera.

Andrew Steckl, um dos autores do estudo e professor de engenharia elétrica na Faculdade de Engenharia e Ciências Aplicadas da Universidade de Cincinnati, argumenta que a intenção do dispositivo não é substituir o exame de laboratório, mas auxiliar os pacientes a diagnosticarem o estado de saúde antes de procurar um médico. “Você vai ser capaz de fazer o teste em casa porque não está se sentindo bem e quer saber como está. O dispositivo vai dizer se sua condição mudou um pouco ou muito. Isso pode não lhe dar todas as informações, mas diz se você precisa de um profissional que possa assumir o controle”, justifica.

De acordo com Milton Rego Junior, doutor em ciências médicas e professor de biomedicina do Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), a maior novidade da tecnologia é a possibilidade de uma avaliação rápida que, por consequência, proporciona uma intervenção mais ágil e eficaz. “Acho interessante poder medir os biomarcadores do estresse a partir da análise do suor. Entretanto, é preciso observar melhor porque muitas variáveis podem interferir na dosagem”, evidencia.

Desempenho 

Prajokta Ray destaca que a implementação de um dispositivo com a finalidade de detectar biomarcadores de estresse em mais de um fluido corporal é totalmente inovadora. Ela e os colegas acreditam que a tecnologia será muito útil para militares e bombeiros. “Por eles estarem sempre sob grande estresse e pressão, o dispositivo poderá ajudá-los a melhor desempenhar as atividades diárias”, explica.


Professora de biomedicina da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Cilene Lino de Oliveira acredita que o método ainda precisa ser testado em um número maior de amostras antes de chegar ao mercado.  “A ideia é muito boa, visto que os métodos atuais para diagnóstico de sobrecarga decorrente do estresse é baseado em avaliação do comportamento e do estado geral de saúde do indivíduo e, portanto, são muito subjetivos e passíveis de erro. Mas, ainda sim, me parece que a medida precisa ser mais bem desenvolvida”, explica.


“O dispositivo vai dizer se sua condição mudou um pouco ou muito. Isso pode não lhe dar todas as informações, mas diz se você precisa de um profissional que possa assumir o controle”, Andrew Steckl, um dos autores do estudo e professor de engenharia elétrica da Universidade de Cincinnati.

Palavra de especialista

“A mensuração de hormônios nos fluidos corporais, como sangue, suor, saliva e urina, sempre requer um cuidado muito intenso e extenso. Quando se promove qualquer intervenção na saúde, é necessário que se passe pelos profissionais da área que são habilitados em dar um diagnóstico final ou preciso. A compreensão, a interpretação e a avaliação desses dados devem ser feitas por alguém que conhece o processo de avaliação. A autonomia do indivíduo na autoavaliação deve ser muito bem delimitada porque, caso contrário, isso pode se transformar em uma automedicação ou em um autodiagnóstico, indo totalmente contrário ao que a tecnologia promove. A tecnologia deve promover maiores especificidade e velocidade do resultado. Esses são os caminhos que uma tecnologia tem que buscar, não a substituição de profissional de saúde. Esses dispositivos devem ser usados com muita responsa-bilidade. Por isso, a educação e os órgãos reguladores têm que fazer a tarefa de orientar e direcionar o uso”, Suélia de Siqueira, coordenadora do Programa de Pós-graduação em Engenharia Biomédica da Universidade de Brasília (UnB).

 

 

* Estagiária sob supervisão de Carmen Souza 

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