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Correio Braziliense

Por uma vigilância global: cientista pressionam por controle agrícola

Cientistas defendem, em artigo publicado na revista 'Science', a criação de um sistema integrado de monitoramento da agricultura. Segundo eles, a solução poderá ajudar no controle de pragas, protegendo produtores e consumidores


postado em 28/06/2019 06:00

Pragas ameaçam 20% das cinco culturas que respondem por metade da ingestão calórica do mundo: trigo (foto), arroz, feijão, milho e soja(foto: Gerárd Paillard /Divulgação)
Pragas ameaçam 20% das cinco culturas que respondem por metade da ingestão calórica do mundo: trigo (foto), arroz, feijão, milho e soja (foto: Gerárd Paillard /Divulgação)
Uma das maiores ameaças a plantações é o surgimento de pragas. Preocupados com o estrago que elas podem causar à agricultura e à segurança alimentar, um grupo de cientistas internacionais defende a implantação de um sistema de vigilância global dos campos. Em um artigo publicado na última edição da revista especializada Science, os especialistas propõem o uso de tecnologias inteligentes, que compõem a indústria 4.0, para construir um sistema de comunicação que possa reduzir a incidência de doenças de culturas e, dessa forma, salvaguardar produtores e consumidores.

Os autores destacam, no artigo, que mais de 20% das cinco culturas básicas  — de arroz, feijão, milho, soja e trigo, responsáveis por metade da ingestão calórica em todo o mundo — são prejudicadas por pragas. As mudanças climáticas e o comércio global impulsionam a disseminação, o surgimento e o ressurgimento de doenças nas lavouras, e a ação de contenção geralmente não é tão eficaz, especialmente em países de baixa renda.

Diante desse cenário preocupante, os cientistas defendem a criação de um Sistema de Vigilância Global (Global Security Surveillance System — GSS, em inglês) para fortalecer e interconectar sistemas de biossegurança de culturas. Segundo eles, a tecnologia poderá contribuir consideravelmente para segurança alimentar. “Podemos usá-la como parte dos esforços para satisfazer a demanda mundial por alimentos, o que pode gerar aumento da produção agrícola em até 70% até 2050. Precisamos de um GSS para reduzir os alimentos perdidos por causa das pragas”, detalha Mônica Carvajal, pesquisadora do Centro Internacional para Alimentos e Agricultura Tropical (CIAT), na Colômbia, e autora principal do artigo

Ações combinadas

O GSS se concentraria em fortalecer as equipes de “vigilância ativa” e “vigilância passiva”, que combatem, na linha de frente, os surtos de doenças. O primeiro tipo envolve laboratórios localizados em postos de inspeção agrícola e em inspetores alfandegários e fitossanitários nas fronteiras e nos portos de entrada. Segundo o estudo, com ele, apenas de 2% a 6% da carga pode ser efetivamente rastreada.

Já a vigilância passiva incluiu redes de agricultores, organizações agrícolas nacionais, cientistas e agrônomos em centros de pesquisa e universidades e especialistas em agricultura. “Para que essa infraestrutura seja eficaz, as conexões entre os primeiros detectores e os receptores dessas informações devem ser aprimoradas e as ações, coordenadas”, detalha Carvajal. “Mas a capacidade de diagnóstico, o compartilhamento de informações e os protocolos de comunicação são escassos ou fracamente estabelecidos em algumas regiões, especialmente em países de baixa renda”, frisa.

Para refinar essa comunicação, o GSS utilizaria tecnologia de ponta para diagnósticos rápidos de doenças e aproveitaria as redes de comunicação, incluindo as mídias sociais, para compartilhar informações rapidamente. O sistema teria hubs — aparelhos que ajudam a distribuir informações para computadores e outras ferramentas tecnológicas — regionais, constituindo uma série de redes globais formais.

Segundo os cientistas, elas incluiriam uma rede de laboratório de diagnóstico, uma rede de avaliação de risco, outra de gerenciamento de dados, uma quarta rede de gerenciamento operacional e, por último, uma de comunicações. “Nossa reflexão sobre muitos surtos de doenças é que, seja em países de alta renda, seja nos de baixa renda, a vigilância passiva atual está com os olhos mais concentrados em um monitoramento do campo e com uma menor coordenação do local para o global”, destacam os autores do artigo. “Nossa equipe percebeu que há um grande problema com a comunicação, mesmo quando falamos a mesma língua e usamos as mesmas tecnologias. Um dos componentes mais relevantes é a rede de comunicações”, complementa Carvajal.

No Brasil

Celso Moretti, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em Brasília, acredita que o artigo apresenta uma solução inteligente para uma grande necessidade na área agrícola, com potencial para trazer ganhos essenciais à produção. “A ideia de ter um sistema global de vigilância que busque trocar informações sobre pragas é algo extremamente louvável. Atualmente, temos diminuído cada vez mais as distâncias, proporcionando uma troca de materiais genéticos de origem vegetal e animal extremamente ampla com outros países. O Brasil é um dos países que mais participam dessa cooperação global, já que também faz fronteira com 10 países da América do Sul”, diz

O especialista ressalta que o cuidado com os perigos causados à agricultura pelas pragas tem sido foco de pesquisadores brasileiros. Celso Moretti exemplifica que a Embrapa Recursos Genéticos trabalha com uma técnica inovadora para enfrentar essas doenças. “Recentemente, fizemos uma parceria com o Instituto Mundial do Arroz para nos proteger de uma doença bacteriana que atingiu a Ásia, mas não chegou no Brasil. Levamos nosso material genético para lá e cruzamos com o deles. Dessa forma, tornamos o grão resistente a esse invasor. Agora, ele está guardado aqui para o caso de algo acontecer”, detalha. “Fizemos o mesmo com o feijão, em uma parceria recente com os Estados Unidos. Isso porque, antes de competidores no mercado, também somos colaboradores, nos unimos para combater esse tipo de ameaça à agricultura.”

Quanto ao cenário brasileiro, Mônica Carvajal sinaliza alguns pontos a se atentar. “A conectividade no campo é algo que o Brasil precisa evoluir. Estimamos que 65% do território agrícola não está conectado à internet, ou seja, precisamos ampliar essa rede porque isso pode fazer diferença na economia, é algo que vemos nos outros países e que precisamos seguir”, detalha a cientista.

Para saber mais

Tecnologias interligadas

Indústria 4.0 é um termo usado para definir as transformações que foram geradas no comércio devido a um conjunto de tecnologias que se comunicam entre si e fazem parte do conceito de internet das coisas. Especialistas acreditam que a agricultura será uma das áreas que mais se beneficiará com o surgimento de novos softwares e equipamentos focados, por exemplo, em aumentar a produção de alimentos e tornar os cultivos mais eficazes e seguros.


Alguns ganhos já são percebidos no campo, como previsões do tempo mais exatas e considerando áreas mais específicas, o uso de drones para mapear regiões extensas e a integração do GPS a máquinas rurais. Nesse último caso, a solução ajuda produtores e ambientalistas a mapear regiões que precisam e/ou receberam, agrotóxicos, por exemplo.

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