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Correio Braziliense

Pesquisadores desenvolvem coquetel contra alergias alimentares

Estudos têm evidenciado a ligação entre a presença de bactérias maléficas na microbiota e a ocorrência de reações alérgicas alimentares. Baseados nessa associação, pesquisadores americanos criam coquetel de micróbios do bem e tratam a complicação em roedores


postado em 30/06/2019 08:00

Teste de alergia(foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)
Teste de alergia (foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)


Aos 4 meses, Christian Couto Breder parou de mamar. Com a introdução da fórmula, os problemas começaram: placas vermelhas pelo corpo, diarreias constantes, assaduras na pele e crises respiratórias persistentes. “Levei à pediatra e, logo de cara, ela disse que deveria ser APLV, alergia à proteína do leite da vaca”, conta a mãe, Elisângela Couto de Oliveira Breder, 34 anos. O diagnóstico foi confirmado pela gastroenterologista, que também descobriu outro problema associado à reação alérgica: o refluxo oculto, só identificado por meio de exames.

A alergia faz com que o sistema imunológico do pequeno desencadeie uma guerra quando detecta a proteína do leite de vaca, lutando de forma exagerada contra a substância. Diferentemente da intolerância à lactose, que provoca apenas efeitos gastrointestinais, a APLV tem implicações amplas, incluindo baixo peso e crescimento. Agora com 1 ano e 6 meses, Christian é acompanhado por quatro especialistas, toma vários medicamentos e toda sua rotina tem de ser monitorada com muito cuidado pela família, pois mesmo traços da proteína do leite deflagram as crises. “Até a panela em que preparamos a comida dele é só dele”, diz Elisângela.

Elisângela e o filho Christian, alérgico à proteína do leite: crise aos 4 meses(foto: Arquivo Pessoal)
Elisângela e o filho Christian, alérgico à proteína do leite: crise aos 4 meses (foto: Arquivo Pessoal)
No mundo, a alergia alimentar atinge até 10% da população e há evidências de que vem crescendo nos países em desenvolvimento, como o Brasil. Ainda sem tratamento para as causas — as intervenções lidam apenas com os sintomas —, essa condição vem sendo pesquisada em laboratórios sob uma nova abordagem, considerada promissora: a associação com distúrbios da microbiota intestinal. Estudos recentes sugerem que a presença de bactérias maléficas, ou a ausência das essenciais para o bom funcionamento do organismo, impacta no sistema imunológico, provocando as reações alérgicas. Com isso, a expectativa é desenvolver uma nova forma de tratar um problema que afeta especialmente crianças pequenas.

Na semana passada, uma pesquisa publicada na revista Nature Medicine não só encontrou o vínculo entre microbiota alterada e alergia alimentar como conseguiu preveni-la e contorná-la adicionando, no organismo de roedores, grupos de bactérias “do bem”. “Isso representa uma mudança de paradigma na nossa abordagem sobre terapias para alergias alimentares”, diz a patologista Lynn Bry, que está entre os autores do estudo, realizado no Brigham and Women’s Hospital, em Boston. “Nós identificamos os micróbios que estão associados com a proteção e aqueles que estão associados com a alergia alimentar em pacientes. Se administrarmos um conjunto de micro-organismos terapêuticos, não só poderemos evitar alergias, mas também conseguiremos reverter as já existentes. Com esses micróbios, o que fazemos é ‘reiniciar’ o sistema imunológico”, explica.

Antibióticos

O trato gastrointestinal é colonizado por trilhões de bactérias, que, além de ajudar o organismo na digestão e produzir vitaminas, como a B e a K, desempenham um papel importante no sistema imunológico. Recentemente, ganhou peso uma teoria de que o aumento dos casos nos países em desenvolvimento está diretamente associado ao abuso na prescrição e na compra de antibiótico. A ideia é que o excesso desses medicamentos mate micro-organismos importantes para a modulação das células de defesa em um sistema ainda em formação. Com a flora gastrointestinal desequilibrada, as crianças ficaram mais sujeitas a reações exageradas na presença de alguma substância imunogênica, como a proteína do leite ou do amendoim.

Com base nessas hipóteses, os pesquisadores de Boston coletaram, mês a mês, amostras fecais de bebês e, usando o material, compararam as bactérias intestinais de 56 crianças que desenvolveram alergia alimentar às das 98 que não tiveram o problema. Os resultados mostraram, assim como estudos anteriores haviam indicado, que a população de micróbios dos pequenos com alergia alimentar é diferente da dos que não apresentam a condição. Os cientistas quiseram ir adiante e pesquisar em que extensão essas diferenças implicam na reação imunológica.

A fase seguinte do estudo foi feita com camundongos. A equipe transplantou amostras da microbiota de crianças com e sem alergia em ratos desenvolvidos para apresentar sensibilidade à proteína do ovo. Aqueles que receberam material dos bebês não alérgicos tiveram menos reações ao alimento do que os roedores receptores da flora de crianças com alergia alimentar. Técnicas computacionais apontaram as diferenças exatas entre as amostras, permitindo identificar as bactérias associadas à proteção. Os pesquisadores, então, desenvolveram dois coquetéis de micróbios, compostos por bactérias dos grupos Clostridiales e Bacteroidetes, coletadas da microbiota humana. Esses organismos tornaram os ratos resistentes à reação alérgica.


Alerta alterado

 

Por fim, a equipe examinou os mecanismos por trás da alergia e da proteção no nível celular. Eles descobriram que as bactérias benéficas evitaram a reação ao ovo agindo em células-T do sistema imunológico, responsáveis por deflagrar uma resposta quando identificam agentes externos que precisam ser eliminados do organismo. As bactérias alteraram o estado de alerta das células, evitando que elas se mobilizassem para combater a proteína. “Quando se descobre o mecanismo que permite compreender quais micróbios e quais os alvos de ação envolvidos, você não apenas está fazendo uma boa ciência, mas abre a oportunidade de encontrar abordagens terapêuticas e diagnósticas melhores para a doença. No caso das alergias alimentares, o estudo nos indicou uma terapia digna de confiança com a qual podemos trabalhar nos cuidados com pacientes”, afirma Lynn Bry.


O gastroenterologista Bernardo Martins, membro titular da Sociedade Brasileira de Gastroenterologia e médico do Hospital Santa Lúcia, afirma que os conhecimentos recentes sobre o papel da microbiota no sistema imunológico já começam a alterar a prática clínica. “Especialmente quanto ao uso indiscriminado de antibiótico. A maioria dos pediatras, agora, evita ao máximo passar antibióticos para crianças nos primeiros meses de vida, quando o sistema imunológico está sendo modulado. Também temos visto que, além de não tentar matar as bactérias, muitos aumentaram a utilização de prebióticos e probióticos, que estão cada vez mais seguros no primeiro ano de vida”, diz. “Agora, a expectativa é de que se possa tratar e prevenir as alergias alimentares com bactérias, mas, antes, é preciso descobrir em qual momento agir e qual a concentração de micro-organismos para se ter uma resposta clínica.”

O risco de se coçar

O eczema — uma inflamação crônica na pele, responsável por coceira, inchaço e vermelhidão — é considerado fator de risco para alergias alimentares. A estimativa é de que mais da metade das crianças com eczema são alérgicas a um ou mais alimentos. A conexão entre essas duas condições, porém, não é muito clara. Um grupo de pesquisadores do Hospital Infantil de Boston (EUA) começa a desvendar esse mistério. Segundo eles, coçar a pele promove reações alérgicas a alimentos, incluindo anafilaxia, quando a reação imunológica surge subitamente e pode ser fatal.

Dessa forma, aqueles bebês que costumam comer se lambuzando correm perigo. Se tiverem eczema, antígenos alimentares podem entrar no corpo por meio de quebras de pele causadas por arranhões. A invasão pode, então, acionar o sistema imunológico para produzir anticorpos IgE contra a comida. “É assim que eles ficam sensibilizados”, resume Raif Geha, um dos líderes do estudo, divulgado no jornal Immunity. 

Os anticorpos IgE ligam-se a células conhecidas como mastócitos, que disparam substâncias químicas que atuam no tecido para produzir uma resposta alérgica. A relação foi detectada em experimentos com roedores. Os cientistas mostraram que as quebras de pele (criadas retirando um pedaço de fita, em vez de coçar) desencadeiam uma reação em cadeia no intestino delgado, expandindo e ativando o mastócitos.

Camundongos que foram sensibilizados de forma semelhante, mas não tiveram a pele lesionada, tiveram reações alérgicas menos graves. Ao examinar biópsias de quatro crianças com eczema e quatro sem a complicação, os cientistas encontraram mais mastócitos no primeiro grupo, independentemente dos níveis de IgE. “A pele é o principal portal para sensibilização da alergia alimentar. Você tem que selar a pele e dar medicamentos para reduzir a coceira”, sugere Raif Geha.

 

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