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Correio Braziliense

Estudo mostra que é necessário criar testes de leishmaniose mais eficazes

Desempenho de oito testes de diagnóstico fica abaixo do esperado em pesquisa usando amostras de 236 pacientes com suspeita clínica da doença. Resultado de estudo brasileiro reforça a necessidade de criação de abordagens mais eficientes


postado em 19/07/2019 06:00

(foto: Arte/CB/D.A Press )
(foto: Arte/CB/D.A Press )


O tratamento da leishmaniose visceral, assim como o da maioria das enfermidades, é mais promissor quando ocorre o diagnóstico precoce do problema. Mas os testes usados para detectar essa doença podem ter a eficiência melhorada, defendem cientistas brasileiros. Os pesquisadores analisaram o desempenho de oito kits de diagnóstico, considerando amostras de 236 pacientes, e chegaram à conclusão de que é necessário o surgimento de opções mais eficazes. Os resultados da pesquisa foram publicados na última edição da revista PLOS Neglected Tropical Diseases.

Segundo a equipe, os testes sorológicos atuais para a leishmaniose visceral variam muito quanto ao desempenho e podem, como um todo, ser inadequados para a identificação da doença. Essa enfermidade tropical é a forma mais grave de leishmaniose e, se não for diagnosticada e tratada em tempo hábil, pode ser fatal. No trabalho, os investigadores ressaltam que aproximadamente 96% dos casos na América do Sul são relatados no Brasil, onde uma variedade de exames sorológicos está disponível. No entanto, nenhuma investigação havia ainda comparado esses exames.

No estudo, os cientistas analisaram oito kits de diagnóstico, usados em 236 amostras de sangue de pacientes com suspeita clínica de leishmaniose visceral. Desses, 77 eram infectados pelo vírus HIV. Os kits testados foram: três ensaios imunoenzimáticos (ELISAs), dois testes de anticorpos de imunofluorescência (IFIs), dois testes imunocromatográficos (ICTs) e um teste de aglutinação direta interna (DAT-LPC).

A maior taxa de acurácia detectada entre os pacientes não infectados pelo HIV foi observada em uma das análises ICTs (96,2%, com 92% de mínima), e em uma de DAT-LPC (95,6%, com 91,2% de mínima). Para os testes ELISA, a acurácia máxima foi de 91,2%, com mínima de 85,2%. Para os exames IFIs, 84,3% de máxima e 77,8% de mínima. Além disso, uma menor precisão foi observada entre os pacientes infectados pelo HIV. O padrão considerado ideal é de 98%.

“Vimos que o desempenho da maioria dos testes, principalmente dos ELISAs e de imunofluorescência, é insuficiente. Avaliamos também pessoas com HIV, que é uma população mais complicada, por terem baixa produção de anticorpos, e percebemos que a análise deles não foi tão eficiente”, conta ao Correio Mariana Freire, uma das autoras do estudo e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Minas Gerais. O trabalho também contou com a participação de cientistas da Fiocruz na Bahia.

Mais critérios 

Os investigadores destacam que não há consenso sobre as taxas mínimas de sensibilidade e especificidade necessárias para um teste de diagnóstico de leishmaniose visceral, mas os dados mostram que nenhum dos exames avaliados é completamente satisfatório. Para a equipe, os resultados da pesquisa reforçam a necessidade de desenvolvimento de um teste mais eficiente e também de um maior cuidado com a implantação das técnicas já usadas.

“Não atingimos a acuidade e a eficácia que esperávamos e, com isso, vemos que é necessário o desenvolvimento de testes mais eficientes”, detalha Mariana Freire. “Nossas descobertas também destacam a necessidade de critérios mais rigorosos para o registro de produtos diagnósticos no Brasil, incluindo a exigência de realizar estudos de validação antes do marketing.”

Para Werciley Júnior, infectologista e chefe da Comissão de Controle de Infecção do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, a pesquisa brasileira mostra dados importantes, relacionados a um ponto extremamente essencial no combate à leishmaniose. “É uma pesquisa muito boa, pois usa diversos tipos de análise do diagnóstico e revela que ainda temos muito a evoluir nessa área para que a detecção ocorra mais cedo. Isso é extremamente necessário, pois só dessa forma vamos conseguir reduzir a mortalidade desse problema de saúde”, defende.

Novas medidas

Os autores defendem que, antes que novos testes sejam incorporados ao sistema de saúde, sejam considerados, além dos desempenhos, outros fatores, como custo efetividade, produção, autonomia nacional e acessibilidade. “Nós também enviamos uma cópia dos nossos resultados para o Ministério da Saúde, onde propomos novas metodologias e medidas mais efetivas que podem ser usadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), na regulação dos kits de diagnóstico”, conta Mariana Freire.

A cientista brasileira destaca que análises mais apuradas estão em andamento, com foco, por exemplo, na melhor opção econômica para o sistema público de saúde. “Já temos um estudo que analisa os testes pelo perfil financeiro, mostrando qual seria a melhor opção para ser disponibilizada no Sistema Único de Saúde (SUS). Ainda submeteremos a uma revista especializada, mas acredito que não demorará muito para divulgarmos”, adianta.

Mariana Freire pontua outros aspectos importantes para melhorar o enfrentamento à leishmaniose visceral. “Precisamos de um exame que, além de ter segurança, ou seja, essa alta acuidade, possa apresentar resultados rápidos e seja barato. Essas são características de grande importância quando se trata de diagnóstico de doenças”, ressalta.


Contagiosa

É uma enfermidade causada por um protozoário da espécie Leishmania chagasi,  transmitida ao homem pela picada de fêmeas do inseto infectado, chamado popularmente de mosquito-palha. Acomete órgãos internos, principalmente o fígado e a medula óssea. Seus sintomas incluem o emagrecimento e a febre baixa constante. As terapias usadas para combater a leishmaniose visceral são medicamentosas. Se ingeridos corretamente, os remédios podem eliminar a doença completamente.

“Nossas descobertas também destacam a necessidade de critérios mais rigorosos para o registro de produtos diagnósticos no Brasil, incluindo a exigência de realizar estudos de validação antes do marketing” 
Mariana Freire, pesquisadora da Fiocruz em Minas Gerais e uma das autoras do estudo 

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