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Correio Braziliense

Tratamento experimental se mostra capaz de reduzir convulsões da epilepsia

Após quatro semanas submetidos ao tratamento experimental, ratos têm redução de 54% de um dos principais sintomas da epilepsia. Resultado obtido por cientistas americanos abre portas para novo tratamento em humanos


postado em 30/07/2019 06:00 / atualizado em 30/07/2019 00:23

(foto: Thiago Fagundes/CB. Press)
(foto: Thiago Fagundes/CB. Press)
As crises epilépticas ocorrem em uma em cada 10 pessoas que sofreram lesão cerebral traumática. Cientistas americanos testaram uma nova estratégia para tratar o problema e obtiveram sucesso. Eles removeram neurônios recém-criados em ratos e, graças à intervenção, as convulsões, um dos principais sintomas da epilepsia, foram reduzidas. Os investigadores acreditam que a técnica pode reduzir potencialmente a condição neurológica incurável.

No estudo, os cientistas explicam que pessoas que sofrem lesão cerebral traumática, causada por violência e acidentes de carro, por exemplo, correm maior risco de desenvolver convulsões, que geralmente ocorrem em cicatrizes no cérebro geradas por lesões. Os neurônios gerados após a lesão cerebral geralmente não migram ou se desenvolvem normalmente. Se a condição não for tratada, essas células podem contribuir para o desenvolvimento da epilepsia.

“Já sabíamos que os novos neurônios contribuem para a epilepsia, mas não sabíamos se poderíamos atacá-los após a lesão, depois que as convulsões começam”, relata, em comunicado, Jenny Hsieh, uma das autoras do estudo, publicado na revista The Journal of Neuroscience, e professora de biologia celular da Universidade do Texas, nos Estados Unidos.

Em experimento com ratos, os pesquisadores removeram os novos neurônios que foram se formando nas oito semanas seguintes a uma lesão cerebral e estavam causando convulsões. A equipe monitorou as cobaias ao longo do tratamento e detectou que, após quatro semanas de intervenção contínua, os animais tiveram redução de 65% nas convulsões, quando comparados aos ratos não tratados.

“Agora, sabemos que podemos remover novos neurônios após as convulsões iniciais. Embora não possamos parar as primeiras crises, podemos tentar evitar as convulsões secundárias. Isso é muito estimulante e pode levar a novas estratégias terapêuticas”, destaca a autora do estudo.

Thaís Augusta Martins, neurologista do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Neurologia (SBN), destaca que o trabalho inova ao explorar uma condição conhecida na área médica. “Já sabíamos que pacientes que sofrem com essa enfermidade apresentam neurônios diferentes do normal e presentes em locais distintos do habitual. Achávamos que era por causa da doença, mas vimos que sua origem estaria em danos neurais que, quem sabe, podem ter ocorrido na infância, por exemplo”, explica.

Mais pesquisas

Segundo os pesquisadores, pacientes que passam por convulsão uma semana depois de terem sofrido traumatismo craniano têm 80% mais risco de sofrerem outro ataque epiléptico. Por isso, acreditam que a intervenção testada em ratos poder abrir as portas para novas terapias em humanos.

A equipe, porém, ressalta que outros fatores estão envolvidos na condição neurológica, o que exige mais pesquisas. “Descobrimos, nos experimentos, que, uma vez que o tratamento parou, a redução das convulsões não foi permanente. Isso pode ser devido a alterações anormais no cérebro epiléptico, como inflamação crônica ou astrócitos reativos, afetando o desenvolvimento de novos neurônios. Estamos analisando essas possibilidades agora”, diz Jenny Hsieh.

Thaís Martins também ressalta que os dados obtidos pecam pela falta de estabilidade do efeito do tratamento. “Após as semanas de terapia, as crises retomaram. Isso mostra que é preciso entender melhor essa relação, mas essa é uma luz no fim do túnel, uma possibilidade de reduzir as crises”, avalia. A neurologista acredita que desdobramentos do estudo poderão focar em estratégias de intervenção clínica. “Acho que é possível fazer o mesmo em humanos, mas com outros tipos de recurso, como fármacos que possam atuar da mesma maneira na neurogênese e o uso do retrovírus, que consegue entrar no DNA das células”, ilustra.

Reação elétrica

Durante uma convulsão, há uma atividade elétrica anormal no cérebro que resulta em vários sintomas: movimento estranho da cabeça, corpo, braços, pernas e/ou olhos, como enrijecimento ou tremor. A falta de resposta e o olhar, a mastigação, o batimento dos lábios e até a experiência de imagens visuais estranhas também são indicativos de uma convulsão.

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