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Correio Braziliense

Edição genética corrige com sucesso doenças do sangue em macacos

Testada em macacos, a técnica CRISPR-Cas9 conserta falha genética que desencadeia a anemia falciforme e a beta-talassemia em humanos. Para cientistas americanos, o resultado abre a possibilidade de desenvolvimento de uma nova via terapêutica


postado em 01/08/2019 06:00

Macacos(foto: Ian Gilby, Universidade do Estado do Arizona)
Macacos (foto: Ian Gilby, Universidade do Estado do Arizona)
A tecnologia CRISPR-Cas9, de edição genética, tem sido uma das ferramentas mais exploradas por cientistas, com resultados positivos para além da área médica. Pesquisadores americanos utilizaram a técnica para modificar células-tronco sanguíneas e, como consequência, reverter sintomas clínicos em distúrbios como a doença falciforme e a beta-talassemia. Em testes com macacos, a intervenção obteve sucesso, reativando a produção da hemoglobina, uma das falhas que caracterizam ambas as enfermidades. Os resultados, publicados na última edição da revista Science Translational Medicine, podem contribuir para tratamentos mais eficazes para doenças no sangue.

Os cientistas destacam que o experimento é pioneiro na edição da composição genética de células-tronco sanguíneas, que são a fonte de todas as células do sangue e do sistema imunológico. Eles escolheram um gene relacionado à doença falciforme e à beta-talassemia, doenças caracterizadas por um defeito genético ligado à produção da hemoglobina. Estudos anteriores mostraram que os sintomas dessas enfermidades podem ser revertidos reativando uma versão da hemoglobina que funciona durante o desenvolvimento fetal, mas que é desligada depois do parto.

Os pesquisadores usaram a técnica CRISPR-Cas9 para remover um pedaço do código genético que normalmente desativa as proteínas da hemoglobina fetal. A abordagem de edição genética fez com que os glóbulos vermelhos produzissem continuamente níveis elevados de hemoglobina fetal. Depois, células-tronco editadas em laboratório foram implantadas em macacos. Elas se instalaram, se multiplicaram e produziram células sanguíneas. De acordo com os cientistas, a intervenção resultou em até 20% de hemácias com hemoglobina fetal, revertendo, assim, os sintomas da doença falciforme e da talassemia.

“Não apenas conseguimos editar as células com sucesso, mas também mostramos que elas são enxertadas eficientemente. Isso nos dá uma grande esperança de que possamos traduzir a abordagem em uma terapia eficaz para as pessoas”, detalha, em comunicado, Hans-Peter Kiem, diretor do Programa de Terapia Celular e Genética do Centro de Pesquisa do Câncer Fred Hutchinson, nos Estados Unidos, e um dos autores do estudo. “Além disso, vimos que esse aumento de 20% dos glóbulos vermelhos já se mostra um nível eficiente para reverter os sintomas da doença falciforme e da talassemia”, complementa.

A equipe acredita que outras enfermidades semelhantes possam ser beneficiadas com o desenvolvimento da técnica.“Ao demonstrar como esse seleto grupo de células pode ser eficientemente editado para essas doenças, esperamos usar a mesma abordagem para condições como o HIV e alguns tipos de câncer”, diz Hans-Peter Kiem. “Direcionar essa porção de células-tronco poderia potencialmente ajudar milhões de pessoas com doenças do sangue.”

Mais estudos

Para Rafael de Sá Vasconcelos, hematologista do Centro do Câncer de Brasília (Cettro), o estudo americano mostra dados interessantes, apesar de ainda ser uma pesquisa embrionária. “É uma abordagem que se mostra menos invasiva que os transplantes e que também se diferencia por usar as células do próprio paciente. Os cientistas defendem que, pela primeira vez, foi possível fazer isso com um animal maior, o que mostra como essa tecnologia está cada vez mais próxima de ser usada em seres humanos”, explica.

Apesar dos bons resultados, os pesquisadores destacam que o uso da técnica para o tratamento de doenças sanguíneas precisa ser aprimorado. “Como a tecnologia CRISPR ainda está em fases iniciais de desenvolvimento, é importante demonstrar que nossa abordagem é segura. Não encontramos mutações prejudiciais nas células editadas e, atualmente, estamos realizando estudos de acompanhamento de longo prazo para verificar a ausência de qualquer efeito indesejado”, conta Olivier Humbert, um dos autores do estudo e também pesquisador Centro de Pesquisa do Câncer Fred Hutchinson.

O hematologista brasileiro também acredita que o trabalho americano precisa ser aprofundado até chegar aos testes clínicos. “É necessário aperfeiçoar essa técnica para que ela possa ser usada com o mesmo sucesso em modelos humanos. Para isso, ainda é importante um trabalho mais aprofundado. É um processo lento, mas esse cuidado é necessário para que não ocorram efeitos adversos, para garantir a segurança do uso da técnica”, observa Rafael de Sá Vasconcelos.

Cura pelo transplante

As duas doenças são provocadas por alterações genéticas que interferem na produção da hemoglobina. Os sintomas incluem fadiga, feridas e dores no corpo, sendo que, na beta-talassemia, eles são menos frequentes e graves. Para o diagnóstico de ambas as enfermidades, é necessário exames que quantifiquem os níveis de hemoglobina. O tratamento inclui transfusões sanguíneas, antibióticos, analgésicos e suplementos vitamínicos, mas somente o transplante de medula óssea pode resultar em cura.

Para saber mais

Também no campo

A técnica CRISPR-Cas9, que funciona como uma espécie de tesoura que retira ou incorpora novos genes ao DNA, tem sido um dos pilares de pesquisas científicas não só na área médica. Especialistas acreditam que a tecnologia pode ser usada para desenvolver culturas agrícolas resistentes a pragas e também para corrigir falhas em micro-organismos que desencadeiam problemas na agricultura e na pecuária.Cientistas chineses trabalham para combater, com a ajuda da edição genética, a powdery mildew, que afeta o trigo e outras culturas de grande importância agrícola. No Brasil, a Embrapa desenvolve projetos em que a técnica é explorada em busca de melhorias na agronomia e na produção de gado.

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