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Correio Braziliense

Cientistas apontam exercícios que ajudam a perder peso em nível genético

Ao analisar 18,4 mil adultos, cientistas da China identificam seis atividades físicas com maior potencial para minimizar o efeito de genes sobre o ganho de peso. Caminhada, montanhismo e ioga estão entre elas


postado em 02/08/2019 06:00

(foto: Humberto Pellizzaro/Divulgação)
(foto: Humberto Pellizzaro/Divulgação)
A obesidade é um problema de saúde que tem assustado especialistas da área médica devido ao aumento da incidência em muitos países, incluindo o Brasil. Em busca de formas mais eficazes de combater o problema, cientistas da China realizaram uma pesquisa em que relacionaram marcadores do risco genético da doença com o efeito de uma série de atividades físicas. Ao analisar dados de mais de 18 mil pessoas, eles conseguiram definir quais os exercícios têm maior potencial para contribuir no combate ao excesso de peso. As descobertas foram publicadas na revista PLOS Genetics.

“Realizar exercícios regulares pode atenuar o efeito genético sobre a obesidade. No entanto, a maioria dos estudos sobre o tema concentrou-se, principalmente, no índice de massa corporal (IMC) para analisar essa relação”, destaca ao Correio Wan-Yu Lin, professor da Universidade Nacional de Taiwan, na China, e um dos autores do novo estudo. O pesquisador defende que outros fatores biológicos precisam ser considerados. “O IMC é fácil de calcular. No entanto, negligencia a composição gorda do peso corporal. Além disso, não identifica a obesidade central, considerada importante fator de risco para síndromes metabólicas. Em nosso estudo, nós expandimos os dados, pois investigamos cinco medidas de obesidade”, detalha.

No estudo, os cientistas usaram dados de 18.424 chineses adultos, com idade entre 30 e 70 anos. Foram considerados cinco fatores biológicos relacionados à obesidade: IMC, percentual de gordura corporal, circunferência da cintura, circunferência do quadril e relação cintura/quadril, além das rotinas de exercícios. A equipe de pesquisadores descobriu que, entre os 18 exercícios observados, seis fornecem significativa atenuação de efeitos genéticos sobre a obesidade: corrida, montanhismo, caminhada, power walking (caminhada mais intensa), certos tipos de dança, como dance revolution (realizada usando videogame), e práticas mais longas de ioga.

Os pesquisadores destacam que se surpreenderam ao detectar que o ciclismo, exercícios de alongamento e natação não neutralizam os efeitos genéticos sobre a obesidade. “Também observamos que os benefícios da regularidade do exercício são mais impactantes em indivíduos mais predispostos à obesidade. O exercício regular é definido como envolvimento em 30 minutos de exercício três vezes por semana”, explica o autor.

Para Gustavo Guida, geneticista do Laboratório Exame, em Brasília, os dados se destacam como uma análise diferente das até então realizadas. “Ao tentarem usar marcadores já publicados, os cientistas chineses confirmaram que eles não se aplicavam à população deles — como não devem se aplicar à nossa — e geraram um escore próprio”, explica.

Segundo o especialista, o fator mais importante do trabalho foi computar o efeito dos exercícios em relação aos marcadores genéticos. “Mais importante do que reforçar a limitação da interpretação desses marcadores para suas populações de origem, os autores avaliaram o impacto do exercício na obesidade de risco genético e demonstraram que os marcadores de risco genético para obesidade não são uma sentença definitiva, sendo influenciados positivamente pela prática de atividade física”, diz. “Ainda é interessante apontar que, à exceção do montanhismo, todos os exercícios com impacto relevante nas medidas de obesidade são simples, ao alcance das pessoas, mesmo as que já são obesas.”

Prevenção

Os autor frisa que os dados podem contribuir em estratégias preventivas. “A obesidade é causada pela genética, por fatores de estilo de vida e pela interação entre eles. Embora os materiais hereditários sejam inatos, os fatores ligados ao estilo de vida podem influenciar”, destaca Wan-Yu Lin.

Gustavo Guida também acredita que as informações obtidas podem ser aproveitadas na área terapêutica. “Ajudam muito. Principalmente por reforçar as ideias de que um escore de risco genético não obriga a pessoa a se tornar obesa e de que a população de alto risco apresenta média de ganho de peso muito maior quando sedentária. O exercício não torna essas pessoas magras, mas impacta de modo positivo em importantes marcadores clínicos de risco de mortalidade. A consciência de que o papel da atividade física nesse grupo vai além do objetivo estético e tem o potencial de melhorar a expectativa e a qualidade de vida é essencial.”

A próxima etapa da pesquisa é voltada para a investigação de outros comportamentos capazes de diminuir os efeitos genéticos dos distúrbios. “Embora a genética seja inata, a influência negativa sobre as pessoas pode ser mitigada por algum estilo de vida ou fatores ambientais”, justifica Wan-Yu Lin. “A replicação em outras populações, se alcançasse os mesmos resultados, seria de grande valia”, sugere o geneticista brasileiro.

Roteiro diversificado

 

Os cientistas analisaram práticas de corrida, caminhada, power walking, jogging, alpinismo, ciclismo, exercício de alongamento, dança padrão, dance revolution, natação, ioga, qigong, musculação, badminton, tênis de mesa, tênis, tai chi chuan e basquete.

Para saber mais

 

Quase 20% de obesos 

Dados divulgados, na semana passada, pelo Ministério da Saúde mostram que a obesidade voltou a crescer no Brasil após três anos de taxas estáveis. De 2015 a 2017, a prevalência da enfermidade se manteve em 18,9%. Mas a taxa subiu para 19,8% no ano passado. Considerando os dados obtidos na sondagem de 2006, o aumento da incidência da doença é de 67,8% nos últimos 13 anos.

Os dados também mostram que o problema é mais significativo entre adultos com idade de 25 a 34 anos e de 35 a 44 anos, com aumento de 84,2% e 81,1%, respectivamente, no mesmo período. A pesquisa também registra crescimento considerável de excesso de peso (sem configurar obesidade) nos brasileiros. Mais da metade da população, 55,7%, tem o problema — um aumento de 30,8% quando comparado ao percentual 42,6%, registrado em 2006.

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