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Correio Braziliense

Cientistas apontam que escolhas de gêmeos têm pouca influência genética

Gêmeos univitelinos fazem escolhas alimentares que recebem pouca influência de características genéticas, mostra pesquisa com mais de mil voluntários. Segundo especialistas, o resultado enfatiza a importância de abordagens personalizadas para enfrentar a obesidade


postado em 07/08/2019 06:04 / atualizado em 08/08/2019 18:11

(foto: Daniel Búrigo/CB/D.A Press)
(foto: Daniel Búrigo/CB/D.A Press)
Apesar de partilharem a mesma carga genética, gêmeos idênticos se comportam de maneiras distintas. Pesquisadores e especialistas atribuem o fenômeno a influências do ambiente e a experiências individuais acumuladas durante a vida. Até agora, porém, não havia estudos tratando de questões alimentares entre esses indivíduos. Uma equipe de cientistas do King’s College London, no Reino Unido, e do Hospital Geral de Massachusetts, nos Estados Unidos, comprovou que uma única orientação alimentar para gêmeos idênticos é ultrapassada. Para eles, a constatação reforça a importância da abordagem nutricional personalizada para evitar problemas como obesidade e outros distúrbios alimentares.

“No mundo da nutrição, há uma mudança real acontecendo.Isso é realmente empolgante. Significa que, individualmente, temos o poder de mudar a forma como reagimos aos alimentos e de fazer as melhores escolhas”, frisa Sarah Berry, professora-associada do King’s College London e participante do estudo, apresentado nas conferências da Sociedade Americana de Nutrição e da Associação Americana de Diabetes.

A pesquisa é composta por duas partes. No primeiro momento, mais de mil adultos no Reino Unido e nos Estados Unidos foram estudados durante duas semanas, sendo que 60% deles eram gêmeos univitelinos. Os cientistas monitoraram regularmente o açúcar no sangue, a insulina, os níveis de gorduras e outros marcadores sanguíneos em resposta a uma combinação de refeições escolhidas livremente de um determinado menu. Também foram feitas análises da flora intestinal dos voluntários, que usaram um dispositivo vestível para monitorar o sono e o exercício físico ao longo do experimento.

Na segunda parte do estudo, os participantes registraram a própria ingestão de alimentos, a fome e a medicação pessoal diária em um aplicativo de monitoração. Durante 11 dias, eles receberam kits caseiros que continham refeições prontas. Em horários pré-determinados, deviam comer os alimentos enviados e, ao fim do dia, enviar amostras de fezes e de sangue coletadas. Durante essa etapa, cada participante registrou mais de 150 refeições no aplicativo.

Os pesquisadores usaram máquinas com técnicas de aprendizado para analisar detalhadamente os dados nutricionais recolhidos. Os resultados foram surpreendentes, segundo eles. Constatou-se uma variação maior do que a esperada nas respostas do sangue às mesmas refeições. “Os gêmeos idênticos, que compartilham todos os seus genes e a maior parte de seu ambiente, frequentemente tinham respostas diferentes a alimentos iguais”, conta Sarah Berry.

Por exemplo, alguns apresentaram aumento rápido de açúcar no sangue e de insulina. Em outros, o fenômeno — relacionado ao ganho de peso e à ocorrência do diabetes —  foi mais prolongado. A cientista explica que essa e outras variações detectadas são apenas parcialmente explicada por fatores genéticos. “Menos de 50% das respostas dos gêmeos idênticos para glicose, menos de 30% para insulina e menos de 20% para gordura foram iguais, ou seja, uma pequena parte é influenciada geneticamente”, detalha. “Descobrimos que a maioria das diferenças entre as pessoas se deve a fatores ambientais. Os resultados nos permitem ver exatamente quanto é controlado pela genética e quanto é controlado pelo ambiente.”

Flora intestinal

Outro dado que chamou a atenção dos pesquisadores foi a diversidade de micróbios presentes no intestino dos voluntários: apenas 37% das floras intestinais estudadas dos gêmeos univitelinos eram iguais, sendo que a taxa foi 35% nos outros indivíduos que não eram gêmeos. “A escala e os detalhes do nosso projeto científico são tais que, pela primeira vez, podemos explorar ricos dados de nutrição ao nível de um indivíduo. Foi um verdadeiro choque ver que até gêmeos idênticos têm respostas tão diferentes”, ressalta Tim Spector, líder do Departamento de Pesquisa de Gêmeos e Epidemiologia Genética do King’s College London.

Thainara Pires, nutricionista do Hospital Anchieta e especialista em nutrição clínica funcional e fitoterápica, explica que, até o momento, as respostas dos gêmeos idênticos aos alimentos eram tratadas com uma certa incerteza. Em muitos casos, recomenda-se a mesma dieta a esses indivíduos e são esperadas respostas semelhantes. “Esse estudo traz maior segurança na forma de agir com esse público. Mostra que devemos dar maior atenção à individualidade, pois cada um tem uma carga genética e um metabolismo únicos”, diz.

Segundo o professor associado do Departamento de Ciências Fisiológicas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Alex Rafacho, os benefícios que o estudo proporciona são de grande importância para a medicina. “Acho que ele reforçará e estimulará o investimento nas abordagens individuais. As terapias individuais devem ser cada vez mais aconselhadas. Por isso, os profissionais da área da saúde e o sistema de saúde devem refletir sobre a forma como se aborda os pacientes. Consultas de cinco minutos jamais revelarão o histórico de uma pessoa”, destaca.

O especialista também chama a atenção para a importância de considerar a genética como o ponto de partida para uma abordagem individualizada. “Isso quer dizer que o ambiente ao que nos expomos pode modificar o padrão de atividade dos nossos genes. Esse estudo revela, em certa medida, que somos individuais a partir do momento em que decidimos o repertório de nossas experiências, das escolhas que fazemos”, justifica.

Palavra de especialista

Genética não é sentença

“Os fatores genéticos certamente podem afetar o metabolismo do organismo humano, principalmente no que diz respeito à predisposição para doenças do metabolismo. Mas o estudo reafirma o fato de que a genética não condena nem explica todas as doenças, pois o ambiente, ou seja, a vida prática, pode determinar os resultados. Fatores ambientais, como alimentação e atividade física, fazem toda a diferença. O filho sedentário, por exemplo, tem mais chance de desenvolver a doença do que o filho que pratica exercícios físicos. A genética não é definitiva, pois a expressão dos genes sofre influência ambiental”, Fabiana Nalon, mestre em Nutrição Humana e Pesquisadora do Departamento de Nutrição da Universidade de Brasília (UnB).

*Estagiária sob supervisão de Carmen Souza

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