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Correio Braziliense

Estudo alemão busca desvendar a origem das pedras na vesícula

Células do sistema de defesa podem estar ligadas ao surgimento de cálculos biliares, mostra estudo alemão conduzido com ratos. A descoberta abre caminho para o desenvolvimento de tratamentos em humanos, sem a necessidade de fazer cirurgias


postado em 16/08/2019 06:00

(foto: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
(foto: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
O cálculo biliar, também conhecido como pedra na vesícula, é um problema de saúde bastante comum na população. Apesar disso, seus mecanismos de formação não são completamente conhecidos. Em análises laboratoriais, pesquisadores da Alemanha observaram que células imunes estão envolvidas nesse processo. Os autores do trabalho, publicado na última edição da revista especializada Immunity, acreditam que a descoberta pode ajudar no desenvolvimento de tratamentos mais eficazes para o problema, eliminando, por exemplo, a necessidade de realização de cirurgia.

Embora a maioria das pessoas com cálculos biliares não apresente sintomas, há a possibilidade de surgimento de dor abdominal, náusea e vômito, que costumam levar a internações. Nesses casos, a cirurgia para remover a vesícula biliar é uma das operações mais adotadas. Há também a opção de medicamentos que quebram os cálculos biliares, mas o resultado pode demorar meses ou até anos.

Um obstáculo que limita o desenvolvimento de novas abordagens médicas é o fato de os cientistas não entenderem exatamente como as pedras se formam. Sabe-se, há décadas, que a precipitação de colesterol e sais de cálcio na bílis é um pré-requisito para a formação de cálculos biliares, mas não está claro o que faz com que os dois se juntem para o surgimento do problema.

Em um estudo anterior, ao analisar cálculos extraídos de pacientes humanos, a mesma equipe de pesquisadores detectou a existência de grandes placas de DNA, bem como uma atividade significativa da elastase neutrofílica, uma enzima que ajuda a quebrar proteínas e células danificadas ou de envelhecimento. Segundo os cientistas, juntas, essas moléculas são sinais reveladores da presença de TNEs — estruturas, semelhantes a teias, que são expelidas por neutrófilos e ajudam a proteger contra a infecção. As TNEs, porém, também estão implicadas em distúrbios autoimunes e inflamatórios.

Drogas

No novo trabalho, para entender melhor o papel das TNEs e dos neutrófilos no desenvolvimento dos cálculos biliares, os cientistas alimentaram camundongos com uma dieta rica em colesterol, o que induziu a formação dos cálculos. Eles observaram que o número e o tamanho dos cálculos biliares eram menores em ratos com defeitos genéticos que inibem a formação de TNEs. O tamanho dos cálculos biliares também era menor em roedores com menos neutrófilos.

No experimento, a equipe também conseguiu reduzir, em cobaias, o número e o tamanho dos cálculos biliares usando duas substâncias: um composto que inibe a proteína arginina desiminase 4 (PAD4), enzima envolvida na formação de TNEs, e o betabloqueador metoprolol, que interfere na migração de neutrófilos. Essa última substância é amplamente utilizada para o tratamento da hipertensão arterial e dor torácica.

“Neutrófilos têm sido considerados a primeira linha de defesa contra a infecção. E nós fornecemos evidências adicionais em relação à natureza de ‘espada de dois gumes’ dessas moléculas, mostrando que elas também desempenham um papel importante na montagem e no crescimento de cálculos biliares”, destaca, em comunicado, Martin Herrmann, imunologista da Universitätsklinikum Erlangen, na Alemanha, e um dos autores do estudo. “Atacar neutrófilos e a formação de TNEs pode se tornar um instrumento atraente para evitar cálculos biliares em populações de alto risco”, frisa.

Bernardo Martins, médico gastroenterologista do Hospital Santa Lúcia Norte, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Gastroenterologia (SBG), acredita que a pesquisa mostra dados extremamente interessantes sobre uma complicação com alta incidência. “Sabemos muito apenas em relação aos fatores de risco, sobre quais sujeitos têm mais chances de apresentar esse problema — no caso, mulheres com muitos filhos e pessoas obesas que perdem peso muito rapidamente. Hoje, quando pensamos em uma saída para esse problema, a única alternativa é retirar a vesícula”, explica.

Mais estudos

Para o médico brasileiro, os novos dados podem oferecer opções mais eficazes de tratamento. “Esse estudo levanta a possibilidade da criação de outras alternativas medicamentosas. Com base nesses dados, podem surgir medidas menos invasivas”, acredita. Bernardo Martins, porém, ressalta a necessidade de mais investigações. “É necessária uma análise em humanos para ver se as observações em ratos se repetem. Só com isso saberemos se o uso da estratégia de destruir neutrófilos pode ser uma alternativa de tratamento, e sem gerar efeitos colaterais”, frisa.

Apesar de acreditar que a identificação de neutrófilos e TNEs como “culpados” da formação e do crescimento de cálculos biliares abre novos caminhos para intervenções terapêuticas, os investigadores também ponderam a importância da realização de mais análises. Para eles, os primeiros resultados obtidos com o uso de uma molécula já prescrita por médicos poderão ser um impulso em etapas futuras da pesquisa. “A possibilidade de interromper esses processos com novos inibidores de PAD4 ou com metoprolol, um betabloqueador já bem estabelecido, pode introduzir novas estratégias terapêuticas que evitem a cirurgia”, explica Luis Muñoz, coautor do estudo.

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