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Correio Braziliense

Grandes espécies de animais de água doce estão ameaçadas, aponta estudo

Declínio de 88% se deu entre 1970 e 2012 e equivale a duas vezes a perda de vertebrados em terra ou no oceano, segundo estudo alemão. Grandes répteis e peixes estão entre os animais mais atingidos


postado em 17/08/2019 07:00

O comércio de animais e a construção de barragens são os principais causadores da redução da megafauna de rios e lagos(foto: Jay Directo/AFP)
O comércio de animais e a construção de barragens são os principais causadores da redução da megafauna de rios e lagos (foto: Jay Directo/AFP)
Embora cubram apenas 1% da superfície da Terra, rios e lagos abrigam um terço de todas as espécies de vertebrados do mundo. Ao mesmo tempo, a vida na água doce está altamente ameaçada. Cientistas do Instituto Leibniz de Ecologia de Água Doce e Pesca Interior (IGB), na Alemanha, quantificaram o declínio global de grandes animais desse habitat. De 1970 a 2012, as populações da megafauna fluvial e lacustre diminuíram 88% — duas vezes a perda de vertebrados em terra ou no oceano. As espécies grandes de peixes são particularmente afetadas. E, segundo alertam os pesquisadores, ainda existem grandes lacunas nas ações de monitoramento e conservação desses animais, particularmente em áreas com altos níveis de biodiversidade.

A megafauna de água doce inclui todos os animais fluviais e lacustres que pesam 30kg ou mais, como golfinhos, crocodilos, tartarugas gigantes e esturjões. Os cientistas coletaram dados de séries temporais disponíveis para 126 espécies em todo o mundo, bem como os dados de distribuição geográfica históricos e contemporâneos de 44 espécies na Europa e nos Estados Unidos. “Os resultados são alarmantes e confirmam os temores dos cientistas envolvidos em estudar e proteger a biodiversidade de água doce”, diz Sonja Jähnig, autora sênior do estudo e especialista em efeitos de mudanças globais nos ecossistemas fluviais.

De 1970 a 2012, as populações globais de megafauna de água doce diminuíram 88%, mais notavelmente nos reinos Indomalaya (99%) e Palearctic (97%) — a primeira cobrindo sul e sudeste da Ásia, além do sul da China, e a última referente à Europa, ao norte da África e à maior parte da Ásia. Espécies grandes de peixes, como esturjões, salmonídeos e bagres gigantes estão particularmente ameaçadas, com um declínio de 94%; seguidas por répteis, com 72%.

Há duas principais ameaças, explicam os pesquisadores. “A superexploração é a mais grave delas, uma vez que os animais de água doce são frequentemente alvo do comércio de carne, pele e ovos. Além disso, o declínio de grandes espécies de peixes também é atribuído à perda de rios de fluxo livre, pois o acesso às áreas de desova e de alimentação é frequentemente bloqueado por barragens”, Fengzhi He, especialista em padrões de diversidade e conservação da megafauna de água doce no IGB.

Embora os grandes rios do mundo já estejam altamente fragmentados, outras 3,7 mil grandes barragens estão em fase de planejamento ou em construção — isso exacerbará ainda mais a fragmentação fluvial. “Mais de 800 dessas barragens estão localizadas em regiões de diversidade de megafauna de água doce, incluindo as bacias dos rios Amazonas, Congo, Mekong e Ganges”, afirma He. Um artigo publicado no ano passado por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa) destacou que, na bacia do Amazonas, em 10 anos, as populações do boto rosa (Inia geoffrensi) e do tucuxi (Sotalia fluviatilis) caíram pela metade.

Conservação

O estudo alemão também destaca a importância de ações de conservação direcionadas às espécies de água doce. Populações de 13 megafaunas, incluindo o esturjão verde (Acipenser oxauris) e o castor americano (Castor canadensis), mantiveram-se estáveis ou até aumentaram nos Estados Unidos. Na Ásia, a população do golfinho do Rio Irrawaddy (Orcaella brevirostris), na bacia do Mekong, aumentou pela primeira vez em 20 anos.

Na Europa, estratégias de conservação eficientes e de grande escala parecem ser mais difíceis de se implementar, diz He, possivelmente devido a fronteiras políticas e a diferenças na consciência ambiental entre os países. No entanto, o castor da Eurásia (Fibra de Castor), por exemplo, foi agora reintroduzido em muitas regiões em que havia sido extirpado. Na Alemanha, o IGB está trabalhando com parceiros internacionais para reintroduzir as duas espécies de esturjão anteriormente nativas: o europeu (Acipenser sturio) e o atlântico (Acipenser oxyrinchus) nas águas europeias.

Algumas das atuais ações de conservação são inadequadas para muitas espécies, alertam os pesquisadores. “De acordo com a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza, mais da metade de todas as espécies de megafauna estão ameaçadas de extinção. No entanto, elas recebem menos atenção de pesquisa e conservação do que a megafauna em ecossistemas terrestres ou marinhos”, lembra Jähnig.

O agora quantificado declínio global da megafauna de água doce destaca a necessidade urgente de ações de conservação para a biodiversidade, alerta o pesquisador. “É importante melhorar o monitoramento das tendências populacionais e distribuições de espécies de água doce em regiões como o Sudeste da Ásia, África e América do Sul. Afinal, mudanças na abundância e distribuição são melhores indicadores da condição dos ecossistemas e de seus organismos vivos”, alega.

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