Ciência e Saúde

De acordo com estudo, estresse pode levar a prejuízos neurais

O esgotamento crônico causa a morte de células-tronco ligadas à formação de neurônios, mostra experimento feito em ratos. Para os cientistas, a descoberta abre a possibilidade de desenvolvimento de novas terapias contra Alzheimer e depressão

Vilhena Soares
postado em 21/08/2019 06:00
 -  (foto: Valdo Virgo/CB. Press)
- (foto: Valdo Virgo/CB. Press)
O esgotamento crônico causa a morte de células-tronco ligadas à formação de neurônios, mostra experimento feito em ratos. Para os cientistas, a descoberta abre a possibilidade de desenvolvimento de novas terapias contra Alzheimer e depressãoO estresse é um problema que acomete praticamente todas as pessoas em ao menos algum momento da vida, e os danos que ele causa à saúde têm sido estudados por diversos especialistas da área médica. Em uma pesquisa recente, cientistas coreanos relacionaram esse tipo de esgotamento à morte de células-tronco neurais hipocampais adultas, ligadas à neurogênese, processo de formação de novos neurônios. Os dados do trabalho, publicados na última edição da revista Autophagy, poderão, segundo os autores, ajudar no desenvolvimento de novas terapias para doença como o Alzheimer e o Parkinson.

O estresse crônico já foi associado à depressão, esquizofrenia e doenças neurodegenerativas. No entanto, os mecanismos relacionados aos danos de funções cerebrais possivelmente provocados pela estafa mental ainda não são bem conhecidos. ;Estudos anteriores mostram que a geração de neurônios é muito menor em camundongos estressados, e que a apoptose1, uma via de ;suicídio; celular (para reestruturação), não é detectada em células-tronco neurais hipocampais adultas (NSCs) desses animais. Isso levou à conclusão de que a morte celular não está relacionada à perda de NSCs durante o estresse;, destacam, no artigo, os autores, liderados por Seong-Woon Yu, pesquisador do Departamento de Cérebro e Ciências Cognitivas no Instituto de Ciência e Tecnologia Daegu Gyeonbuk, na Coreia do Sul.

Para entender melhor os dados relacionados ao estresse e aos danos neurais, os cientistas usaram NSCs derivadas de roedores geneticamente modificados para serem analisados em laboratório. A equipe descobriu que, mesmo em situação de estresse, a morte das células-tronco do hipocampo é evitada e as funções cerebrais normais são mantidas quando o Atg7, um dos principais genes autofágicos, é deletado.

A autofagia é um processo celular para proteger as células de condições desfavoráveis por meio da digestão e da reciclagem de seus materiais internos. Desse modo, pode-se remover componentes intracelulares tóxicos ou antigos e obter nutrientes e metabólitos para sobrevivência. No entanto, sob certas condições, a autofagia se transforma em um processo de autodestruição, levando à morte celular autofágica. ;É uma forma de morte celular distinta da apoptose, que é um processo de reestruturação, ou seja, mais positivo;, comparam os autores.

Gene removido

A equipe de pesquisa também examinou um segundo mecanismo que controla a indução de autofagia de NSCs: o gene SGK3. Quando ele foi removido das células dos roedores, as células-tronco neurais hipocampais adultas não sofreram morte celular. ;Com essas descobertas mecânicas, está claro, em nosso estudo, que defeitos cognitivos causados pelo estresse são causados pela morte autofágica de NSCs de hipocampo adultos;, frisa Seong-Woon Yu.

O pesquisador acredita que mais estudos poderão ajudar no melhor entendimento sobre o processo observado. ;Com pesquisa contínua, poderemos dar um passo adiante em direção ao desenvolvimento de tratamento efetivo de distúrbios psicológicos, como a depressão e a ansiedade;, ressalta.

Seong-Woon Yu adianta os próximos passos da pesquisa.;Esperamos ser capazes de desenvolver tratamentos de doenças mentais muito mais rápidos e eficazes em uma pesquisa conjunta com a Biblioteca Nacional Chinesa, quando vamos buscar desenvolver o inibidor de SGK3, que se mostrou o mais significativo em relação à autofagia.;

Cortisol

Cláudio Roberto Carneiro, médico neurologista do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Neurologia (SBN), acredita que o estudo internacional mostra dados que ajudam a entender melhor a relação entre estresse e danos cerebrais. ;As pessoas estressadas têm um comprometimento cognitivo, uma alteração do hipocampo que acreditamos ser influenciada pelos níveis mais altos do cortisol. Em um nível expressivo, esse hormônio pode influenciar a morte celular, que, no estudo, vemos como a responsável pelos prejuízos neurais;, detalha.

Para Carneiro, podem surgir mais opções de tratamentos com base no estudo da equipe coreana, mas são necessárias mais pesquisas. ;Vimos as vias relacionadas à morte dessas células. Então, o ideal seria encontrar medicamentos que bloqueassem esses receptores. Caso o cortisol aumente, os danos não serão registrados se a intervenção for feita;, explica. ;Mas o trabalho foi conduzido ainda em ratos. Seria interessante encontrar os mesmos resultados em material humano. Seria ótimo avaliar tecidos humanos em laboratório e ver se esses receptores possuem as mesmas ações vistas nos animais.;

Para saber mais

Depressivos ficam mais vulneráveis

O estresse cotidiano pode gerar danos à saúde cardíaca, principalmente em indivíduos depressivos. É o que mostra um estudo norte-americano publicado, em maio, no Journal of the American Heart Association. Para chegar à conclusão, os pesquisadores analisaram 43 adultos sem problemas cardiovasculares, com vida ativa e não tabagistas, considerando também sintomas de depressão.

No dia do experimento, os participantes foram orientados a relatar fatores estressores que haviam tido contado nas 24 horas anteriores, incluindo discussões e problemas no trabalho ou na escola. Também foi medida a função endotelial dos voluntários ; um processo que ajuda a regular o fluxo sanguíneo.

A equipe detectou que aqueles que tinham passado por situações recentes de estresse apresentaram pior função endotelial, sendo que os indivíduos com sintomas de depressão obtiveram resultados ainda piores. ;Eles também experimentaram mais estresse e o classificaram como sendo mais severo do que adultos saudáveis não deprimidos, o que confirma a ligação entre estresse e depressão;, frisa, em comunicado, Jody Greaney, professora-assistente na Universidade do Texas em Arlington e coautora do estudo.

A equipe acredita que os resultados ajudarão no desenvolvimento de novas intervenções médicas. ;Esse estudo pode ser um ponto de partida para investigações relacionadas a estratégias comportamentais que possam ajudar a lidar com estressores do cotidiano, protegendo, assim, a saúde cardiovascular;, afirma Lacy Alexander, professora-associada de cinesiologia na Universidade de Penn State.

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