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Correio Braziliense

Correio Debate: Obesidade cresce por inércia política

Falta atitude global para promover mudanças nos sistemas alimentares dos países e buscar hábitos mais saudáveis


postado em 27/08/2019 07:00 / atualizado em 27/08/2019 10:29

Para o professor Boyd Swinburn, como há conflito de interesses, os governos preferem adotar medidas amenas e relutam em regular e tributar alimentos nocivos à saúde(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Para o professor Boyd Swinburn, como há conflito de interesses, os governos preferem adotar medidas amenas e relutam em regular e tributar alimentos nocivos à saúde (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 
Mesmo com o reconhecimento do aumento da obesidade no Brasil e no mundo e das diversas soluções indicadas para redução do problema de saúde pública, a doença é crescente, revelam pesquisas e estudos. Uma possível explicação para isso é chamada de inércia política. O professor de saúde global da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, Boyd Swinburn, afirma que existe uma falta de atitude global quando se fala em mudança dos sistemas alimentares dos países e na busca por uma alimentação mais saudável.

“Há pilhas de relatórios publicados sobre o que deveríamos fazer. Nós sabemos o que deve ser feito, mas não implementamos. Isso não é um problema brasileiro, é um problema global”, aponta. Swinburn elenca alguns motivos que explicam a inércia política mundial. O professor da Universidade de Auckland cita a falta de atitude dos governos diante da oposição feita pela indústria alimentar. “O sistema alimentar que criamos tem como foco principal o lucro, e não os resultados. Isso acontece porque a economia política acaba priorizando os lucros ao invés da saúde”, avalia. A resistência da indústria influencia automaticamente as ações do governo, que mostra relutância em regular e tributar alimentos e produtos.

“O governo prefere fazer ações mais amenas, porque, geralmente, há conflito de interesses. Os governos têm boa crença nas abordagens educacionais. A educação sobre a saúde é muito importante, mas não é muito poderosa sem as medidas mais robustas”, indica. Boyd acredita que educação é vista como uma das principais soluções, mas explica que perde eficácia sem um ambiente adequado. “As pessoas ensinam quais comidas são saudáveis, mas se enchem de porcaria. É como se a educação voasse pela janela. Não adianta educar se o ambiente é conducente com outra realidade”, ressalta.

Outra questão que influencia diretamente na criação de uma inércia política é a falta de demanda pública por soluções. “A população quer incentivo à alimentação saudável, mas é um apoio silencioso, sem protestos ou atos. Isso nunca chega na mesa dos ministros”, destaca. Apesar de esbarrar nas questões citadas por Boyd, as soluções divulgadas nos relatórios prometem diminuir com a obesidade e outras doenças decorrentes de uma má alimentação.

As respostas para o alcance de alimentação saudável passam pela cobrança maior de tributos sobre refrigerantes e bebidas açucaradas, restrição de propagandas de certos alimentos para crianças, rotulagem mais clara e uma oferta de serviços de alimentação saudável. “Existem pesquisas e estudos que comprovam que essas soluções existem. Não há política que possa ser posta em prática para ensinar as pessoas a comerem e obrigar elas a comerem bem. Podemos afetar o ambiente alimentar com as políticas e, dessa forma, mudar a forma como comem”, afirma.

Alertas

Boyd diz que o Brasil é um dos países que se destacam nas políticas públicas de alimentação. O pesquisador tirou um ano sabático para pesquisar como a implementação dessas soluções é feita nos países que estão à frente nessa questão. “México, Peru, Chile, Brasil são alguns dos exemplos. A América Latina é a região que está mais à frente na questão de implementação de políticas públicas alimentares e o melhor exemplo atualmente é o Chile”, indica.

Aquele país mudou a rotulagem de produtos processados e ultraprocessados em 2016. Há três anos, esses alimentos passaram a exibir alertas na parte da frente das embalagens que informam ao consumidor as quantidades excessivas de nutrientes prejudiciais, como sódio, açúcar e gordura.

Estudo divulgado pela Universidade do Chile já apontou resultados positivos com a mudança. Segundo a pesquisa, ocorreu uma diminuição na compra de produtos altos em açúcar, como bebidas açucaradas e cereais matinais. No caso das bebidas, a queda na compra foi de 25%. Enquanto no caso dos cereais, foi registrada uma redução de 14%.

Toda cadeia tem de ser sustentável

Ao analisar os prós e contras do sistema alimentar do Brasil, o professor de saúde global da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, Boyd Swinburn destaca outro importante desafio para vencer. Além de saudável, o especialista afirma que é necessário que o sistema alimentar do país seja sustentável.

De acordo com Swinburn, toda a cadeia alimentar do Brasil contribui com mais de 50% para as emissões de gases de efeito estufa (GEE). “Juntos, o desmatamento e a agropecuária, que estão ligados à produção de alimentos, são a maior causa de emissões de gases. Esse é um outro motivo que mostra a necessidade de modificar o sistema”, avalia. Além de emitir GEE, a estrutura atual contribui com a poluição de rios e diminui a biodiversidade.

No entanto, nem tudo é negativo. Ao avaliar o sistema brasileiro, é possível encontrar grandes pontos positivos. Segundo Swinburn, a estrutura gera riquezas para o país, já que há grande capacidade de exportação, além de garantir alimento para 209 milhões de pessoas todos os dias. “Os sistemas alimentares dos países fornecem uma mistura de questões importantes e muitos nocivas. Para mim, isso é um sinal de que precisamos modificá-los e projetá-los para o século 21”, sustenta.

Reconstrução

A solução passa por uma reconstrução da própria estrutura e também do pensamento da sociedade civil. “Temos um ambiente obesogênico e que estimula o consumo já que o principal foco é o lucro. Logo, o problema da obesidade não pode ser visto como uma falta de vontade pessoal. É um problema sistêmico e complexo”, explica. A responsabilização, portanto, deve ser mais forte. “Precisamos encarar esse problema como uma sindemia global”, completa o professor.

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