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Correio Braziliense

Alimentos nocivos à saúde devem ser sobretaxados, defende especialista

Especialista explica que várias causas contribuem para o ganho de peso, entre elas, fatores psicológicos, sedentarismo, predisposição genética e hábitos alimentares


postado em 27/08/2019 07:00

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Para combater a obesidade e doenças relacionadas ao padrão alimentar, a chefe da Liga de Obesidade Infantil do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), endocrinologista Maria Edna Melo, defende sobretaxas em produtos que podem ser prejudiciais à saúde da população. “Só vai impactar quando bater no bolso. Então, o alimento que traz prejuízo precisa ter um preço diferenciado”, sustenta.

Maria Edna ressalta que a obesidade cresce mundialmente. “Nunca foi feito nada eficaz, nem em países ricos, nem em pobres. De forma populacional, compromete a saúde e tem efeito financeiro. Por isso, o  governo começa a prestar mais atenção. Mas, nem por isso, as pessoas obesas são respeitadas. Escutei um gestor de saúde dizer que elas devem morrer logo, pois vão deixar de gastar dinheiro do sistema de saúde”, lamenta.

A médica afirma que a obesidade é tratada com simplismo, mas é muito complexa. “O que incomoda é que essa complexidade não interessa para a maioria das pessoas. Cada um tem seu conceito próprio, são livres para falar, mas, às vezes, falam muita besteira. É isso que compromete individualmente a saúde”, destaca.

A endocrinologista aponta várias causas que contribuem para o ganho excessivo de peso, entre elas, fatores psicológicos, sedentarismo, predisposição genética e alimentação. “Temos uma perspectiva de melhora da economia. A pessoa vai ter mais dinheiro e o que ela vai comprar? Aquilo que é mais gostoso e geralmente tem mais ingredientes críticos”, sublinha. “Essa pessoa comerá em excesso e vai acelerar o aumento da obesidade”, acrescenta.

Para reduzir a prevalência da obesidade, a médica propõe mudanças no sistema alimentar. Taxar produtos embutidos e ultraprocessados é uma sugestão. “É nítido que os vegetais hoje são muito mais caros do que a alimentação industrializada. Um lanche com fruta acaba saindo mais caro do que um lanchinho de bolacha recheada e isso tem um impacto”, argumenta. “É preciso inverter essa oferta para o consumidor. O consumo de bons alimentos só será facilitado quando estiverem mais baratos. Até porque os processados são muito mais chamativos em termos de paladar”, explica.

Genética

Sobre a predisposição genética, a médica observa que o ser humano foi direcionado ao longo de milênios para a economia de energia. “Sempre teve predisposição genética. Nas últimas décadas, a obesidade começou a crescer pela mudança no padrão alimentar acompanhada de uma rotina de vida mais sedentária. “Houve impacto no sistema alimentar”, resume.

A especialista destaca, ainda, que indivíduos com obesidade possuem o funcionamento diferente no sistema central e têm tendência a maior consumo em relação à comida. “Existe um processamento neural que determina se a gente vai comer ou não e a quantidade. É extremamente complexo tanto na etiologia, quanto na abordagem. Não é um botão de liga-desliga. Os obesos possuem regulação do apetite alteradas. É uma doença crônica”, ressalta.

Ela explica que o processo de engordar ocorre quando o indivíduo come mais do que gasta e que realizar o gerenciamento do peso corporal envolve uma série de fatores, não se restringindo apenas às atividades físicas, mas aliado a um balanço entre consumo e gasto diário. Maria Edna diz que exercícios são importantes para a saúde geral e estão associados à manutenção do peso. “O ideal seria o gasto calórico de 700 calorias (kcal) por dia, o equivalente a cerca de uma hora de corrida”, orienta.

Compensação

Apesar de reconhecer a importância das atividades físicas para a saúde, a médica recomenda não colocar isso muito na balança. “Na média, pode até haver emagrecimento, mas não é suficiente para mudar de forma significativa o peso das pessoas”, assinala. A atividade física deve ser complementar, mas não como objetivo de mudança para um estado nutricional melhor. “Se pensar no peso, vai sempre existir a compensação, principalmente em crianças e adolescentes. Tem que separar as coisas”, sustenta.

Para a especialista, a comida preparada em casa possui um conteúdo nutricional muito mais saudável. Porém, alerta que o hábito de fazer refeições enquanto se trabalha ou assiste televisão é nocivo, pois, além de impulsionar a comer mais do que o necessário, também prejudica a mastigação e, por consequência, a digestão.

“O momento de comer e o que a gente come são fundamentais para o nosso bem-estar e para uma refeição mais balanceada. Portanto, deve ser focado na refeição. Olhar para smartphones, tablets ou assistir TV enquanto come estão associados a uma pior qualidade de vida e implicam em risco de ganho de peso.”

Guia das 10 dicas

Existem vários guias para ajudar quem quer adotar uma alimentação mais saudável. O Ministério da Saúde tem uma versão de bolso do Guia Alimentar para a População Brasileira com dicas simples e um teste para avaliar os hábitos alimentares. O manual garante que é possível mudar a alimentação e a saúde a partir de 10 passos.

O guia recomenda pelo menos três refeições (café da manhã, almoço e jantar) e dois lanches saudáveis por dia, para evitar que o estômago fique vazio por muito tempo. Isso diminui o risco de ter gastrite e evita ficar com muita fome e exagerar na quantidade quando for comer. “Evite beliscar entre as refeições, isso vai ajudar a controlar o peso. Aprecie a comida devagar, mastigando bem os alimentos”, orienta.
O consumo frequente e em grande quantidade de sal, gordura, açúcar, doce, refrigerante, salgadinho e outros alimentos industrializados aumenta o risco de doenças como câncer, obesidade, hipertensão arterial, diabetes e doenças do coração. “Escolha os alimentos mais saudáveis, lendo as informações e a composição nutricional nos rótulos”, sugere.

Dupla diária

Segundo o manual, é saudável incluir diariamente seis porções do grupo de cereais, de preferência integrais, e pelo menos três porções de legumes e verduras nas refeições. Nos lanches e sobremesas, o guia indica frutas. Sucos naturais feitos na hora são os melhores, destaca.
A dupla brasileira feijão com arroz pode estar no prato todos os dias ou, pelo menos, cinco vezes por semana, conforme a publicação, que indica sementes e castanhas como gorduras de boa qualidade. Carnes são fontes de proteínas, mas o ideal é tirar a gordura ou a pele. Veja mais dicas no link.

(foto: Thiago Fagundes/CB/D.A Press)
(foto: Thiago Fagundes/CB/D.A Press)

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