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Correio Braziliense

Sobrepeso na terceira idade pode impactar na longevidade

Série do Correio mostra como cientistas têm estudado o fenômeno e proposto soluções


postado em 03/09/2019 06:00 / atualizado em 03/09/2019 08:24

(foto: Paulinho Miranda/CB/D.A Press)
(foto: Paulinho Miranda/CB/D.A Press)
O brasileiro nunca viveu tanto tempo. Também tem exibido pesos e formas corporais cada vez mais avantajados. É fato que a longevidade e a obesidade ganham lugar de destaque em dados oficiais e impressões corriqueiras. Mas há problemas quando elas se encontram, alertam especialistas e estudiosos da área.

Pesquisas mostram que viver mais e melhor não concilia com pesar muito. Se há conflito com a balança, doenças se acumulam e limitações físicas e psicológicas podem comprometer as relações sociais. Tem-se, então, uma velhice pesada, em que a qualidade e a expectativa de vida estão significativamente comprometidas.

O fenômeno já é constatado em estatísticas de países de alta renda. Comparando a expectativa de vida ao nascer na Austrália, nos Estados Unidos e em 18 países da Europa entre 1980 e 2016, pesquisadores da Universidade de Melbourne concluíram que a média de anos vividos tem diminuído nessas populações.

Para Tim Adair, a obesidade exerce papel-chave nessa transformação. “As tendências na longevidade são amplamente impactadas por fatores de risco que ocorrem muitos anos, ou mesmo décadas, antes. Portanto, as tendências futuras de longevidade serão bastante impactadas pelos esforços atuais para reduzir a obesidade”, explica ao Correio o pesquisador da universidade australiana e coautor do estudo, divulgado, em maio, no Medical Journal of Australia.

A equipe observou que, de 2002 a 2016, a diferença na expectativa de vida subiu 2,5 anos para homens na Austrália e dos outros países avaliados. No caso das mulheres, 1,6 ano e 1,8 ano, respectivamente. Analisando períodos anteriores, os cientistas constataram uma desaceleração nos anos a mais de vida. Por exemplo, entre 1991 e 2004, o ganho foi de 3,4 anos para os australianos e de 2,7, para europeus e norte-americanos. “Somados à alta prevalência da obesidade, esses números sugerem que a expectativa de vida no futuro poderá ter médias ainda menores”, frisa Tim Adair.

Para Alexandre Kalache, gerontólogo e presidente do Centro Internacional de Longevidade – Brasil, há motivos para acreditar que o Brasil enfrentará problema semelhante. “A epidemia da obesidade e todas as suas consequências vêm fortes. Nos Estados Unidos, por exemplo, o excesso de peso é a segunda causa de morte de adultos. Estima-se que, na Europa, 15% das mortes prematuras, antes dos 70 anos, são por sobrepeso e obesidade. Não há nenhuma razão para acreditarmos que aqui não seguiremos o mesmo caminho”, diz.

Segundo Kalache, a maioria das vítimas está morrendo prematuramente: tem entre 35 e 59 anos e perde a vida por complicações associadas à obesidade. O risco de ter uma doença cardiovascular aumenta 49% em indivíduos obesos, ilustra o especialista em longevidade. O de ter uma complicação respiratória, 38%, e o de ser acometido por cânceres, principalmente de mama e de intestino, cerca de 20%.

De acordo com o Ministério da Saúde, a obesidade tem crescido justamente em adultos jovens e na meia-idade. De 2006 a 2018, o avanço foi de 81,1% entre brasileiros com 35 a 44 anos, e de 84,2% na faixa de 25 a 34 anos. Considerando a população em geral, a taxa foi de 67,8%. “Isso está muito ligado ao estilo de vida, marcado por dietas pouco saudáveis e sedentarismo. As pessoas ingerem muitas calorias e não conseguem queimá-las”, resume Kalache.

Doença social
O gerontólogo frisa que, no caso do Brasil, é preciso avaliar a faceta socioeconômica do problema. “Aqui, a obesidade tem um caráter bastante cruel. É uma doença social, que atinge principalmente os mais pobres. Para fazer atividade física de forma adequada e regular, a pessoa precisa de um lugar iluminado, com calçada, que não tenha bala perdida, onde as mulheres possam ir sem serem atacadas. Para muitos brasileiros, comer brócolis todo dia é ficar sem dinheiro antes do fim do mês”, ilustra.

No caso de quem passou dos 60 anos, mudanças esperadas com o envelhecimento, como a perda da massa muscular e o aumento da gordura corporal, podem deixar a situação ainda mais delicada. “Dores no joelho e na perna, além das questões vasculares, já dificultam a mobilidade. Com o excesso de peso, não ser um idoso sedentário fica ainda mais difícil”, diz Rosa Chubaci, coordenadora do curso de gerontologia da Universidade de São Paulo (USP).

A especialista também chama a atenção para o impacto negativo da falta de orientação especializada. Segundo ela, isso é muito comum em questões ligadas à alimentação. “O idoso conta que só come três biscoitinhos de maisena e toma um copo de leite e, ainda assim, está engordando. Ele está ingerindo só carboidratos e não sabe as consequências disso”, exemplifica.

Apesar de menos expressivo que a média geral, o avanço do excesso de peso entre os brasileiros mais velhos também preocupa. Em 2006, 11% dos homens e 19,7% das mulheres com mais de 65 anos eram obesos. Em 2017, as taxas haviam subido para 15,3% e 23,4%, respectivamente. Rosa Chubaci destaca que, além de desencadear doenças que podem ser fatais, a obesidade impacta negativamente nas condições de vida. “Devemos dar mais qualidade aos anos que viveremos mais, não viver por viver, de forma restrita, dependente. É claro que não temos o controle total, mas viver bem é viver cuidando de si”, reforça.



Pior que o tabagismo
A piora na taxa de mortalidade de norte-americanos é registrada há três décadas. Ao analisarem dados da Pesquisa Nacional de Exame de Saúde e Nutrição desde 1988, cientistas da Universidade da Pensilvânia concluíram que o aumento da obesidade é culpado pelo fenômeno. Em 2011, por exemplo, o excesso de peso já reduzia a expectativa de vida aos 40 anos em 0,9 ano. “Estimamos que o impacto do aumento da obesidade seja duas vezes mais significativo para as tendências de queda da mortalidade do que o impacto do declínio do tabagismo”, compara Samuel Preston, um dos autores do estudo, divulgado, em 2018, na Pnas, o jornal da academia americana de ciências.

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