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Correio Braziliense

Exercícios na terceira idade: para viver mais, o treino é livre

Qualquer intensidade de atividade física está ligada à redução do risco de morte, mostra pesquisa norueguesa com 36 mil idosos. O hábito também ajuda no combate ao acúmulo de peso e de doenças e melhora a qualidade de vida, avisam especialistas


postado em 05/09/2019 06:00

Joaquim Pereira não tem tempo para o Parkinson: muitas atividades e pouco tremores(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Joaquim Pereira não tem tempo para o Parkinson: muitas atividades e pouco tremores (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Calmaria não faz parte da rotina de Joaquim Resende Pereira. Há as aulas de dança e as de tai chi chuan, as sessões de fisioterapia em grupo e as exclusivas com o educador físico, além dos encontros com a turma da música e com o pessoal da horta. Aos 76 anos, o morador do centro geriátrico Longevitá não quer saber de ficar parado. E é justamente por isso, segundo a sua terapeuta ocupacional, que quase não tem os tremores característicos do Parkinson, diagnosticado em 2006. “Faço tudo o que eu posso. Tenho tempo para isso”, diz o mineiro de Juiz de Fora.

Joaquim tem também respaldo científico. Há um entendimento consolidado entre os pesquisadores de que o sedentarismo compromete a qualidade e a expectativa de vida. O que boa parte deles segue investigando são formas de otimizar os efeitos da prática de atividades físicas e de outros hábitos saudáveis. Um grupo de cientistas noruegueses aposta na simplicidade.

Em um estudo divulgado no último dia 21, no British Medical Journal, eles demonstram que qualquer intensidade de atividade física — incluindo ações corriqueiras, como cortar a grama de casa — está associada a um menor risco de morte precoce. “A mensagem importante desse estudo é que cada passo conta. Quanto mais a pessoa faz exercícios, independentemente da intensidade, mais benéfico será para a saúde dela”, frisa ao Correio Ulf Ekelund, líder da pesquisa.

Para chegar à conclusão, a equipe acompanhou 36.383 voluntários com, em média, 62 anos ao longo de seis anos. A cada trimestre, os participantes tinham o nível de atividade física aferido por um acelerômetro, preso à cintura durante quatro a sete dias. A equipe considerou três níveis de atividade: leve, moderada e vigorosa.

Segundo Ulf Ekelund, ao ajustar fatores influentes, ele e a equipe concluíram que todos os tipos de atividade reduziram substancialmente o risco de morrer precocemente. Por exemplo, a queda foi 60% menor no trimestre mais ativo, comparada a participantes que se exercitaram menos. Houve maior benefício para os adeptos de atividades moderadas ao longo de 168 minutos por semana, o equivalente a 24 minutos por dia. Os números são bem próximos aos recomendados pela Organização Mundial da Saúde para que as pessoas se mantenham saudáveis: ao menos 150 minutos de exercício com intensidade moderada ou 75 minutos com intensidade vigorosa por semana.

Efeito rápido

A pesquisa norueguesa traz ainda um dado que pode servir de estímulo aos mais resistentes em transformar a prática de exercícios físicos em hábito. A maior redução no risco de morte, de 60% a 70%, se deu no primeiro ano em que os participantes foram monitorados. Presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, seção Distrito Federal (SBGG-DF), Thiago Póvoa explica que, especialmente nos três primeiros meses, há mudanças muito rápidas com relação à perda de peso, melhora da capacidade respiratória e do condicionamento físico. “Sempre é hora de começar, uma vez que, principalmente nos mais obesos, os efeitos são bem rápidos e até visíveis”, ressalta.

O médico geriatra lembra ainda que idosos não sedentários se protegem da obesidade sarcopênica, condição em que o indivíduo ganha peso e perde massa muscular. “Esse é o pior tipo de obesidade. Temos um procedimento clínico que é a avaliação da circunferência da panturrilha, que está associada a essa questão muscular e, consequentemente, à capacidade funcional do paciente”, conta Thiago Póvoa.

Há outros processos comuns na velhice que também têm ligação com o excesso de peso e o sedentarismo. Coordenadora do curso de gerontologia da Universidade de São Paulo (USP), Rosa Chubaci cita a osteoporose, as dores na perna e no joelho e a maior vulnerabilidade a quedas. “Para quem anda pouco, porque está acima do peso, por exemplo, o risco de queda é muito grande, mesmo dentro de casa. A pessoa acaba ficando acamada, o que desencadeia uma série de demandas de cuidados e também pode ter implicações psicológicas”, diz.

Rosa Chubaci conta que mais de 500 idosos são atendidos no programa USP Aberta à Terceira Idade, que oferece acompanhamento para a prática de exercícios físicos, entre outras atividades. Segundo ela, costuma haver resistência nos primeiros dias de aula, mas a adesão supera as expectativas. “A partir do momento em que o idoso entende que precisa se exercitar, ele se engaja e acaba alterando, aos poucos, os hábitos de vida. É difícil, porque são anos vivendo de uma forma que nem sempre é saudável, mas acontece”, diz.

De fato, fazer exercícios físicos não é hábito de muitos brasileiros que chegaram à terceira idade. De acordo com dados mais recentes do Ministério da Saúde, 35,2% da população com mais de 65 anos é considerada sedentária, contra 13,9% da média geral. Os prejuízos do hábito, porém, têm características semelhantes às das vantagens: não demoram a fazer diferença. Segundo a pesquisa norueguesa, ficar acima de 9,5 horas por dia sem se exercitar está associado a um risco aumentado de morte. “A mensagem para levar para casa é: sente-se menos e mova-se cada vez mais. Toda atividade é benéfica, independentemente da intensidade”, frisa o pesquisador Ulf Ekelund.

Fratura perigosa

Depois dos 50 anos, quebrar algum osso do corpo pode aumentar o risco de morte por mais de uma década, segundo um estudo australiano. No ano seguinte ao acidente, homens enfrentam risco 33% maior de morte e as mulheres, 20% maior. Para fraturas de fêmur, as taxas são de 20% e 25%, respectivamente. A vulnerabilidade permanece significativa 10 anos depois. “Uma fratura é o ponto de partida para problemas de saúde mais amplos, que persistem por muito tempo e podem resultar em morte prematura”, alerta Jacqueline Center, cientista do Instituto Garvan de Pesquisa Médica, em Sydney, e autora do estudo, divulgado no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism da Endocrine Society.

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