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Correio Braziliense

Lembrança geográfica: análise de DNA revela detalhes da Eurásia antiga

Maior estudo de genomas de indivíduos que viveram na região entre 12 mil e 2 mil anos atrás ajuda a preencher vazios sobre a origem da agriculta e das primeiras línguas indo-europeias, de onde o português derivou


postado em 06/09/2019 06:00

Complexo de montanhas Dali, no Cazaquistão, onde foram obtidas amostras genéticas da Idade do Bronze(foto: Michael Frachetti/Divulgação)
Complexo de montanhas Dali, no Cazaquistão, onde foram obtidas amostras genéticas da Idade do Bronze (foto: Michael Frachetti/Divulgação)
Há 12 mil anos, a história da civilização começava a ser escrita em várias partes da Eurásia, onde, gradativamente, o homem deixava de ser caçador-coletor para se estabelecer na terra. Foi um período de mudanças cruciais, quando, além da agricultura, surgiram as primeiras línguas indo-europeias — das quais mais de 400, incluindo a portuguesa, se derivam. Foi em uma região chamada Vale do Rio Indo, onde, hoje, estão Afeganistão e noroeste do Paquistão e da Índia, que esses idiomas floresceram. Ali havia uma importante sociedade, das quais descendem populações atuais do centro e do sul da Ásia. Porém, até agora, pouco se sabia sobre o passado e a cultura dessas pessoas.

Agora, em dois artigos publicados simultaneamente nas revistas Cell e Science, geneticistas, arqueólogos e antropólogos anunciaram o maior estudo de DNA humano antigo já realizado, revelando, em detalhes, a história do Vale do Indo e, consequentemente, as origens de boa parte da população atual. A pesquisa foi feita por geneticistas, arqueólogos e antropólogos dos Estados Unidos, da Europa e da Ásia, que analisaram, pela primeira vez, as informações genéticas de 524 indivíduos. Graças a esse trabalho, o banco mundial de genomas antigos cresceu em 25%.

Ao comparar os DNAs entre eles e com genomas previamente sequenciados e contextualizar essas informações com registros arqueológicos e linguísticos, entre outros, os pesquisadores afirmam terem preenchido muitos vazios históricos a respeito de quem viveu em diversas partes da região desde o Mesolítico (12 mil anos atrás) até a Idade do Ferro (há 2 mil anos). Além disso, os cientistas dizem que os resultados apontam para a relação desses povos com as populações que hoje habitam essa área.

“Esses estudos falam de duas das mais profundas transformações culturais na Eurásia antiga — a transição da caça e coleta para a agricultura e a disseminação das línguas indo-europeias, hoje faladas das Ilhas Britânicas ao sul da Ásia —, acompanhando os deslocamentos humanos”, afirma Vagheesh Narasimhan, coprimeiro autor de ambos os artigos e pós-doutorado no Instituto Blavatnik da Harvard Medical School. “Os estudos são particularmente significativos, porque a Ásia Central e do Sul são partes tão pouco estudadas do mundo.”

Para Ron Pinhasi, pesquisador da Universidade de Viena e coautor sênior do artigo publicado na Science, um dos aspectos mais interessantes do estudo foi a maneira como integra genética, arqueologia e linguística. “Os resultados surgiram após a combinação de dados, com métodos e perspectivas de diversas disciplinas acadêmicas. Uma abordagem integrativa fornece muito mais informações sobre o passado do que qualquer uma dessas disciplinas poderia fazê-lo sozinha”, avalia. “Além disso, a introdução de novas metodologias de amostragem nos permitiu minimizar os danos aos esqueletos, maximizando a chance de obter dados genéticos de regiões onde a preservação do DNA geralmente é ruim”, comemora.

Migrações

As línguas indo-europeias — incluindo hindi/urdu, bengali, punjabi, persa, russo, inglês, português, espanhol, gaélico e mais de 400 outras — compõem a maior família de idiomas da Terra. Durante décadas, especialistas debateram como elas chegaram a partes distantes do mundo. Alguns sustentam que se espalharam graças a pastores do estepe da Eurásia. Outros acreditam que as línguas viajaram com agricultores que se deslocaram para o oeste e o leste da Anatólia (atual Turquia).

Em 2015, um artigo de David Reich, do Instituto Blavatnik da Harvard Medical School e coautor dos dois estudos, indicou que os idiomas indo-europeus chegaram à Europa por meio das estepes. A pesquisa publicada na Science agora segue uma linha semelhante, no que diz respeito ao sul da Ásia, mostrando que os sul-asiáticos atuais têm pouca ou nenhuma ascendência de agricultores oriundos da Anatólia. “Podemos descartar uma disseminação em larga escala de agricultores com raízes anatólias no sul da Ásia, peça central da ‘hipótese da Anatólia’, segundo a qual esse movimento teria levado a agricultura e as línguas indo-europeias para a região”, disse Reich, em nota. “Como não ocorreram deslocamentos substanciais de pessoas, este é um xeque-mate para a hipótese da Anatólia”, garante.

Uma nova linha de evidência a favor da disseminação das línguas indo-europeias pelas estepes foi a detecção de padrões genéticos que conectam oradores dos ramos indo-iranianos e balto-eslavos da indo-europeia. Os pesquisadores descobriram que indivíduos atuais de ambos os ramos descendem de um subgrupo de pastores das estepes que se mudaram para o oeste em direção à Europa há quase 5 mil anos e, depois, voltaram para o oriente, espalhando-se pela Ásia Central e do Sul nos 1,5 mil anos seguintes. “Isso fornece uma explicação simples, em termos de deslocamentos antigos, para as características linguísticas compartilhadas desses dois ramos da indo-europeia, que são hoje separados por grandes distâncias geográficas”, disse Reich.

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