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Correio Braziliense

Pesticidas ameaçam pássaros selvagens, aponta estudo

Produto químico muito usado em lavouras interfere em hábitos cruciais para aves, como a reprodução e a alimentação. Animais expostos a doses altas têm o apetite comprometido e chegam a perder 6% do peso corporal em apenas seis horas


postado em 13/09/2019 06:00

Pequenas doses de pesticidas alteram o peso e hábitos migratórios de pardais-de-coroa-branca: impacto ao longo da primavera (foto: Margaret Eng/Divulgação)
Pequenas doses de pesticidas alteram o peso e hábitos migratórios de pardais-de-coroa-branca: impacto ao longo da primavera (foto: Margaret Eng/Divulgação)
Pesticidas neonicotinoides, os mais utilizados no mundo, são conhecidos pelo efeito devastador sobre populações de abelhas, que estão desaparecendo nas regiões em que essas substâncias são aplicadas, com consequências para a agricultura e a biodiversidade. Mas os insetos não são os únicos prejudicados por uma classe de produtos proibidos em alguns países — mas comercializados ainda no Brasil — devido aos diversos danos à saúde e ao ambiente. Um artigo publicado na revista Science identificou outras vítimas desses químicos: pássaros canoros.

De acordo com os autores, essa é a primeira vez que se rastreiam os efeitos de um pesticida neonicotinoide em aves selvagens. Realizado por pesquisadores da Universidade de Saskatchewan (Usask), no Canadá, o estudo descobriu que os pardais-de-coroa-branca que consumiram pequenas doses de um inseticida chamado imidacloprid sofreram perda de peso e atrasos na migração.

São efeitos que poderiam prejudicar gravemente as chances de as aves sobreviverem e se reproduzirem, diz o artigo. Esse produto, à base de nicotina sintética e vendido no Brasil, atua no sistema nervoso dos insetos, provocando falência dos neurônios. Em vertebrados, ele é menos tóxico graças à barreira sangue cérebro, que impede a entrada, no órgão, de substâncias circulantes na corrente sanguínea. Ainda assim, pode causar danos, como verificou o estudo da Usak. “Vimos esses efeitos usando doses dentro da faixa que um pássaro poderia consumir em seu habitat. É uma dose equivalente a comer apenas algumas sementes contaminadas”, explica Margaret Eng, pós-doutorada no Centro de Toxicologia da USask Toxicology Center e principal autora do artigo.

Os neonicotinoides são frequentemente aplicados como revestimento de sementes ou em spray nas principais culturas do mundo. “Cada vez mais surgem evidências de que as aves são rotineiramente expostas aos pesticidas com consequências negativas significativas”, diz a bióloga Bridget Stutchbury, da Universidade de York, coautora do artigo. “Nosso estudo mostra que, embora as consequências sejam mais graves para os polinizadores, as aves também podem ser prejudicadas pelos modernos pesticidas neonicotinoides, algo que deveria preocupar a todos nós”, complementa.

Migração

Apesar das evidências crescentes, até agora, os pesquisadores não tinham conseguido avaliar o que acontece com as aves expostas a pesticidas na natureza. Os cientistas da USask e da Universidade de York usaram novas tecnologias de marcação e uma rede de pesquisa colaborativa chamada Motus Wildlife Tracking System para rastrear os efeitos no habitat dos pardais. Os pesquisadores expuseram pardais a pequenas doses do imidacloprid, no sul de Ontário, Canadá, durante uma escala local na migração das aves, o que acontece na primavera. A composição corporal de cada ave foi medida antes e depois da exposição, e um pequeno transmissor de rádio foi acoplado às costas dos pássaros para rastrear seus movimentos na natureza.

As aves que receberam a dose mais alta do pesticida perderam 6% de sua massa corporal em apenas seis horas. Essa dose também fez com que elas permanecessem três dias e meio a mais, em média, no local da escala, antes de retomarem a migração, em comparação às aves controle. “Ambos os resultados parecem estar associados ao efeito de supressão do apetite causado pelo imidacloprid. As aves ingeriram menos comida, e é provável que atrasaram o voo porque precisaram de mais tempo para se recuperar e recuperar as reservas de combustível”, afirma Margaret Eng.

Como os pesquisadores usaram doses controladas, eles conseguiram confirmar a associação de causa e efeito entre exposições a neonicotinoides e migração atrasada, e não apenas fazer uma correlação, algo mais comum em estudos de campo. De acordo com Eng, na América do Norte, três quartos das espécies de aves que dependem do habitat agrícola diminuíram significativamente em população desde 1966. “A migração é um período crítico para as aves. Quaisquer atrasos podem prejudicar seriamente seu sucesso em encontrar parceiros e ninhos. Então, isso pode ajudar a explicar, em parte, por que as espécies de aves migrantes e de áreas agrícolas estão caindo drasticamente em todo o mundo”, disse, em nota, Christy Morrissey, ecotoxicologista da USask Morrissey e coautor do estudo.

Mais proibições na França

Paris e outras quatro cidades francesas anunciaram nesta quinta-feira (12/9) a proibição de pesticidas em seu território, em plena polêmica nacional sobre o uso dos produtos químicos na agricultura. “É uma iniciativa coordenada para fazer a lei mudar e contribuir para proteger o patrimônio inestimável da biodiversidade em nossos territórios e a saúde de nossos concidadãos”, afirmam, em um comunicado conjunto, os prefeitos da capital, de Lille, Nantes, Grenoble e Clermont-Ferrand. Dessa forma, as cinco metrópoles manifestam apoio às dezenas de prefeitos franceses que, nas últimas semanas, proibiram com decretos o uso de pesticidas. O governo quer fixar entre 5 e 10m a distância mínima entre as zonas residenciais e as áreas que recebem pesticidas, uma proposta considerada insuficiente por ecologistas e associações.

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