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Correio Braziliense

Estudo aponta que América do Norte sofre declínio generalizado de aves

Nas últimas quatro décadas, 30% dos pássaros " incluindo espécies ameaçadas e comuns " desapareceram dos céus dos Estados Unidos e do Canadá. Segundo pesquisadores, como são animais migratórios, o fenômeno se estende por todo o continente


postado em 20/09/2019 06:00

A coruja branca é uma das espécies afetadas: análise de bancos de monitoramento revela perda de 3 bilhões de aves(foto: Guerry Mueller/Divulgação)
A coruja branca é uma das espécies afetadas: análise de bancos de monitoramento revela perda de 3 bilhões de aves (foto: Guerry Mueller/Divulgação)
Três bilhões de pássaros desapareceram dos céus da América do Norte desde os anos 1970, especialmente em 12 famílias de aves canoras, como pardais e rouxinóis, que concentram mais de 90% dessas perdas. É uma redução de quase 30% no número observado há quatro décadas, com implicações drásticas para os ecossistemas, alerta um artigo publicado na revista Science. As causas não foram objeto da pesquisa, mas os autores ressaltam que esse declínio pode ser atribuído a atividades humanas, que também têm exterminado populações de insetos e anfíbios.


Embora realizado nos Estados Unidos e no Canadá, o estudo tem implicações para o continente americano como um todo, segundo Adam Smith, do Environment and Climate Change Canada e coautor do artigo. “É uma crise que ultrapassa fronteiras individuais. Muitos dos pássaros que procriam nos quintais canadenses migram ou passam o inverno nos Estados Unidos e em lugares ainda mais ao sul, do México e o Caribe à América Central e a do Sul. O que nossos pássaros precisam agora é de um esforço histórico que una pessoas e organizações com um objetivo comum: trazê-los de volta.”

Para chegar a esses números, os pesquisadores usaram múltiplos bancos de dados padronizados de monitoramento de pássaros e analisaram como, em 529 espécies continentais, houve alterações populacionais nas últimas décadas. Eles admitem que ficaram surpresos com o que viram. “Esperávamos ver declínios contínuos no caso de espécies ameaçadas. Mas, pela primeira vez, os resultados também mostraram perdas generalizadas entre os pássaros comuns em todos os habitats”, conta Ken Rosenberg, principal autor do estudo e cientista do Cornell Lab of Ornithology e do American Bird Conservancy.

O artigo destaca que as aves são indicadores de saúde ambiental e que, portanto, uma perda tão expressiva significa que, nos Estados Unidos e no Canadá, os ecossistemas estão “severamente afetados pelas atividades humanas, que não comportam mais as mesmas populações robustas de animais silvestres” como no passado.

Rosenberg lembra, ainda, que os pássaros têm papéis importantes nas teias alimentares e no funcionamento adequado do ecossistema: da dispersão de sementes ao controle de pragas. As aves de pastos — aquelas que dependem desse habitat para sobreviver — são as mais atingidas, com uma redução populacional de 53% na população, ou mais de 720 milhões de aves, desde os anos 1970. As limícolas, que, em sua maioria, vivem em zonas úmidas, já estavam em declínio acentuado e perderam mais de um terço da população. O volume da migração de primavera, medido por radar no céu noturno, caiu 14% apenas na última década.

“Esses dados são consistentes com o que estamos vendo em outros lugares com outros táxons, mostrando declínios maciços, incluindo insetos e anfíbios”, disse, em nota, o coautor Peter Marra, ex-chefe do Smithsonian Migratory Bird Center e, agora, diretor da Georgetown Environment Initiative na Universidade de Georgetown. “É imperativo lidar com ameaças imediatas e contínuas, tanto porque o efeito dominó pode levar à deterioração dos ecossistemas dos quais os seres humanos dependem para a própria saúde e meios de subsistência, tanto porque as pessoas em todo o mundo apreciam os pássaros por si mesmos. Você pode imaginar um mundo sem o canto dos pássaros?”.

Habitat perdido

De acordo com os autores do estudo, esse levantamento também fornece informações importantes sobre ações que podem ser tomadas para reverter o declínio populacional dos pássaros. Embora o estudo não tenha analisado as causas da queda acentuada da população, observou-se que, nas aves norte-americanas, ela é paralela à perda de aves em outras partes do mundo, sugerindo múltiplas causas de interação que reduzem o sucesso reprodutivo e aumentam a mortalidade. Também detectou que o maior fator que impulsiona esses declínios é, provavelmente, a perda e a degradação generalizada do habitat, principalmente devido à intensificação agrícola e à urbanização.

“A história não acabou”, escreveu o coautor Michael Parr, presidente da American Bird Conservancy. “Existem muitas maneiras de ajudar a salvar pássaros. Algumas exigem decisões políticas, como o fortalecimento da Lei do Tratado sobre Aves Migratórias. Também podemos trabalhar para proibir pesticidas nocivos e financiar adequadamente programas eficazes de conservação de aves. Cada um de nós pode fazer a diferença nas ações diárias que, juntas, são capazes de salvar a vida de milhões de pássaros. Ações como tornar as janelas mais seguras para eles, manter os gatos dentro de casa e proteger o habitat.”

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