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Correio Braziliense

Hotelaria e alimentação: manchas de óleo ameaçam economia

Além dos problemas ambientais, acidente que contaminou até agora cerca de 130 praias deverá ter impacto nas atividades ligadas ao turismo


postado em 10/10/2019 06:00

(foto: Marcos Rodrigues/Adema/Governo de Sergipe)
(foto: Marcos Rodrigues/Adema/Governo de Sergipe)
São Paulo — Identificadas pela primeira vez em 2 de setembro, as manchas de óleo já atingiram pelo menos 130 praias do Nordeste. Todos os nove estados da região tiveram trechos contaminados pelo produto poluente e até agora não se conseguiu conter o avanço do que foi identificado pela Petrobras como óleo cru.


Além dos prejuízos ambientais, que  se somam aos problemas de imagem que o Brasil vem enfrentando nesse ano — como o desastre de Brumadinho (MG), ocorrido em janeiro, e os incêndios em florestas na região amazônica —, a contaminação de praias nordestinas leva risco ao turismo. Por enquanto, segundo informações divulgadas pelos estados procurados pela reportagem, não há fuga de turistas por conta do problema ambiental.

 

A informação coincide com o que foi divulgado pelas três principais companhias aéreas que operam na região: Gol, Latam e Azul. A Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav) também não registrou até agora consultas de seus associados nos estados afetados quanto a possíveis medidas que podem ser tomadas para minimizar os efeitos que venham a acontecer nos negócios. Mas para Antonio Everton, da divisão de economia da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o impacto será inevitável. “O acidente vai afetar a economia local, em especial o setor de serviços, principalmente aqueles negócios que dependem ou têm relação direta com o ambiente marítimo”, adverte.


Até agora, os reflexos podem ter sido pequenos na economia porque o problema, identificado há pouco mais de um mês, dava sinais no início que seria algo pontual, que não teria grandes proporções. Mas, agora, já se fala que as manchas de óleo representam o maior acidente ambiental em extensão visto até hoje no país. Ao atingir todos os estados do Nordeste, o vazamento comprometeu, em maior ou menor proporção, 2.100 quilômetros de praia, de um total de 7.367 quilômetros de litoral –— ou seja, aproximadamente 29%.


Nesta quarta-feira (9/10), a Superintendência Estadual do Meio Ambiente do Ceará (Semace), ligada à Secretaria do Meio Ambiente, informou no fim do dia que o litoral do estado está “livre de um novo ataque de óleo derramado em alto-mar". A avaliação foi feita depois de um sobrevoo no litoral cearense. “O não avistamento da mancha de óleo nos dá a tranquilidade de que não teremos novas praias contaminadas e animais marinhos sacrificados nas próximas horas”, afirmou por meio de nota Gustavo Gurgel, gerente de Análise e Monitoramento da Semace.


Agora, a autarquia vai se concentrar na limpeza das praias, na tentativa de eliminar resíduos, além de manter o monitoramento. Nesta quinta-feira (10/10), seria apresentado o resultado do rastreamento por terra e definidas novas ações para a redução dos efeitos do óleo no litoral.


Em Fortim, uma das cidades litorâneas afetadas pelo vazamento, Celian Chaufour, sócio-diretor do Jaguaribe Lodge&Kite, confirma que alguns turistas chegaram a telefonar para cancelar as reservas. Para conter as desistências, o empresário mostrou as condições atuais da praia, no litoral leste do estado, e assim vem mantendo a taxa de ocupação.


"Não há mancha aqui. Há dois meses apareceram algumas pequenas manchas, mas nunca grandes como estão falando. O problema durou e depois o óleo sumiu. Nas pedras ficaram alguns vestígios isolados, mas no mar, não. A prefeitura está monitorando o tempo todo e as praias por aqui estão todas próprias para banho, tanto em Pontal do Maceió quanto no Canto da Barra e no Rio Jaguaribe. Há turistas mergulhando no mar e velejando de kitesurf”, conta Chaufour.


Procurada, a Secretaria do Turismo do Ceará (Setur) informou que ainda não registrou queda no número de turistas e que há 12 dias não há notícias da mancha de óleo perto da costa ou de novas praias contaminadas. Por meio de nota, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo de Alagoas confirmou que o estado é um dos menos afetados pelo vazamento de óleo e que até agora foram poucos os relatos feitos por turistas. "O dia a dia da cadeia turística não está sendo afetado. De forma lamentável, o meio ambiente é o segmento que tem sido mais atingido por essa situação. Estamos acompanhando de perto e cobrando aos órgãos ambientais responsáveis, para que possam identificar o culpado, puni-lo e encontrar a resolução mais viável para redução de danos da forma mais célere possível”, informou.

 

E o futuro?

Se até agora as queixas sobre efeitos do acidente ambiental na economia ligada ao turismo são pontuais, nas próximas semanas os possíveis impactos deverão começar a ser contabilizados. Isso porque nesta época do ano, os turistas começam a definir e comprar suas viagens de fim de ano e férias de janeiro.

 


Professor do curso da graduação em turismo da Universidade Federal de Pernambuco, Luís Henrique de Souza lembra que o principal produto turístico oferecido pelo Nordeste é o de "Sol e praia". “Quando um problema ambiental dessa ordem acontece, há um impacto na imagem desses destinos turísticos, com a perda de atratividade”, explica.


Esse impacto, detalha o acadêmico, pode resultar no cancelamento das reservas para esses destinos e na redução da geração de receita nesses destinos. “O faturamento que os empreendimentos turísticos tem a expectativa de receber será reduzido. Com uma demanda menor, outros setores da economia serão afetados. Um hotel com menos hóspedes vai comprar menos insumos para preparar o café da manhã, ou seja, o impacto é generalizado". Para Souza, para minimizar esses impactos é preciso pensar em soluções que mostrem a recuperação da qualidade das praias e areias, o que terá efeito na recuperação da imagem desses destinos e na retomada do turismo.

Peso na economia

Dados da CNC referentes a agosto mostram que o turismo brasileiro teve uma receita R$ 18,6 bilhões, descontada a inflação. O Nordeste respondeu por cerca de 13% desse volume, com R$ 2,4 bilhões. Essa conta inclui o que é movimentado pelas empresas que prestam serviços ligados a atividades turísticas, como o transporte de passageiros, cultura e lazer e restaurante. O Sudeste ocupou o topo da lista, com R$ 11,5 bilhões, seguido pelo Sul, com R$ 2,9 bilhões. O Centro-Oeste ocupou a quarta posição (R$ 1,3 bilhão), fechando a lista a região Norte, com R$ 600 milhões.

 


Em 2018, o turismo no Brasil movimentou R$ 236,2 bilhões — Sudeste foi responsável por R$ 148,1 bilhões, o Sul por R$ 36,3 bilhões, o Nordeste por R$ 29,1 bilhões, o Centro-Oeste por R$ 15,6 bilhões e o Norte por R$ 7 bilhões. De acordo com o economista da CNC, a velocidade da recuperação da economia nas áreas afetadas pelo acidente com o óleo cru derramado no mar vai depender da capacidade de o poder público conter o problema. Quando mais rápido, avalia, menor será o impacto. "Se o problema se estender e a dificuldade de remoção das manchas de óleo persistir, os problemas serão maiores”, analisa Everton. Procurados, a Marinha e o Ministério do Turismo não comentaram o assunto até o fechamento da edição.

Ibama diz não precisar de recursos para conter crise ambiental no Nordeste

 

Apesar do alcance do acidente ambiental, que atingiu 29%, aproximadamente, do litoral brasileiro, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) diz que não vê a necessidade de "pedir recursos financeiros suplementares” para tentar conter o alastramento das manchas de óleo e reduzir os danos causados até agora. Estados e municípios também entram com recursos próprios, informou por meio de nota.


Apesar de as primeiras notificações sobre as manchas de óleo cru terem acontecido em 2 de setembro, até agora o Ibama não tem uma conclusão sobre os impactos na vida marinha da região afetada e diz que o assunto permanece em avaliação.

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