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Correio Braziliense

Estudo indica que preservar a biodiversidade impulsiona a agricultura

Pesquisa feita por 100 pesquisadores, incluindo brasileiros de seis universidades, mostra que é possível melhorar as colheitas favorecendo fenômenos da própria natureza. O controle natural de pragas e o aumento da polinização estão entre eles


postado em 17/10/2019 06:00

Abelhas polinizam plantação de café: maior variedade de animais e paisagens heterogêneas são características de áreas mais produtivas(foto: Alejandra Martinez-Salinas)
Abelhas polinizam plantação de café: maior variedade de animais e paisagens heterogêneas são características de áreas mais produtivas (foto: Alejandra Martinez-Salinas)
As terras com baixa produtividade, além dos prejuízos financeiros, geram risco à alimentação humana, com, por exemplo, a redução da produção de insumos. Por meio de estudos científicos, especialistas têm mostrado que a própria natureza pode reverter o quadro. Essa linha de pesquisa ganha força com os resultados de um estudo feito por mais de 100 cientistas, incluindo brasileiros. Ao analisar 1.500 regiões agrícolas, a equipe constatou que áreas mais ricas em biodiversidade são mais protegidas de pragas, promovem a polinização e rendem melhores colheitas.

Segundo os autores do estudo, publicado na última edição da revista Science Advances, durante as duas últimas décadas, aproximadamente 20% da superfície cultivada da Terra se tornou menos produtiva, algo provocado principalmente por falhas humanas em relação à proteção da diversidade natural. “As áreas de vegetação dentro das paisagens agrícolas vêm sendo destruídas de forma acentuada. Outro efeito que contribui para esses prejuízos é o aumento dos insumos usados na produção, como agrotóxicos e fertilizantes”, explica ao Correio Luísa Carvalheiro, uma das autoras do estudo e professora da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Na pesquisa, que contou com a participação de cientistas de outras cinco universidades brasileiras, o grupo de ecologistas e biólogos comparou dados de cerca de 1.500 campos agrícolas em todo o mundo. Entre as áreas estudadas estão campos de milho nas planícies americanas, plantações de café na Índia, de manga na África do Sul, e de acerola, caju e café no território brasileiro.

As análises tiveram como foco dois serviços ecossistêmicos, ou seja, que são realizados pela natureza: a polinização e o controle biológico de pragas. Esse último pode ser descrito como a capacidade de um ambiente de usar artrópodes predadores presentes no ecossistema para se defender de insetos nocivos.

Os cientistas chegaram à conclusão de que, em paisagens heterogêneas — onde a variação de culturas, sebes e árvores é maior  —, polinizadores selvagens e insetos benéficos ao ambiente são mais abundantes e diversificados. A polinização e o controle biológico aumentam, assim como o rendimento das culturas. “Um dos pontos mais importantes do estudo é que analisamos não só uma grande quantidade de áreas, mas uma vasta variedade de espécies. Com isso, nossa mensagem de efeito é que essa diversidade é essencial para o crescimento da produção”, ressalta a cientista brasileira.

Monoculturas

O estudo também mostrou que as monoculturas são a causa de cerca de um terço dos efeitos negativos na polinização, que resultam da simplificação da paisagem, medida pela perda da “riqueza de polinizadores”. Outra constatação foi a de que esse efeito é ainda maior com o controle de insetos nocivos, onde a perda da “riqueza natural do inimigo” representa 50% das consequências totais da simplificação da paisagem.

Segundo os autores do trabalho, a pesquisa é mais uma prova de que a necessidade de preservação da biodiversidade é essencial para avanços na agricultura. “Esse estudo é mais um dos trabalhos que enfatizam uma das melhores maneiras de intensificar a produtividade da terra: o conceito de intensificação ecológica da agricultura. Isso é algo que tem ganhado muita força nos últimos anos e mostra como o uso de serviços de biodiversidade, como a polinização e o controle de pragas, que são gratuitos, aumentam essa produção e rendem benefícios econômicos muito altos”, frisa Carvalheiro.

Os pesquisadores recomendam diversificar culturas e paisagens o máximo possível. “Por exemplo, um agricultor pode depender menos de pesticidas se os controles biológicos naturais forem aumentados por meio da maior biodiversidade agrícola”, ilustra, em comunicado, Matteo Dainese, biólogo do Instituto de Pesquisa Eurac, na Itália, e um dos autores do estudo.

Essas medidas são ainda mais necessárias diante das mudanças climáticas, frisa Ingolf Steffan-Dewenter, pesquisador do Departamento de Ecologia Animal e Biologia Tropical da Universidade de Würzburg, na Alemanha, e também autor do estudo. “Com as mudanças globais em andamento e os eventos climáticos extremos mais frequentes, o valor da biodiversidade das terras agrícolas, garantindo a resiliência a distúrbios ambientais, se tornará ainda mais importante”, explica. “Nosso estudo fornece forte apoio empírico aos benefícios potenciais de novos caminhos para a agricultura sustentável, que visam conciliar a proteção da biodiversidade e a produção de alimentos para o aumento da população humana.”

Palavra de especialista

Bioeconomia avança

“Na Embrapa, já trabalhamos com medidas voltadas para a sustentabilidade e a defesa da biodiversidade dentro da agricultura. Tentamos usar sistemas integrados, como o plantio do capim junto com as florestas. Com isso, conseguimos mitigar as emissões de gases-estufa e promover essa preservação ambiental. Sabemos também que a maioria das culturas agrícolas dependem da polinização, e por isso é essencial a preservação das abelhas. Elas são muito importantes para o desenvolvimento de uma série de insumos, como o feijão. Essa dinâmica de intensificação sustentável, que chamamos de ‘bioeconomia’, cresce muito, e o Brasil tem um grande potencial para explorá-la, já que estamos na faixa tropical do globo e contamos com a maior biodiversidade do mundo, como um dos maiores estoques de água potável, por exemplo. Acreditamos que, desenvolvendo essas tecnologias, podemos promover essa biodiversidade ainda mais.”, Cleber Oliveira Soares, diretor executivo de Inovação e Tecnologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

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