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Correio Braziliense

Cientistas apontam a relação entre câncer e infertilidade masculina

Homens com dificuldades de conceber naturalmente têm risco de 30% a 60% mais elevado de serem acometidos por um tumor de próstata, mostra estudo com mais de 1,1 milhão de participantes. Pesquisa sueca é considerada a maior sobre o tema


postado em 22/10/2019 06:00

Tiago Serra, urologista especialista em reprodução da Veridium Urologia Integrada(foto: Rener Oliveira/Divulgação)
Tiago Serra, urologista especialista em reprodução da Veridium Urologia Integrada (foto: Rener Oliveira/Divulgação)
Dois dos principais problemas urológicos masculinos, o câncer de próstata e a infertilidade estão associados, sugere um estudo baseado em dados de 1.181.490 suecos. Embora a relação já tenha sido levantada anteriormente, essa é a pesquisa sobre o assunto com maior número de participantes. O resultado mostra que, estatisticamente, homens com dificuldade de conceber naturalmente têm risco de 30% a 60% mais elevado de desenvolverem o tumor maligno, comparados a pais que não precisaram recorrer a técnicas de fertilização. Além disso, a chance de terem a doença precoce, antes dos 55 anos, é quase o dobro. O artigo foi publicado no British Medical Journal.

Como tanto o câncer de próstata quanto a infertilidade masculina têm associação com os hormônios androgênicos, como a testosterona, há tempos os médicos tentam estabelecer a relação entre as duas condições. Porém os autores do estudo, conduzido por três instituições suecas, observam que as pesquisas anteriores eram limitadas por questões metodológicas: ou envolveram um número pequeno de participantes ou os acompanharam por um curto período. Agora, eles estudaram mais de 1 milhão de registros médicos referentes a um prazo extenso, de 1994 a 2014. Trata-se, porém, de uma pesquisa observacional, que não estabelece causa e efeito.

Para conseguir um número tão expressivo de casos de infertilidade e concepção natural, os pesquisadores procuraram registros nacionais de nascimentos na Suécia entre 1994 e 2014. Os pais foram agrupados de acordo com o status de fertilidade, por modo de concepção: 20.618 (1,7%) por fertilização in vitro (FIV), 14.882 (1,3%) por injeção intracitoplasmática de espermatozoides (ICSI) e 1.145.990 (97%) natu-ralmente. A idade média no parto foi de 37 anos para pais tratados com fertilização in vitro e ICSI e 32 anos no caso dos que conceberam sem necessidade de tratamento. Os pesquisadores usaram registros nacionais de câncer para identificar novos casos de tumor maligno de próstata até 20 anos depois que os bebês nasceram.

Depois de ajustarem fatores que poderiam afetar os resultados, como idade e nível de escolaridade, os pesquisadores descobriram que homens que se tornaram pais por fertilização in vitro e ICSI tiveram um risco significativamente maior de desenvolverem câncer de próstata, comparado aos que tiveram filhos naturalmente. Entre esses últimos, 0,28% foi diagnosticado com a doença no período de acompanhamento. No grupo de fertilização in vitro, o percentual foi de 0,37%, e, no de ICSI, 0,42%.

Precoce

O risco de câncer de próstata de início precoce — diagnosticado antes dos 55 anos — também foi particularmente alto no caso dos homens que tiveram filhos por meio do ICSI, uma tecnologia usada para homens com as formas mais graves de infertilidade. Esses riscos aumentados permaneceram mesmo depois da exclusão de pacientes com diagnóstico prévio de câncer ou que receberam terapia de reposição de testosterona.

“A principal conclusão desse estudo é que os homens que se tornaram pais por meio de reprodução assistida tiveram um risco notavelmente alto de câncer de próstata”, diz a primeira autora, Yahia Al-Jebari, da Universidade de Lund. Ela acrescenta que, embora os percentuais de pacientes que tiveram a doença pareçam baixos, o câncer de próstata costuma se manifestar em idades mais avançadas, e o fato de os pais que conceberam com tratamento de fertilização não se encaixarem nesse perfil indica que eles são um pequeno mas importante grupo de risco. “Sugerimos que homens que precisam recorrer à fertilização sejam rastreados precocemente para o câncer de próstata”, diz.

Em um editorial, Aditi Sharma e Channa Jayasena, do Imperial College London, alertaram que os autores não apontam um mecanismo pelo qual a infertilidade poderia aumentar o risco de câncer, o que dificultaria os esforços de rastrear a doença em todos os jovens pacientes com problemas para conceber naturalmente. O urologista e especialista em reprodução Tiago Serra David, da Veridium Urologia Integrada, diz, porém, que há alguns mecanismos possíveis que ligam os dois problemas, como obstrução e obesidade. 


Três perguntas para Tiago Serra David, urologista especialista em reprodução da Veridium Urologia Integrada:


Embora seja observacional, o senhor acredita que o estudo tem obustez suficiente para que seja feita a associação de câncer de próstata e infertilidade masculina?
O estudo é robusto o suficiente para firmar a associação do câncer de próstata com a infertilidade. Essa relação já foi comprovada por outras pesquisas, algumas delas com bons números de pacientes estudados e um tempo considerável de observação. Entretanto, sobre o estudo em questão, é importante lembrar que a pesquisa foi observacional e retrospectiva, então, ainda não se pode fazer uma associação de causa/consequência.

O que já se sabe, hoje em dia, sobre a relação entre câncer de próstata e infertilidade?

O estudo não estratifica isso, mas uma das possíveis causas é a obstrução. Grande parte desses pacientes é submetida à reprodução assistida, principalmente à fertilização in vitro (FIV) e à injeção intracitoplasmática de espermatozoides (ICSI). Boa parte deles são pacientes que foram submetidos à vasectomia anteriormente. Então, eles têm a azoospermia obstrutiva — quando não ejaculam espermatozoides por conta de uma obstrução. Essa pode ser uma das causas, um dos motivos que estabelecem essa relação do fator de risco. Outras causas também podem estar associadas. Por exemplo, os pacientes que são obesos e que não mantêm hábitos saudáveis apresentam um índice alto de infertilidade; esse comportamento também pode ser motivo para o aumento de outros tipos de câncer.

De forma geral, a infertilidade masculina está associada a outros problemas de saúde?
Infertilidade masculina pode estar associada a outros problemas de saúde. É fundamental, durante a investigação de um paciente infértil, verificar a existência de outras patologias. Não somente a doença pode interferir, mas até mesmo o tratamento dessa pode influenciar a produção seminal. Entre as alterações de saúde que aumentam a taxa de infertilidade a principal causa tratável é a varicocele. Trata-se de uma alteração das veias da bolsa testicular. Uma outra causa recorrente no consultório é o uso de medicamentos que interferem na produção de sêmen. Medicações específicas, como para queda de cabelo, como a finasterida; o uso de anabolizantes, que diminui e pode até interromper a produção de espermatozoides; e também alterações genéticas, que devem ser investigadas em casos específicos. Uma série de outras doenças deve ser avaliada em pacientes que chegam com essa queixa da infertilidade.

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