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Correio Braziliense

Cientistas apontam a descoberta de proteína guardiã dos músculos

Ao ter a expressão aumentada, molécula presente em humanos interrompe a perda muscular e promove o ganho de força. Resultado em ratos abre espaço para a criação de terapias que beneficiem idosos, os mais atingidos por essa complicação


postado em 07/11/2019 06:00

(foto: Valdo Virgo/CB/D.A. Press)
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A. Press)
Um dos efeitos gerados no corpo humano em função do envelhecimento é a perda da massa muscular, chamada sarcopenia. Pesquisadores franceses detectaram um mecanismo que poderá ajudar a prevenir essa complicação, classificada em 2016 pela Organização Mundial da Saúde como doença. Em estudos com ratos, os cientistas identificaram uma proteína que, ao ser superativada, consegue manter a força e a massa dos músculos. A descoberta foi apresentada na edição desta semana da revista Science Translational Medicine.

O músculo esquelético é o tecido mais abundante do corpo humano (representa cerca de 40% dele) e desempenha papel essencial na locomoção e em funções vitais, como a frequência cardíaca e a respiração. Sua condição, porém, vai sofrendo alterações. “A massa muscular pode aumentar após treinamento ou diminuir, a atrofia, durante imobilização prolongada, causando danos nos nervos. Isso ocorre em um contexto patológico ou durante o envelhecimento”, detalha, em comunicado, France Piétri- Rouxel, uma das autoras do estudo e pesquisadora do Institute of Myology, na França.

A atrofia muscular relacionada à idade ainda não é completamente compreendida, o que dificulta a criação de terapias. Em busca de mais dados, Rouxel e sua equipe provocaram lesão nervosa em ratos e constataram que o dano casou troca molecular que limitou a perda muscular nos animais. Eles observaram que essa ação protetiva foi feita pela proteína CaVbeta1e — um componente molecular que desempenha papel na excitação e na contração do músculo esquelético. O grupo também observou que camundongos mais velhos apresentavam quantidade menor da proteína, quando comparados aos animais mais jovens.

Em um segundo estudo, os cientistas analisaram camundongos com 78 semanas de idade (o equivalente a 70 anos em humanos). Observaram que, ao potencializar a expressão da CaVbeta1e, foi ativada a via GDF5, que consegue combater a atrofia de músculos causada pela desnervação. Após várias semanas de tratamento, os camundongos deixaram de perder massa muscular e ganharam força. “Descobrimos que essa proteína, expressa geralmente no embrião do músculo, ao ser reativada, atinge o GDF5, um fator que consegue preservar a massa e a força dos músculos dos ratos em uma idade já avançada, gerando melhora considerável na força muscular”, destaca Sestina Falcone, uma das autoras do estudo e também pesquisadora do Institute of Myology.

Na última etapa do estudo, os pesquisadores franceses resolveram observar o papel da proteína em humanos. Eles compararam a massa muscular magra e informações genéticas de oito voluntários jovens e 17 idosos. Nas análises,  observaram que indivíduos com mais massa muscular apresentavam quantidades maiores de um análogo de CaVbeta1e no músculo esquelético, indicando que a proteína também desempenha papel fundamental na manutenção da massa muscular em humanos. “Essa relação observada também em humanos sugere que os mecanismos vistos nos ratos podem ser os mesmos que ocorrem conosco, o que é muito animador e nos motiva ainda mais para continuar o estudo”, ressalta Falcone.

Prevenção

Os pesquisadores acreditam que os dados podem abrir o caminho para terapias que ajudem a preservar a massa muscular. “O nosso objetivo principal é realizar uma série de exames clínicos para que essas técnicas contribuam para a prevenção da sarcopenia em idosos”, frisa a cientista. “A sarcopenia é definida por uma perda progressiva e generalizada de massa, força e qualidade de toda a musculatura a partir dos 50 anos, o que pode levar a uma diminuição de mais de 30% da massa muscular inicial. São danos muito prejudicais e que merecem toda a nossa atenção”, complementa.

Para Edmo Oliveira, ortopedista do Instituto Castro e Santos (ICS), em Brasília, a pesquisa agrega dados importantes sobre um tema que tem sido muito estudado na área médica: os efeitos do envelhecimento. “Hoje, muitos cientistas têm se dedicado a entender a fisiopatologia do envelhecimento natural, algo que é muito importante e que engloba a sarcopenia. Esse problema gera danos, como a perda de força e da massa do músculo, que chamamos de plasticidade muscular”, frisa.

O médico ressalta que os dados são novos, o que pode abrir as portas para futuros tratamentos. “Sabíamos que canais de cálcio e que esse fator chamado GDF5 tinham relação com a massa muscular, mas não tão diretamente. O mais importante é ver que uma possível interferência nessa proteína pode ajudar a aumentar a força dessa massa muscular.”

Para Oliveira, mais estudos precisam ser realizados sobre essa possível intervenção médica, mas ele acredita que a criação de medicamentos que possam provocar as mudanças cogitadas pelos franceses não é algo tão dificultoso. “Temos alguns tipos de drogas que já buscam atingir canais de cálcio, com o objetivo justamente de combater a sarcopenia. Acredito que moléculas que gerem essas alterações detectadas no estudo seja uma possibilidade, mas ainda é necessário estudar melhor esse problema de saúde e saber se ele não pode estar ligado a outros problemas, como doenças neurológicas”, pondera.

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