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Correio Braziliense

Especialistas destrincham a identidade de Roma, a Cidade Eterna

Por meio de análise genética, pesquisadores mostram como se formou a sede do Império Romano. Ao longo do tempo, a ancestralidade da população foi mudando em consonância com os principais eventos históricos da época


postado em 08/11/2019 06:00

Um dos símbolos da Roma antiga, o Coliseu era frequentado por pessoas de diferentes nacionalidades, incluindo os gladiadores (foto: Vismar Ravagnani/CB/D.A Press)
Um dos símbolos da Roma antiga, o Coliseu era frequentado por pessoas de diferentes nacionalidades, incluindo os gladiadores (foto: Vismar Ravagnani/CB/D.A Press)
No século 1, todos os caminhos levavam a Roma. Estendendo-se da Bretanha (Inglaterra) à Pérsia (Irã), a Cidade Eterna era o centro do mundo, com cerca de 80 mil quilômetros de estradas de acesso a ela. A sede do Império Romano era uma metrópole superpovoada, habitada por pessoas das mais diversas nacionalidades. Mas a história romana começa sete séculos e meio antes disso, quando era uma monarquia que seria substituída, tempos depois, pela república. Sobre esse período pouco se sabe. Agora, uma equipe internacional liderada por pesquisadores da Universidade de Stanford, da Universidade de Viena e da Universidade Sapienza está preenchendo essas lacunas graças a análises de DNA.

Publicado na revista Science, o estudo baseia-se no DNA antigo de indivíduos de Roma e de regiões adjacentes da Itália. Os dados genéticos revelam pelo menos duas grandes migrações, bem como várias mudanças populacionais menores, porém significativas, nos últimos milhares de anos, segundo Jonathan Pritchard, professor de genética e biologia e um dos principais autores do artigo.

A análise de DNA revelou que, à medida que o Império Romano se expandia ao redor do Mar Mediterrâneo, imigrantes do Oriente Próximo, da Europa e do norte da África criaram raízes e se mudaram para Roma. “Isso transformou significativamente a face de uma das primeiras metrópoles do mundo antigo”, diz Pritchard. “Esse estudo mostra como o passado é realmente dinâmico”, comenta Hannah Moots, estudante de antropologia de Stanford e coautora principal do estudo. “Em Roma, vemos pessoas de todas as partes, cada uma delas correspondendo a eventos políticos históricos.”

Nos últimos 10 anos, um número crescente de pesquisadores utiliza o DNA coletado de esqueletos antigos para preencher detalhes importantes da história humana. “Os registros históricos e arqueológicos nos dizem muito sobre a trajetória política e os contatos de diferentes populações devido a situações diversas, como o comércio e a escravidão. Mas esses registros fornecem informações limitadas sobre a composição genética populacional”, afirma Pritchard.

Em estudos futuros, os pesquisadores esperam ir além dos arredores de Roma e examinar o DNA de locais mais distantes, mas que se relacionavam com a capital do Império Romano. Entre outras coisas, isso permitirá dizer, com mais certeza, como as populações se miscigenavam e se deslocavam. A longo prazo, os cientistas também pretendem estudar outros aspectos culturais. Por exemplo, o grupo planeja pesquisar a evolução de características como altura, tolerância à lactose e resistência a doenças, como a malária, que podem ter mudado ao longo do tempo.

Agricultores

Para descobrir como se formou, geneticamente, a identidade romana, a equipe de Stanford fez parceria com uma série de pesquisadores europeus, incluindo Alfredo Coppa, professor de antropologia física da Universidade Sapienza, e Ron Pinhasi, professor-associado de antropologia evolutiva da Universidade de Viena. Eles coletaram 127 amostras de DNA humano em 29 locais em Roma e nos arredores, datando entre a Idade da Pedra e os tempos medievais.

A análise de algumas das primeiras amostras aponta para um afluxo de agricultores descendentes principalmente de produtores rurais da Turquia e do Irã há cerca de 8 mil anos, seguidos por uma mudança de ancestralidade da estepe ucraniana em algum lugar entre 5 mil e 3 mil anos atrás. Com a fundação de Roma, tradicionalmente datada de 753 a.C., a população da cidade havia crescido em diversidade e se assemelhava aos povos modernos da Europa e do Mediterrâneo.

Mas, para Pritchard, Moots, a coprimeira autora Margaret Antonio, estudante de pós-graduação em informática biomédica, e Ziyue Gao, pós-doutorado no laboratório de Pritchard, as partes mais interessantes da pesquisa ainda estavam por vir. Embora Roma tenha começado como uma humilde cidade-estado, em 800 anos já havia conquistado o controle de um império que se estendia até o oeste da Grã-Bretanha, sul do norte da África e leste da Síria, Jordânia e Iraque.

À medida que o império se expandia, relatos contemporâneos e evidências arqueológicas indicam que havia conexões estreitas entre Roma e outras partes de seu domínio, construídas por meio de comércio, campanhas militares, abertura de novas estradas e escravidão — e a genética corrobora esses fatos, mas também complica a história. Os pesquisadores descobriram que houve uma grande mudança na ancestralidade dos residentes romanos, vinda principalmente do Mediterrâneo Oriental e do Oriente Próximo.

Os séculos seguintes foram repletos de tumulto: o império se dividiu em dois, doenças dizimaram os habitantes de Roma e uma série de invasões se abateu sobre a cidade. Esses eventos deixaram uma marca na população: a ancestralidade que predominou a partir daí foi a da Europa Ocidental. Mais tarde, a ascensão e o reinado do Sacro Império Romano trouxeram um influxo de ascendência da Europa central e do norte.

A lição, diz Pritchard, é que o mundo antigo estava perpetuamente em fluxo, tanto em termos de cultura quanto de ancestralidade. “Nos surpreendeu a rapidez com que a ancestralidade da população mudou, ao longo de alguns séculos, refletindo as alianças políticas de Roma”, afirma. “Outro aspecto marcante foi o quão cosmopolita era a população romana, começando mais de 2 mil anos atrás e continuando com a ascensão e dissolução do império. Mesmo na antiguidade, Roma era um caldeirão de culturas diferentes.”

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