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Correio Braziliense

Estudo aponta que vida moderna afetou microbioma intestinal

A partir de exames em Ötzi, o ''homem de gelo'' morto há 5,3 mil anos, pesquisadores constataram que o processo de industrialização nos países ocidentais resultou na diminuição de algumas bactérias que processam fibras complexas e vegetais no organismo humano


postado em 13/11/2019 06:00

Encontrado congelado nos Alpes Ötzal, em 1991, o corpo de Ötzi estava completamente preservado. Por isso, vem sendo usado em vários estudos(foto: SouthtyrolarchaeologymuseumEuracM.Samadelli/Divulgação)
Encontrado congelado nos Alpes Ötzal, em 1991, o corpo de Ötzi estava completamente preservado. Por isso, vem sendo usado em vários estudos (foto: SouthtyrolarchaeologymuseumEuracM.Samadelli/Divulgação)
O microbioma intestinal é um delicado ecossistema composto por bilhões e bilhões de micro-organismos — especialmente, bactérias — que reforçam o sistema imunológico, protegem contra vírus e patógenos, e ajudam a absorver nutrientes e na produção de energia. Mas o processo de industrialização nos países ocidentais afetou profundamente o funcionamento dessa importante flora, mostra um estudo feito com a ajuda de um homem morto há 5,3 mil anos.


Pesquisadores da Eurac Research e da Universidade de Trento, na Itália, examinaram as bactérias presentes no intestino de Ötzi, o “homem de gelo”, encontrado em 1991 nos Alpes Ötzal, fronteira do país com a Áustria. Devido ao congelamento, o corpo estava completamente preservado e, desde então, tem sido utilizado em diversos estudos científicos. Agora, ele ajudou a comparar a microbiota de 500 séculos atrás com amostras de mais de 6,5 mil indivíduos modernos, de todos os continentes.

Estudos anteriores da Universidade de Trento e de outras instituições mundiais haviam demonstrado que há uma conexão entre o conteúdo bacteriano do microbioma e o aumento, nos países ocidentais, de obesidade, doenças autoimunes e gastrointestinais, alergias e outras condições graves. Agora, em um artigo publicado na revista Cell Host & Microbe, os cientistas comprovaram que as diferenças entre a microbiota ocidental e a não ocidental ou pré-histórica consistem na diminuição de alguns tipos de bactérias que processam fibras complexas e vegetais no intestino.

Isso pode ter sido causado pelo processo de ocidentalização, sustentam os cientistas. Alterações na dieta, que agora é mais rica em gorduras e pobre em fibras, um estilo de vida sedentário em ambiente urbano, o desenvolvimento de novos hábitos de higiene e o uso generalizado de antibióticos e outros produtos médicos, sem dúvida, tornaram a vida mais segura, reconhecem os autores do artigo. Mas tudo isso também impactou o delicado equilíbrio da flora intestinal.

Comparações

 

No estudo, os cientistas sequenciaram o DNA do homem do gelo e conseguiram identificar o conjunto de bactérias que colonizavam o intestino do homem. Depois, eles o compararam ao microbioma de populações contemporâneas não ocidentalizadas (da Tanzânia e de Gana, em particular), que não têm hábito de processar alimentos e têm práticas de higiene e estilo de vida não ocidentalizados.

O estudo se concentrou, em especial, no Prevotella copri, um micróbio presente em 30% dos indivíduos ocidentais. “Primeiro, descobrimos que a P. copri não é uma espécie monotípica, mas é composta por quatro clades distintas, embora similares”, explica Nicola Segata, que coordenou o estudo. “Observamos, então, que pelo menos três delas estão quase sempre presentes em populações não ocidentalizadas e são muito menos prevalentes no ocidentes. Postulamos que o complexo processo de ocidentalização teve um impacto considerável no desaparecimento gradual dessa bactéria”, continua.

A hipótese foi confirmada pela análise de amostras antigas de DNA, retiradas de outras múmias. Três das quatro cepas de P. copri também estavam presentes em amostras de fezes fossilizadas do México com mais de 1 mil anos. “Nós ainda não sabemos quais são as consequências biomédicas dessas mudanças no microbioma, que evoluiu consideravelmente nas últimas décadas, enquanto o corpo humano que ele coloniza permanece geneticamente praticamente inalterado há séculos”, diz Adrian Tett, que fez as análises genéticas das amostras.

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