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Correio Braziliense

Hemácias podem melhorar a quimioterapia, aponta estudo

Técnica usa glóbulos vermelhos para levar nanopartículas contendo medicamentos antitumorais exatamente ao local em que está a doença. A abordagem minimiza efeitos colaterais do medicamento e tem resultado positivo em testes com ratos


postado em 14/11/2019 06:00 / atualizado em 14/11/2019 01:11

(foto: Lucas Pacífico/CB/D.A Press)
(foto: Lucas Pacífico/CB/D.A Press)
A quimioterapia é o principal tratamento para o câncer. Mas devido à toxicidade do coquetel de medicamentos usados, há a possibilidade de ocorrência de fortes efeitos colaterais. Por isso, pesquisadores têm se dedicado a tornar essa terapia menos agressiva. Um grupo de cientistas americanos aposta na entrega de remédios por meio de nanopartículas e do uso de glóbulos vermelhos. Nesse caso, as células do sangue se transformam em instrumento de “locomoção” das moléculas medicamentosas dentro do corpo. Testes iniciais com ratos tiveram resultados positivos, apresentados na última edição da revista especializada Science Advances.

A tecnologia é chamada quimioterapia conduzida por eritrócitos (EleCt). Nela, os cientistas carregam pequenas nanopartículas, feitas do polímero biodegradável PLGA, com um medicamento comumente usado na quimioterapia, a doxorrubicina. Em seguida, foram incubados, nessas nanopartícula, glóbulos vermelhos (eritrócitos), a fim de facilitar o transporte de medicamento no organismo.

Nos experimentos iniciais, os pesquisadores injetaram essas moléculas nas veias de camundongos vivos com melanoma — um dos tipos mais comuns de tumor de pele em humanos. Após 20 minutos de aplicação, detectaram um conteúdo 16 vezes maior de drogas nos pulmões das cobaias, quando compararam com aquelas que receberam nanopartículas com os medicamentos, mas não incubadas pelos glóbulos vermelhos de roedores, e com animais que receberam a quimioterapia padrão.

“O efeito colateral mais grave da doxorrubicina em humanos é a cardiotoxicidade e, com base em nossos experimentos, o ELeCt pode garantir que uma quantidade maior da droga acabe nos pulmões e não no coração”, explica, em comunicado, Anvay Ukidve, pesquisador do Laboratório de Engenharia e Ciências Aplicadas (SEAS) da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e um dos autores do estudo. Segundo Zongmin Zhao, também autor do estudo, o pulmão é um alvo essencial na abordagem porque é bastante atingido durante a metástase. “De 30% a 55% dos pacientes com câncer avançado têm metástase no pulmão e, atualmente, não há tratamento para a metástase pulmonar em si.”

Sobrevida

O uso de EleCt também aumentou o tempo de sobrevida dos ratos em 32 dias, benefício não percebido em animais do experimento submetidos a outros tipos de tratamento. Os pesquisadores pretendem realizar mais testes e acreditam que a EleCt poderá substituir a quimioterapia, gerando resultados mais rápidos e reduzindo efeitos colaterais. “Nosso sistema fornece soluções para evitar efeitos colaterais tóxicos desses remédios, evitando o uso de altas doses, porque aumenta a penetração nos tecidos-alvo, com uma rápida liberação do medicamento”, detalha Samir Mitragotri, um dos autores do estudo e pesquisador no SEAS.

A equipe também observou que outros medicamentos quimioterápicos podem ser aplicados usando técnica nanotecnológica, como paclitaxel, docetaxel, metotrexato e uma combinação de 5-fluorouracil e metotrexato. Novos estudos serão conduzidos para entender melhor o papel dos  glóbulos vermelhos e aprimorar a entrega de medicamentos.

Os cientistas também planejam determinar o esquema de dosagem ideal para maximizar a inibição de metástases. “Essa tecnologia representa um grande avanço em termos de aumentar a eficácia e diminuir a toxicidade das quimioterapias de câncer existentes. Também é um ótimo exemplo de avanços médicos que podem ser feitos quando se consegue tirar proveito de sistemas biológicos”, ressalta Donald Ingber, autor do estudo e professor de bioengenharia da universidade americana.

Ação planejada

Cláudia Ottaiano, oncologista clínica do Centro de Oncologia do Hospital Santa Lúcia, de Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Oncologia, acredita que o estudo mostra resultados positivos ao usar uma entrega de medicamentos minuciosamente planejada. “Essa é uma estratégia muito inteligente: pegar micropartículas para carregar as drogas com a ajuda das hemácias. Essas células são essenciais, pois ajudam o medicamento a chegar aos capilares do pulmão, que são estruturas estreitas e de difícil acesso. Por isso, a técnica obteve sucesso”, avalia.

A médica acredita que a pesquisa precisa de mais aprofundamento, pois, apesar dos resultados positivos, as análises feitas são muito iniciais e conduzidas apenas em animais. “É preciso deixar claro que esse ainda é um estudo experimental, precisamos observar se o mesmo ocorre em humanos e também se não ocorrem efeitos colaterais. Mas caso possa ser usado futuramente, podemos ter grandes ganhos”, frisa.

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