Publicidade

Correio Braziliense

Estudo aponta que holocausto deixou marcas no cérebro de sobreviventes

Ao analisar imagens do cérebro de sobreviventes do genocídio, cientistas americanos identificam redução no volume da área ligada à emoção, memória e cognição social. A descoberta pode melhorar terapias de enfrentamento de traumas


postado em 16/11/2019 07:00

Judeus saem de um trem no campo de extermínio de Auschwitz: possíveis impactos em futuras gerações(foto: AFP / Yad Vashem Archives)
Judeus saem de um trem no campo de extermínio de Auschwitz: possíveis impactos em futuras gerações (foto: AFP / Yad Vashem Archives)
Passar por uma situação traumática, como presenciar um acidente ou um crime bárbaro, pode, além de comprometer a saúde mental, causar danos biológicos. É o que mostram pesquisadores norte-americanos em um estudo em que analisaram a estrutura cerebral de sobreviventes do Holocausto. Os cientistas descobriram que o estresse e o sofrimento vividos em um dos episódios mais tristes da história da humanidade geraram impacto negativo e duradouro na massa cinzenta dessas pessoas. As descobertas foram apresentadas no 5º Congresso da Academia Europeia de Neurologia, realizado em Amsterdam.

Para chegar à conclusão, a equipe usou aparelhos de ressonância magnética, o que permitiu comparar as imagens da atividade neural de pessoas que vivenciaram o Holocausto com as de indivíduos que não viveram esse trauma diretamente. Participaram da pequisa 56 pessoas com idade média de 79 anos, sendo que metade delas era sobrevivente do genocídio orquestrado na Segunda Guerra Mundial.

Na análise, os pesquisadores detectaram um volume significativamente menor de massa cinzenta no cérebro das vítimas do plano nazista. “Após mais de 70 anos, o impacto da sobrevivência do Holocausto na função cerebral é significativo. Revelamos diferenças substanciais nas estruturas cerebrais envolvidas no processamento de emoção, memória e cognição social entre os sobreviventes e indivíduos que não viveram esse trauma”, destaca, em comunicado, Ivan Rektor, chefe do Centro de Pesquisa do Centro de Neurociência da Universidade Masaryk, na República Tcheca, e um dos autores do estudo.

Segundo os autores, os resultados entram em consonância com pesquisas anteriores que mostram redução da massa cinzenta em pacientes com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), veteranos de combate e pessoas que sofrem experiências de estresse já no início da vida. A pesquisa atual, porém, mostra que essa redução é maior do que a de indivíduos com TEPT.

Infância


Ivan Rektor e os colegas também investigaram se existiam diferenças entre sobreviventes que vivenciaram o trauma quando eram crianças ou quando eram mais velhos. Para isso, dividiram esses voluntários entre os que tinham menos ou mais de 12 anos de idade em 1945. Os exames de imagem cerebral mostraram que a redução na massa cinzenta foi significativamente mais expressa no primeiro grupo. Segundo os pesquisadores, essa diferença pode ser atribuída à maior vulnerabilidade do cérebro a um ambiente estressante na infância.

Como próximo passo, os cientistas pretendem investigar o impacto do Holocausto nos filhos e nos netos de sobreviventes. Análises iniciais revelam uma conectividade reduzida entre as estruturas do cérebro envolvidas no processamento da emoção e da memória. Os investigadores adiantam também que pesquisas adicionais estão programadas para identificar biomarcadores de resiliência ao estresse e de crescimento pós-traumático, além de determinar se a transmissão para familiares é baseada em fatores comportamentais e psicológicos ou em fatores genéticos.

“Nossa esperança é de que essas descobertas e nossa pesquisa contínua nos permitam entender mais sobre o efeito dessas experiências, a fim de concentrar a terapia para apoiar a resiliência e o crescimento dos sobreviventes e de seus descendentes”, frisa Rektor. Apesar de ter sofrido estresse extremo, a maioria dos sobreviventes participante da pequisa relatou estar satisfeitos com a vida pessoal e profissional após a guerra.


Mais estudos


Cláudio Carneiro, neurologista da Rede D’Or São Luiz, em Brasília, acredita que o estudo mostra dados interessantes, mas que o tema precisa ser aprofundado, principalmente em relação ao impacto desse tipo de experiência nos descendentes. “É preciso tomar cuidado quando falamos de traumas que podem passar para outras gerações porque muitos fatores estão envolvidos nesse processo. Fatores externos, como o estresse, e o ambiente familiar, tudo isso está envolvido”, justifica.

O neurologista acredita que uma pesquisa que aborde outros tipos de análise, além da estrutura cerebral, pode render resultados mais consistentes. “Temos que considerar outros fatores comportamentais para saber se essas áreas que aparecem alteradas nas imagens realmente foram afetadas. Temos estudos anteriores que analisaram características neurais semelhantes em pessoas com profissões específicas”, justifica

O neurologista usa como exemplo uma pesquisa com os black caps, os famosos motorista de Londres que precisam saber de cabeça o mapa da cidade. “Eles passaram pelo mesmo monitoramento neural, e os cientistas constataram que, muito provavelmente, devido ao fato de fazerem os mesmos trajetos enquanto trabalho, eles têm a mesma região do córtex cerebral mais desenvolvida”, detalha.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade