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Correio Braziliense

Pesquisadores desenvolvem novo colírio para a doença do olho seco

Medicamento combate anticorpos ligados a inflamações que desencadeiam a complicação ocular. Em testes, a fórmula reduz significativamente os danos nas córneas de pessoas acometidas pela forma grave da enfermidade


postado em 19/11/2019 06:00

(foto: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
(foto: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
Pesquisadores americanos identificaram, pela primeira vez, a presença de um tipo específico de anticorpo no líquido lacrimal humano. Segundo eles, a substância está relacionada à ocorrência da doença do olho seco. Graças à descoberta, a equipe desenvolveu um medicamento que age diretamente sobre essa molécula. Os testes clínicos iniciais com o novo colírio renderam resultados positivos em pacientes com a forma grave da enfermidade. Os dados foram publicados na revista especializada Ocular Surface.

Em estudos anteriores, os investigadores descobriram que filamentos de DNA são expulsos de neutrófilos, um tipo de glóbulo branco, e formam espécies de teias na superfície dos olhos, causando a inflamação que gera a doença do olho seco. Os pesquisadores resolveram se aprofundar nos mecanismos relacionados à complicação ocular. Desta vez, identificaram anticorpos anticitrulinados (ACPAs), produzidos pelo sistema imune, no líquido lacrimal humano. Segundo a equipe, os ACPAs também causam inflamação ocular e contribuem para o desenvolvimento dessas redes.

Com base nesses dados, eles desenvolveram um colírio formulado a partir de anticorpos combinados — que são processados a partir do sangue doado de milhares de indivíduos. O medicamento continha tipos variados de anticorpos que neutralizam os efeitos negativos dos ACPAs. Participaram do teste 27 indivíduos com a doença do olho seco na forma grave. Uma parte dos voluntários recebeu o remédio experimental e foi orientada a administrar uma gota em cada olho duas vezes ao dia, durante oito semanas. O grupo controle recebeu as mesmas instruções, mas colírios sem anticorpos.

Como resultado, os cientistas descobriram que os participantes que usaram o novo colírio tiveram  redução estatística e clinicamente significativa no dano da córnea, quando comparados ao grupo controle. “Os participantes do estudo que usaram as gotas com anticorpos combinados relataram menos desconforto ocular e tinham as córneas mais saudáveis”, relata, em comunicado, Sandeep Jain, um dos autores do estudo e professor de oftalmologia e ciências visuais da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos.

Autoimunidade

Os autores do estudo acreditam que os dados positivos podem contribuir para aumentar a quantidade de terapias para a doença do olho seco, que atualmente conta com poucas opções de tratamento e tem impacto direto na qualidade de vida dos pacientes. “O fardo do olho seco autoimune é muito maior do que apenas ter uma sensação ocasional de secura. Ele pode comprometer severamente a vida da pessoa a ponto de incapacitar e comprometer a visão dela”, afirma  Sandeep Jain.

O cientista frisa que existem poucos medicamentos aprovados para tratar o olho seco, e eles não funcionam para todos os pacientes, especialmente para aqueles com a doença mais grave. “Portanto, ter um novo medicamento que pode tratar a doença visando um mecanismo diferente, nesse caso, uma autoimunidade, é muito importante”, diz.

A investigação terá continuidade, ampliando o número de participantes. “Os dados desse estudo clínico inicial sugerem que colírios contendo anticorpos combinados podem ser seguros e eficazes para o tratamento de doenças do olho seco, e esperamos realizar estudos randomizados maiores para provar definitivamente sua eficácia”, adianta Sandeep Jain.

Para Samuel Duarte, oftalmologista do Visão Hospital de Olhos, em Brasília, os resultados podem contribuir, de forma bastante positiva, para o tratamento de pacientes com o problema oftalmológico. “Hoje, temos muito poucos recursos que ajudam os pacientes. Usamos a lágrima artificial e também os imunossupressores. Esse colírio pode ser uma ferramenta a mais caso os testes futuros comprovem a sua eficácia e segurança”, avalia. “Sabemos que algumas situações, como privação de sono, pós-conjutivite e ficar muito tempo sem piscar os olhos, podem gerar esse problema, e na maioria das vezes a lubrificação resolve. Mas temos pacientes que devido a outros fatores, como alergia, precisam de outras opções.”

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