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Correio Braziliense

Mosquito da dengue infectado pode ser importante arma contra a doença

O Aedes aegypti é modificado com uma bactéria que o impede de transmitir o vírus para humanos. Abordagem é testada por grupo internacional de cientistas em diferentes países e tem resultados significativos. No Brasil, a queda dos casos chega a 70%


postado em 22/11/2019 06:00

(foto: AFP / MAURO PIMENTEL)
(foto: AFP / MAURO PIMENTEL)
A dengue é uma das doenças que mais castigam o Brasil e outros países de clima tropical. Isso ocorre porque a transmissão, feita pelo mosquito Aedes aegypti, é extremamente difícil de ser controlada. Um grupo internacional de pesquisadores, incluindo brasileiros, trabalha usando esses vetores de transmissão como uma arma no enfrentamento à doença. Os cientistas infectam os insetos com Wolbachia, uma bactéria que impede que o vírus da enfermidade chegue a humanos. Depois, soltam os mosquitos em áreas de risco. Depois de sete anos de trabalho, a equipe constata reduções de até 96% nos números de casos da doença.

Os resultados foram apresentados nesta quinta-feira (21/11), durante a última reunião da Sociedade Americana de Medicina Tropical e Higiene, realizada nos Estados Unidos.Apesar dos números promissores, pesquisadores e especialistas enfatizam que são necessárias mais ferramentas para controlar a doença. Nos experimentos, todos os lançamentos de mosquitos foram precedidos de intensos esforços comunitários e educacionais para informar as comunidades sobre a segurança da bactéria e o impacto potencial da medida.

A Wolbachia é uma bactéria que está naturalmente presente na maioria dos insetos, mas não no Aedes aegypti. Em pesquisas anteriores, os cientistas descobriram que ela é capaz de bloquear a infecção do vírus da dengue em humanos. Com base nessa descoberta, resolveram modificar mosquitos dessa espécie, injetando a bactéria nos ovos. A intervenção obteve sucesso. Em seguida, os animais modificados foram soltos em regiões com alto índice da doença, como em Niterói, no Rio de Janeiro.

Em dados preliminares, os pesquisadores observaram redução de casos de dengue entre 60% e 70% após a liberação constante (a cada 20 a 30 dias) de mosquitos nas regiões, iniciada em 2014. “É preciso deixar claro que, no Brasil, os nossos dados ainda são preliminares. Precisamos de mais tempo para analisar, mas vemos que o impacto é muito semelhante ao de áreas internacionais. Acreditamos que, em mais pesquisas, feitas em outras áreas de risco alto, poderemos observar melhor esse efeito”, diz ao Correio Betina Durovni, uma das autoras do estudo e coordenadora de epidemiologia do World Mosquito Program (WMP).

Os pesquisadores acreditam que os dados são extremamente animadores, já que os casos de dengue estão novamente aumentando no Brasil. Eles explicam que, apesar dos resultados positivos, é necessário manter outras medidas relacionadas ao controle do Aedes aegypti. “Essa é apenas uma tecnologia que estamos testando, que, apesar de ter mostrado sucesso, precisa ser usada em parceria com outras medidas. São vários instrumentos que precisam ser usados, como evitar a água parada, o acúmulo de lixo e continuar em busca de uma vacina”, frisa Durovni.

A ocorrência de casos de chicungunha no Brasil também deve ser considerada na análise, destacam os pesquisadores. “Houve uma epidemia de chicungunha nessas áreas. E a vigilância de doenças pelo Ministério da Saúde está mostrando que houve 75% menos chicungunha em Niterói, onde liberamos os mosquitos, em comparação com as áreas em que não estamos trabalhando”, declara, em comunicado, Luciano Moreira, líder do programa do WMP no Brasil.

Mais controle

Para David Urbaez, infectologista do Laboratório Exame, em Brasília, o estudo mostra dados muito animadores, que revelam uma estratégia promissora para o combate à dengue. “O controle dessa doença é terrivelmente complicado, pois nós não temos controle dos criadores, que surgem nas toneladas de lixo que são descartadas frequentemente. É uma tarefa praticamente impossível. Todas as áreas tropicais são criadouros em potencial. Por isso, uma ferramenta biológica como essa pode revolucionar esse trabalho. É uma das saídas mais interessantes que temos atualmente”, avalia.

Urbaez também ressalta que essa é uma medida que precisa ser usada em conjunto com outras abordagens. “Esse é um dos instrumentos a serem usados, mas não podemos esquecer outros pontos, como evitar a água parada. Precisamos usar o máximo de medidas possíveis para potencializar os resultados positivos e, dessa forma, chegar ao que sempre buscamos, que é conseguir eliminar por completo essas doenças”, diz.

Os pesquisadores ressaltam que existe uma série de vantagens no uso de mosquitos infectados com Wolbachia, como a não toxicidade e a não necessidade de modificar os mosquitos em nível genético, o que torna a iniciativa mais barata. Os resultados em locais em que a iniciativa é testada há mais tempo também servem de estímulo. Na Austrália, onde foram liberados mosquitos infectados há oito anos, a  redução foi de até 96% na região de Far North Queensland.  Na cidade de Yogyakarta, na Indonésia, a soltura ocorreu em 2016. Em análises feitas neste ano, o grupo observou uma redução de 76% de casos da doença, em comparação com uma área de controle não tratada nas proximidades.

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