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Correio Braziliense

Pesquisa analisa o que ocorre dentro do cérebro dos entediados

Análise de ondas cerebrais mostra quais partes do órgão são ativadas em indivíduos que sentem tédio frequentemente. Segundo cientistas americanos, a descoberta poderá ajudar no desenvolvimento de terapias para casos mais críticos


postado em 23/11/2019 06:00 / atualizado em 23/11/2019 20:21

Apesar de ser uma sensação comum, o tédio desafia cientistas quanto às suas características fisiológicas. Um estudo da Universidade Estadual de Washington, nos Estados Unidos, dá alguns passos na tentativa de entender como se dão esses mecanismos no cérebro. Ao analisar 54 voluntários, os cientistas identificaram as principais diferenças das reações cerebrais entre aqueles que eram mais propensos a ficar entediados e os que não enfrentavam a situação com frequência. Entre as constatações estão a de que as pessoas que vivenciam o tédio regularmente tendem a ser mais ansiosas e propensas a ter depressão.


Segundo a equipe de pesquisadores, essa abordagem pode ajudar no desenvolvimento de intervenções terapêuticas para casos mais críticos. “Quase nada se sabe sobre o tédio no cérebro, mas sabemos bastante sobre quais tipos de atividade cerebral estão associados a emoções mais positivas e mais negativas. Por isso, queríamos testar se as pessoas que raramente experimentam o tédio são melhores para administrar um estado de aborrecimento”, explica Sammy Perone, professor-assistente da instituição de ensino e um dos autores da pesquisa, divulgada na revista Psychophysiology.

Sammy Perone conta que havia um entendimento de que as pessoas que reagem negativamente ao tédio apresentam ondas cerebrais específicas antes da sensação de enfado. “Em nossos testes de base, não conseguimos diferenciar as ondas cerebrais. As diferenças surgiram apenas quando as pessoas estavam em estado de tédio”, diz.

A pesquisa também  indicou que a grande diferença entre os que experimentam com frequência o tédio e os que não é a maneira como lidam com a situação que desperta a sensação. Para os autores, isso significa que esses indivíduos podem aprender mecanismos de enfrentamento para evitar essas respostas negativas.

Jogo dos pinos

Para chegar às conclusões, os cientistas avaliaram 54 voluntários, que, inicialmente, responderam a um questionário sobre como lidavam com o tédio. Depois, os cientistas mediram as ondas cerebrais de cada participante usando um capacete capaz de analisar ondas cerebrais a partir de 128 pontos no couro cabeludo. A medição se deu em duas situações: com a pessoa de olhos abertos e fechados.

A partir desses referenciais, deu-se início um experimento para deixar as pessoas entediadas. Elas foram colocadas, individualmente, em frente a uma tela de computador em que eram exibidos oito pinos. Um pino era destacado, e o voluntário tinha que clicar nele. A cada clique uma alavanca girava o equivalente a 45 graus. Outro pino, então, era destacado, e a atividade se repetiu ao longo de cerca de 10 minutos, resultando em 320 quartos de volta. “Ao analisar experiências anteriores, esse teste foi classificado como a tarefa mais chata, e era disso que precisávamos”, explica Sammy Perone.

Duas áreas específicas do cérebro foram analisadas pela equipe: a frontal direita e a frontal esquerda. Normalmente, elas são ativadas por diferentes razões. A direita é aumentada por emoções negativas ou ansiosas. Já a esquerda, quando as pessoas estão procurando se envolver ou se sentirem estimuladas com pensamentos distintos da situação atual.

No teste de medição das ondas cerebrais, não houve diferença entre as pessoas que reagiram com mais atividade cerebral esquerda e as que reagiram com atividade cerebral direita no teste dos pinos. No entanto, aquelas que responderam ao questionário dizendo serem mais propensas a sentir tédio cotidianamente apresentaram maior atividade cerebral frontal direita e ficaram mais entediadas ao longo do experimento.

“O córtex frontal esquerdo foi mais ativado nas pessoas que se preocuparam mais em como poderiam mudar a situação entediante, tentando pensar em outra coisa para diminuir o tédio, como ler um livro. As pessoas que ativaram mais o córtex frontal direito foram aquelas que relataram sentimentos mais negativos ou se tornaram mais ansiosas durante a realização da tarefa entediante”, explica Nêuton Magalhães, professor de neurologia e coordenador da especialização em tratamento da dor do Centro Universitário de João Pessoa (Unipê).

Sammy Perone conta que um dos participantes relatou que, no experimento, tentou ensaiar mentalmente as músicas de Natal para um próximo show. “Ele fez o exercício de transformar a pegada com a batida da música. Fazer coisas que o mantenha engajado em vez de se concentrar em como está entediado é realmente útil.”

Cautela
Segundo o neurocirurgião André Meireles Borba, é preciso ter cautela com os resultados para que, depois de muita pesquisa, essas informações possam resultar em algum tipo de terapia. “Os indivíduos não são iguais entre si. O lado dominante do cérebro pode ser diferente entre as pessoas, mesmo que o esquerdo seja o mais comum. As pessoas também têm diferentes graus de capacidade para lidar com atividades lógicas, artísticas, criativas e acadêmicas”, afirma.

Segundo Sammy Perone, a pesquisa terá continuidade. A equipe tenta, agora, buscar maneiras de levar as pessoas a serem mais proativas em seus pensamentos quando estiverem entediadas. “Os resultados desse artigo mostram que é possível reagir mais positivamente ao tédio e, agora, queremos descobrir as melhores ferramentas que podemos dar às pessoas para lidar positivamente com o fato de estarem entediadas. Então, ainda faremos a atividade de rastreabilidade, mas daremos a elas algo em que pensar enquanto estiverem fazendo isso”, detalha. “Se pudermos ajudar as pessoas a lidarem melhor com o tédio, isso pode ter um impacto real e positivo na saúde mental delas.”

Palavra de especialista


Diferença não é estrutural 

“A grande questão é que, no início da pesquisa, não houve diferença entre os participantes quanto ao eletroencefalograma. A diferença foi detectada exatamente na reação frente a situação entediante. Ou seja, a diferença não está na estrutura do cérebro em si, nos neurônios, mas em como as pessoas podem reagir frente a situação de tédio. Isso significa que tratamentos baseados em estimular o lado esquerdo do cérebro, estimular pensamentos positivos, por exemplo, podem ajudar as pessoas que sofrem com tédio. Se tivessem sido detectadas diferenças no eletroencefalograma no início da pesquisa, teríamos a conclusão de que as pessoas que desenvolvem tédio têm o cérebro diferente daquelas que não desenvolvem”
Nêuton Magalhães, professor de neurologia e coordenador da especialização em tratamento da dor do Centro Universitário de João Pessoa (Unipê)


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