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Correio Braziliense

Após a UTI, pacientes necessitam de assistência especializada

Número de pacientes que recebem alta da unidade de terapia intensiva tem aumentado, o que leva à necessidade de assistência especializada. Pesquisas mostram que essas pessoas são vulneráveis a danos cognitivos e complicações como o estresse pós-traumático


postado em 24/11/2019 17:46

(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
Por muitos anos, uma das maiores preocupações da comunidade médica foi encontrar maneiras de reduzir a mortalidade de pacientes internados nas unidades de tratamento intensivo (UTIs). Com grandes avanços nesse sentido, os especialistas, agora, voltam os olhos para os danos cognitivos, mentais e motores que podem acometer os sobreviventes. Em estudos científicos, pesquisadores do Brasil e de outros países constatam maior vulnerabilidade na ocorrência de problemas como o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT, pela sigla em inglês) nessas pessoas e a importância de elas receberem uma assistência multiprofissional depois que deixam o hospital.

 

“Uma das nossas maiores preocupações quanto aos pacientes hospitalizados em UTIs são as sequelas que eles podem ter a longo prazo. A forma como eles são sedados, por exemplo, pode causar problemas cognitivos e até acelerar o processo de demência”, diz ao Correio Fernando Bozza, pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) no Rio de Janeiro. “Em outros pacientes pode ocorrer o transtorno de estresse pós-traumático, desencadeado por experiências de ansiedade e depressão. Foi para esses casos que nós nos voltamos na pesquisa”, complementa o também cientista do Instituto Idor de pesquisa.

 

Fernando Bozza e seus colegas analisaram dados de 7.152 adultos que haviam saído da UTI. Eles observaram que um em cada cinco indivíduos (20%) apresentava, ao longo do primeiro ano após a alta, sintomas de TEPT. Para os pesquisadores, com base nesses resultados, é preciso considerar a possibilidade de realização de triagem desses indivíduos, seguida de tratamento adequado.

 

“Seria fundamental que fossem avaliados, já na UTI, estressores comuns em pacientes gravemente enfermos, como insuficiência respiratória, inflamações, delírio e barreiras de comunicação. Esses são fatores que podem contribuir para a ocorrência de TEPT. E a prevenção e o manejo adequado deles podem reduzir a incidência da doença após a alta”, destaca o autor do estudo, publicado na revista especializada Critical Care.

 

O especialista brasileiro conta que estão em andamento estudos que incluem o uso de medicamentos que poderão ajudar a prevenir o risco dessas complicações. “Outro ponto que não vimos na pesquisa, mas que acreditamos contribuir positivamente, é o aumento da presença dos familiares nesse local”, complementa. “Ter um parente próximo proporciona ao paciente menor ansiedade e estresse. E isso é muito importante para todos, tanto para quem está internado quanto para  parentes e amigos, que podem sofrer também com essa etapa difícil.”

 

Para João Armando, psiquiatra do Instituto Casto e Santos (ICS), em Brasília, os cuidados com a saúde mental e cognitiva de pacientes que saíram da UTI são extremamente importantes, pois podem contribuir para maior qualidade de vida dessas pessoas. “Já trabalhei em um hospital que encaminhava esse perfil de pacientes para psiquiatras. Notávamos realmente que isso fazia diferença”, conta. “Uma pessoa que passa por um problema grave, como um infarto, pode ter os mesmos danos que aqueles que são vítimas de um assalto e desenvolvem o TEPT.”

 

O psiquiatra acredita que essa atenção extra pode evitar sofrimento. “Uma das características de quem enfrenta essa síndrome é reviver os momentos de sofrimento, o que é muito complicado, pois a pessoa acaba achando que vai morrer. São questões que podem ser muito prejudiciais e que precisam ser identificadas cedo para ajudar no tratamento, caso seja  necessário.”

 

Efeitos funcionais

Outros problemas comuns em pessoas que foram internadas em UTIs são danos cognitivos, que podem comprometer a saúde tanto de indivíduos jovens quanto de idosos. Pesquisadores americanos resolveram aplicar um questionário — geralmente usado para avaliar a função cognitiva, funcional e psicológica de adultos mais velhos — em indivíduos que  venceram a etapa da internação intensiva. Os voluntários responderam a questões sobre a frequência de sintomas durante as duas semanas anteriores à entrevista.

 

Para o estudo, 142 pacientes foram recrutados, de julho de 2011 a maio de 2017, em uma das primeiras clínicas de sobreviventes de UTI nos Estados Unidos. Um conjunto de 291 pessoas atendidas em unidades básicas de saúde completou o outro grupo. A equipe de pesquisa descobriu que aqueles já submetidos a tratamento intensivo eram mais propensos a relatar sintomas cognitivos, psicológicos e/ ou funcionais, quando comparados às pessoas que receberam assistência básica de saúde.

 

A equipe não constatou essas alterações enquanto os voluntários estavam internados. “Todo o espectro de sintomas da síndrome pós-cuidados intensivos (PICS, pela sigla em inglês) pode não ser detectado após a internação”, destaca Sophia Wang, uma das autoras do estudo, também publicado na revista Critical Care, e pesquisadora da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos.

 

Sônia Wang acredita que os dados reforçam a necessidade de uma atenção maior à saúde mental e cognitiva desses indivíduos. “Independentemente da idade, a maioria dos sobreviventes de UTI retorna a um prestador de cuidados primários para atendimento pós-hospitalar. Profissionais de saúde com pouco ou nenhum conhecimento em PICS precisam de uma ferramenta fácil para ser usada, com o intuito de reconhecer quando eles estão apresentando sintomas relacionados a PICS.”

 

Qualquer idade

José Mário Meira Teles, autor do livro Síndrome pós-cuidados intensivos, lançado no início deste mês, acredita que os danos cognitivos são um dos problemas que mais podem atingir a população que foi atendida em UTIs, independentemente da idade. “Antes, a gente se preocupava bastante com a população idosa devido a danos cognitivos que são frequentes nela. Mas vemos que pessoas mais jovens também apresentam perda de cognição após a internação, e isso é muito preocupante, pois pode gerar uma incapacidade no trabalho”, frisa.

 

Ele propõe a adoção de ferramentas, como questionários clínicos, para identificar problemas do tipo e tratá-los de forma adequada. Segundo José Mário Meira Teles, o tema precisa ser mais investigado pelos pesquisadores brasileiros. “Temos muitos especialistas nos Estados Unidos que estudam essa área de PICS, mas, no Brasil, ainda contamos com poucos trabalhos. Seria importante termos mais trabalhos em nosso território para entender melhor esse cenário e poder compará-lo com o de outros países”, defende. “Quanto mais especialistas de áreas distintas se envolverem, teremos uma rede mais especializada, que impeça danos mais graves a esses pacientes.”

Do isolamento à irritação

 

É um distúrbio de ansiedade que pode gerar isolamento social, taquicardia, tonturas, dor de cabeça, distúrbios do sono, dificuldade de concentração e irritabilidade, complicações que podem prejudicar diretamente a qualidade de vida da pessoa. Pode ocorrer após um trauma grave, como ser vítima de um assalto ou presenciar cenas de violência, o que ocorre com ex-combatentes de guerra, por exemplo.

 

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