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Correio Braziliense

Cientistas apontam gene que pode ajudar a recuperar os dentes

Quando ativado, o Dlk1 faz com que células-tronco presentes na dentina se proliferem para reparar cáries e traumas dentários. Descoberta feita em roedores, cujos incisivos crescem por toda a vida, abre a possibilidade de criação de tratamentos para humanos


postado em 27/11/2019 06:00

Células-tronco mesenquimais (em verde) migram para um dente para regenerá-lo(foto: University of Plymouth/Divulgação)
Células-tronco mesenquimais (em verde) migram para um dente para regenerá-lo (foto: University of Plymouth/Divulgação)
O uso de células-tronco na cicatrização de feridas é uma das grandes apostas da medicina regenerativa. À medida que essas estruturas são investigadas por cientistas, sua aplicabilidade tem se ampliado. Agora, uma descoberta feita por  uma equipe internacional de pesquisadores abre a possibilidade do uso dessas células para reparo dentário. Liderado por Bing Hu, da Universidade de Plymouth, no Reino Unido, o grupo identificou uma nova população de células-tronco que contribui para a formação da dentina, o tecido que protege os dentes de impactos externos, e um mecanismo que regula o crescimento dessas células.

“Ao descobrir as novas células-tronco que formam o corpo principal de um dente e estabelecer o uso vital do gene Dlk1 na reparação do tecido, tomamos medidas importantes para entender a regeneração a partir de células-tronco”, destaca, em comunicado Bing Hu, também autor do artigo que detalha a pesquisa,  publicada recentemente na revista Nature Communications.

A descoberta foi feita no dente incisivo de um rato. Em roedores, esses dentes são constantemente desgastados e crescem constantemente ao longo da vida. Nele, havia uma população de células-tronco mesenquimais, o tipo de célula-tronco encontrado em adultos que é tratado como uma estrutura-chave para futura intervenções reparadoras.

Ao analisar a estrutura do incisivo detalhadamente, a equipe identificou que o gene Dlk1 age como mestre no comando das células-tronco mesenquimais para tratar danos dentários. Ao ser ativado, o gene envia sinais para que essas  células se proliferem e, assim, repararem cáries e outros problemas do tipo. Em testes com ratos que tiveram dentes danificados para simular cáries, observou-se melhora na regeneração de dentes daqueles cuja expressão do Dlk1 foi provocada.

Para Bing Hu, esse mecanismo pode fornecer uma nova solução para a reparação dentária em humanos, ajudando no enfrentamento a problemas como cáries e traumas dentários. “O trabalho ocorreu em modelos de laboratório, e é necessário fazer mais pesquisas antes que possamos trazer o conhecimento para o uso humano. Mas é realmente um grande avanço na medicina regenerativa, e isso pode ter implicações enormes para os pacientes”, destaca.

Desafios

Segundo Emílio Barbosa e Silva, professor titular e coordenador do curso de odontologia do Centro Universitário do Distrito Federal (UDF), anteriormente, as grandes dificuldades em usar as células-tronco para substitutos de dentes eram a produção de tecidos dentários em larga escala e a falta de uma ossatura para desenvolver um dente morfologicamente semelhante ao humano.

“Alguns estudos já até conseguiram produzir organelas de dente completo utilizando células-tronco mesenquimais, mas a característica morfológica não era semelhante a um dente natural, já que os tecidos dentais eram produzidos de maneira disforme”, conta. De acordo com o especialista brasileiro, os avanços nos estudos sobre células-tronco e a engenharia genética estão ampliando a possibilidade de criação de substitutos biológicos.

A proposta de estimular a produção de tecidos sadios, levantada por Bing Hu e colegas, pode ser promissora, avalia Marcelo Brígido, professor titular em biologia molecular do Instituto de Biologia da Universidade de Brasília (UnB) e doutor em bioquímica pela Universidade de São Paulo (USP). “As células-tronco da dentina se multiplicam lentamente e, naturalmente, repõem as células, perdidas ou mortas. Aumentar a taxa de multiplicação delas pode aumentar a taxa de produção de novas células de dentina e melhorar a regeneração dos dentes”, explica.

Bing Hu frisa que a pesquisa é inicial e que novos estudos serão conduzidos para validar as descobertas clínicas em humanos. “Precisamos acertar coisas, como tratamentos, duração e dose apropriadas, mas esses passos iniciais em animais são excitantes”, afirma. A equipe também tem a expectativa de que as células-tronco sejam usadas na regeneração das outras partes do dente, como o esmalte e o cemento, responsáveis, respectivamente, pela cobertura da coroa e da raiz.

Palavra de especialista

Alternativa aos sintéticos

“Com os estudos sobre células-tronco e engenharia genética, temos a possibilidade de substitutos biológicos, já que há a capacidade de regenerar um tecido dental perdido ou um dente completo, reconstruído em laboratório. Até o momento, um dente que, por exemplo, tenha sofrido perda de tecido por cárie ou doença periodontal, ou um dente que já está condenado à extração ou completamente perdido, é reconstruído por substitutos sintéticos, como resinas, cerâmicas ou implantes. A partir da possibilidade de regeneração celular, o próprio tecido perdido é estimulado a se regenerar. Isso possibilita o uso de alternativas biológicas e resolutivas para problemas relacionados ao sistema estomatognático, que inclui dentes, músculos e ossos da face.”, Emílio Barbosa e Silva, professor Titular e Coordenador do curso de Odontologia do Centro Universitário do Distrito Federal (UDF).

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