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Correio Braziliense

Conferência climática da ONU começa em Madri em meio a pessimismo ambiental

A 25ª edição da conferência da ONU sobre mudanças climáticas começa amanhã, em Madri, em meio a previsões cada vez mais pessimistas. Especialistas advertem que o prazo para implementação de medidas contra o aquecimento global se esgotou


postado em 01/12/2019 08:00

Manifestantes encenam
Manifestantes encenam "funeral" da Amazônia em Washington: situação limite (foto: Nicholas Kamm / AFP)
Assim como uma ampulheta que, aos poucos, se esvazia, o prazo para implantar medidas de combate ao aquecimento global chega ao fim, alertam especialistas. O planeta, assinalam, não consegue mais manter seu equilíbrio sozinho. O cenário preocupante aumenta a pressão em torno de autoridades globais que irão se reunir a partir desta segunda-feira (2/12) na 25ª edição da conferência da ONU sobre o clima (COP-25), em Madrid, na Espanha. Líderes políticos e diplomatas de todo o mundo têm como desafio resolver uma série de questões essenciais para impedir o agravamento dos danos causados pelas mudanças climáticas e buscar soluções a curto prazo para tentar reverter a situação. Redefinir metas de preservação estabelecidas no Acordo de Paris, em 2015, regulamentar a venda do carbono e liberar financiamentos para países em desenvolvimento são algumas das medidas que, advertem os cientistas, não podem mais ser adiadas.

Time for action (Tempo de agir, em tradução livre) é o slogan da conferência, que traduz fielmente a urgência da contenção dos danos climáticos. Na última terça-feira, as Nações Unidas divulgaram o Boletim de Gases de Efeito Estufa da Organização Meteorologia Mundial (OMM), com um alerta sobre níveis alarmantes alcançados pelos três principais gases captadores de calor emitidos na atmosfera: dióxido de carbono, óxido nitroso e metano.

Com base nessas e em outras informações, a ONU defende que, para limitar o aquecimento global a 1,5°C — meta prevista no acordo de Paris —, deve-se reduzir anualmente as emissões de CO2 em 7,6% entre 2020 e 2030. “Anos de procrastinação climática nos levaram a essa situação”, lamentou Inger Andersen, diretora do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

Esses dados, insistem os especialistas, reforçam a necessidade de os 200 países signatários do Acordo de Paris revisarem seus compromissos de redução de emissões de gases de efeito estufa. Por enquanto, 68 nações se comprometeram a alterar suas metas até 2020 — ocorre que essa parcela responde por apenas 8% das emissões globais. Segundo os cientistas, no ritmo atual, a temperatura poderia ter um acréscimo de 4º a 5°C até o fim do século. E, mesmo que os compromissos atuais sejam respeitados, os termômetros podem subir pelo menos 3°C.

Para Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima, as previsões pessimistas dos ambientalistas exigem um maior comprometimento dos países. “Esperamos que o secretário-geral das Nações Unidas tenha ouvido os recados fortes emitidos por esses relatórios, que mostram uma lacuna entre os objetivos firmados em Paris e o cenário atual. Precisamos aumentar a ambição climática, criar metas mais fortes para todos os países. Algumas nações da União Europeia já apresentaram algo nessa linha”, explicou o especialista ao Correio.

Financiamento


Outro ponto que deverá ter destaque nas discussões da COP25 se refere à assistência financeira aos países em desenvolvimento, para que eles se adaptem aos impactos e reduzam suas emissões. Países do norte fizeram a promessa de financiamentos de US$ 100 bilhões ao ano a partir de 2020, mas os números podem ser revistos. Alguns países reivindicam a adoção de um mecanismo específico de financiamento, que poderia ser alimentado, por exemplo, por uma taxa sobre as passagens aéreas internacionais. “Hoje, muitos países sofrem de forma drástica com os prejuízos das mudanças climáticas. Esses recursos são importantes para que eles se preparem e consigam enfrentar obstáculos atuais e futuros, principalmente as nações mais pobres. Acredito que mais dinheiro pode surgir na mesa”, ressaltou Rittl. “Outras formas de ajuda também podem ser levantadas, como transferência de tecnologia, e também o papel de instituições financeiras multinacionais, que se engajem mais, prestando um auxílio a esse grupo”, complementou.

Para Alexandre Prado, diretor de Economia Verde do WWF-Brasil, o financiamento pode gerar discussões ferrenhas durante as negociações da COP, envolvendo principalmente o Brasil. “O ministro do Meio Ambiente (Ricardo Salles) vai para esse evento com a expectativa de receber recursos, mas pode se decepcionar. A nossa emissão subiu bastante, estamos entregando uma fruta podre e queremos receber em troca o melhor pagamento do mundo”, opinou. Para Prado, a sucessão de tragédias ambientais em território brasileiro no último ano pode prejudicar também acordos econômicos com países engajados na área de proteção ao clima. “Não podemos nos enganar, os temas estão correlacionados. O Brasil quer exportar carne para a China, mas ela está muito envolvida nessa negociação, não me surpreenderia se os chineses colocassem impostos sobre as emissões brasileiras”, frisou.

Carlos Rittl também acredita que o cenário político brasileiro pode prejudicar os ganhos do país na COP25. “Uma série de órgãos relacionados ao combate das mudanças climáticas não existe mais no governo, planos de prevenção foram engavetados, e isso tomou uma repercussão internacional. Como podemos cobrar dinheiro se temos desmatamento em alta e a morte de lideranças indígenas? É praticamente impossível chegar com uma série de más notícias e receber um cheque em branco”, opinou.

Carbono


Igualmente delicada é a discussão sobre o mercado de carbono, que, no ano passado, provocou a prorrogação da conferência da Polônia. Por meio desse sistema, uma tonelada de dióxido de carbono (CO2) corresponde a um crédito de carbono, que pode ser negociado no mercado internacional, o que estimula a preservação. Contudo, a legislação para que esse comércio ocorra não foi completamente definida. O assunto ficou pendente e voltará a ser discutido em Madrid. O ponto central do debate é a forma como deve ser feito o financiamento da redução das emissões nos países em desenvolvimento.

“No plano teórico, um país que deseje reduzir suas emissões em 100 toneladas, que custariam 100 euros em seu território, financiaria um projeto equivalente a 10 euros em um país em desenvolvimento. Sobrariam 90 euros para investir em outras ações para reduzir as emissões”, explicou Gilles Dufrasne, da ONG belga Carbon Market Watch. Mas o temor de especialistas é que esse sistema falhe, com os governos preferindo usar o dinheiro economizado para outros fins que fogem da preservação ambiental. “Se esses mercados de carbono não forem bem concebidos, podem levar a um aumento das emissões mundiais”, opinou Lambert Schneider, pesquisador do Oeko-Institut, em Berlim.

Na avaliação de Carlos Rittl,  trata-se de um tema que exige extremo cuidado. “As regras que orientam a comercialização dos créditos do carbono geram uma grande expectativa para os líderes mundiais e para o setor privado. Esse é um dos artigos pendentes do ano passado e que precisa ser resolvido com regras claras, para que se tenha segurança nas transações. Se realmente houver esse comércio, é preciso que ele seja feito com total transparência”, ressaltou o especialista.

Palavra de especialista


Mobilização necessária

“É importante ressaltar que essa COP já é fruto de um cenário tumultuado, com a recusa do Brasil em sediá-la e a transferência do Chile para Espanha para sede de sua realização. Junto a isso, temos uma situação brasileira complicada. Nós temos desmatado mais e isso faz com que as metas de preservação estabelecidas sejam ainda mais difíceis de ser alcançadas. Isso tudo reflete como as autoridades não têm dado a importância e a urgência necessárias para essa causa, mesmo com uma série de argumentos científicos e econômicos legítimos. Diante disso, é necessário que a sociedade pressione os governos, para que eles mudem suas atitudes e deem o valor necessário para a preservação.”, Saulo Rodrigues Filho, professor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (UnB).

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