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Correio Braziliense

COP-25 começa com cobranças por novas medidas contra o aquecimento global

Primeiro dia da 25ª edição da conferência da ONU sobre mudanças climáticas (COP25) é marcado por cobranças pela adoção urgente de novas medidas de combate ao aquecimento. Representantes de quase 200 países discutirão o tema por duas semanas


postado em 03/12/2019 06:00 / atualizado em 02/12/2019 23:13

O anfitrião, o ministro espanhol Pedro Sánchez, e o secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres: pedidos de maior comprometimento (foto: Pierre-Philippe Marcou/AFP)
O anfitrião, o ministro espanhol Pedro Sánchez, e o secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres: pedidos de maior comprometimento (foto: Pierre-Philippe Marcou/AFP)
Reunidos na 25ª edição da conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas (COP25), representantes de quase 200 países enfrentam, ao mesmo tempo, previsões de que o encontro fique abaixo das expectativas e pressões para que decidam urgentemente por novas medidas que protejam o planeta. Relatórios alarmantes divulgados por cientistas, manifestações de milhões de jovens pelo mundo e  aumento da ocorrência dos chamados fenômenos extremos são alguns dos fatores que colocam as autoridades globais nesse impasse, lembrado por Antonio Guterres, secretário-geral da ONU, na abertura do evento, ontem, em Madri. “Realmente queremos entrar para a história como a geração que agiu como o avestruz, que brincava enquanto o mundo queimava?”, questionou.


Desde o ano passado, os países signatários do Acordo de Paris são alvo de uma pressão sem precedentes, resumida na hashtag escolhida para conferência de duas semanas: #TimeforAction (Tempo de agir, em tradução livre). Em tom semelhante, diante dos representantes dos signatários do acordo, entre eles 40 chefes de Estado ou de Governo, Guterres pediu uma escolha entre a “esperança” de um mundo melhor, e a consequente tomada de ações, ou a “capitulação”.

“Até o fim da próxima década, estaremos em um desses caminhos. Um é o caminho da capitulação, em que teremos passado como sonâmbulos pelo ponto de não retorno, pondo em risco a saúde e segurança de todos os habitantes do planeta”, advertiu Guterres. “O outro caminho é o da esperança. Um caminho de resolução, de soluções sustentáveis. Um caminho em que os combustíveis fósseis continuam estando onde deveriam, sob o solo, e alcançaremos a neutralidade de carbono para 2050.”

O secretário-geral da ONU ressaltou sua “frustração” pela lentidão das mudanças e insistiu na necessidade de atuar de forma urgente e radical. Guterres  também lembrou que o Acordo de Paris, assinado em  2015, foi uma “promessa solene” para o mundo inteiro. “Continua faltando vontade política”, lamentou, antes de afirmar que os maiores emissores de CO2 “não cumprem sua parte”. Esta edição da COP é a primeira depois de os Estados Unidos oficializarem sua retirada do pacto climático. Segundo Laurence Tubiana, idealizadora do Acordo de Paris, “alguns países, como China e Japão, dão sinais de relutância a aumentar sua ambição”.

Protagonismo europeu

Nesse contexto, as atenções estão voltadas para a União Europeia (UE), que tem ampla representação na conferência. “Em uma época marcada pelo silêncio de alguns, a Europa tem muito o que dizer nessa batalha. Porque assim exigem nossas sociedades”, afirmou o primeiro-ministro espanhol, o socialista Pedro Sánchez. Segundo Sánchez, o protagonismo europeu também envolve uma “questão de justiça histórica elementar”. “Se a Europa liderou a revolução industrial e o capitalismo fóssil, a Europa tem que liderar a descarbonização”, justificou o anfitrião da conferência. A Espanha sedia a COP25 depois que o Chile desistiu de abrigá-la em consequência de uma convulsão social no país.

Há a expectativa de que, na reunião europeia que ocorrerá nos próximos dias 12 e 13, os países cheguem a um acordo sobre a neutralidade de carbono até 2050.  Apenas o bloco, que responde por 9% do total de emissões, está a caminho de cumprir, ou até superar, seus objetivos, de acordo com um estudo recente da ONG americana Fundação Ecológica Universal (FEU-US). “Seremos os campeões da transição verde”, garantiu o novo presidente do Conselho Europeu, Charles Michel. “Tivemos a revolução industrial, a revolução tecnológica, está na hora da revolução verde”, completou.


Revisões

Atualmente, 68 países se comprometeram a revisar e intensificar os compromissos de redução de emissões de CO2 antes da COP26 em Glasglow, na Escócia. Essas nações, porém, representam apenas 8% das emissões mundiais. Os quatro maiores emissores de gases do efeito estufa são China, Estados Unidos, União Europeia e Índia, que somam 56% das emissões.

A primeira revisão do acordo climático está prevista para 2020. Os países do hemisfério sul reclamam que não são ouvidos e exigem que as nações do norte assumam suas responsabilidades, com ajuda para enfrentarem os desastres previstos. “A água já cobre grande parte de nosso território em algum momento do ano. Nos recusamos a morrer”, afirmou, em vídeo, a presidente das Ilhas Marshall, Hilda Heine.

Os quase 200 signatários do Acordo de Paris se comprometeram que, até 2050, o aumento médio na temperatura da Terra deve ser de até 2ºC acima dos níveis pré-industriais e, desejavelmente, atingir no máximo 1,5°C. 

Democratas presentes

Uma delegação do Congresso americano está na conferência climática para mostrar que os cidadãos seguem comprometidos com a luta contra a mudança climática, segundo a líder do grupo, a democrata Nancy Pelosi. “Estamos aqui para dizer a todos vocês, em nome da Câmara de Representantes e do Congresso dos Estados Unidos, que continuamos envolvidos.” Pelosi disse estar “orgulhosa” do compromisso do grupo, composto por  15 membros democratas do Congresso, que a acompanha. “Temos uma responsabilidade moral com as futuras gerações de deixar para elas um planeta em melhor estado, no melhor estado possível”, insistiu. Enquanto cerca de 200 países estão representados, em Madri, ao menos em nível ministerial, os Estados Unidos escolheram uma diplomata para dirigir sua delegação oficial.

 

Salles ficará  duas semanas 

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, chefe da delegação brasileira na COP25, terá o desafio de convencer os demais países de que continua a bordo dos esforços mundiais para conter as mudanças climáticas. Salles ficará em Madri durante os 14 dias da reunião, o que não é comum na conferência climática. Em geral, ministros só chegam para a segunda semana do evento, deixando a primeira parte das negociações para os diplomatas.

O ministro tem dito que o Brasil vai cobrar contrapartida financeira de países ricos por, segundo ele, estar fazendo sua parte. “O Brasil tem muita coisa feita e levará para a COP todo o acervo de temas ambientais. Por outro lado, também quer receber a sinalização, finalmente, de que a promessa de recursos vultosos de países ricos para os países em desenvolvimento, já a partir do ano que vem, se concretize”, disse Salles, nesta semana.

O plano de Salles é tentar apresentar um novo fundo, com o Banco Interamericano de Desenvolvimento. Pesa contra o projeto o fato de o país ter desmantelado, neste ano, o Fundo Amazônia. “Se chegar à COP pedindo dinheiro, o Brasil vai bater na porta errada. Além do aumento do desmatamento, vai ter de explicar a revogação do zoneamento da cana e o plano de acabar com a moratória da soja. Além disso, nem se pede dinheiro assim na COP”, avalia  a pesquisadora aposentada do Inpe Thelma Krug, que, por anos, participou como negociadora brasileira na conferência climática. 

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