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Correio Braziliense

Pesadelos podem funcionar como preparação para lidar com o medo, diz estudo

A conclusão é de cientistas suíços após a análise de entrevistas e exames de atividades neurais feitos em mais de 300 voluntários


postado em 08/12/2019 08:00

(foto: CB/D.A Press)
(foto: CB/D.A Press)
Desde a antiguidade, povos de diferentes culturas se dedicam a entender os sonhos. Os gregos, por exemplo, eram os mais interessados nessa prática, pois acreditavam que mensagens dos deuses eram passadas durante as noites de sono. Séculos depois, os sonhos foram objeto de análise de nomes notáveis da área médica, como o psiquiatra Sigmund Freud, que os usava como instrumento para tratar pacientes. Hoje, com a ajuda de aparelhos capazes de analisar minuciosamente a atividade neural, especialistas conseguem entender melhor esse fenômeno e sinalizam formas de explorá-los.

Um grupo de pesquisadores do Laboratório de Sono e Cognição da Universidade de Genebra, na Suíça, se dedica a estudar os pesadelos. Eles observaram que, quando um indivíduo vivencia essas experiências assustadoras, áreas do cérebro relacionadas ao medo são ativadas. Essa informação, segundo a equipe, poderá ser útil para lidar com situações estressantes cotidianos.

Na primeira parte do experimento, os cientistas colocaram 256 eletrodos de eletroencefalograma (EEG) em 18 indivíduos e os acordaram, várias vezes, durante a noite. Sempre que era despertado, o participante tinha que responder a uma série de perguntas, como “Você sonhou?” e “Se sim, você se sentiu assustado?”. A equipe, então, buscou estabelecer relações entre as atividades neurais detectadas no exame e as respostas dos voluntários. “Identificamos ativação em duas regiões cerebrais implicadas na indução do medo experimentado durante o sonho: a ínsula e o córtex cingulado”, conta Lampros Perogamvros, um dos autores do estudo, publicado na revista especializada Human Brain Mapping.

Segundo o cientista, a ínsula está envolvida na avaliação das emoções quando se está acordado e é ativada automaticamente quando alguém sente medo. Já o córtex cingulado desempenha um papel na preparação de reações motoras e comportamentais no caso de uma ameaça. “Pela primeira vez, identificamos os correlatos neurais do medo quando sonhamos e observamos que regiões semelhantes são ativadas ao se sentir medo nos estados de sono e de vigília”, frisa.


Relatos diários

Na segunda etapa da pesquisa, os neurocientistas investigaram uma possível ligação entre o medo experimentado durante um sonho e as emoções vividas quando se está acordado. Eles deram um diário a 89 participantes, que precisavam preencher o documento durante uma semana. Todas as manhãs, ao acordar, cada voluntário tinha que anotar se se lembrava dos sonhos que teve durante a noite e identificar as emoções sentidas, incluindo medo.

No fim da semana, eles foram submetidos a um exame de ressonância magnética, em que era exibida uma série de imagens capazes de provocar reações distintas. “Mostramos a cada participante imagens emocionalmente negativas, como atos violentos ou situações angustiantes, bem como imagens neutras, para ver quais áreas do cérebro estavam mais ativas por medo e se a área ativada mudava dependendo das emoções experimentadas nos sonhos que haviam tido na semana anterior”, detalha Virginie Sterpenich, também autora do estudo e pesquisadora da universidade suíça.

Nessa fase, a equipe estava particularmente interessada em avaliar áreas do cérebro tradicionalmente envolvidas no gerenciamento de emoções, como ínsula, amígdala, córtex pré-frontal medial e córtex cingulado. “Descobrimos que, quanto mais alguém sente medo em seus sonhos, menos a ínsula, o cingulado e a amígdala são ativados quando a mesma pessoa olha para as imagens negativas”, diz Sterpenich. “Além disso, a atividade no córtex pré-frontal medial, que é conhecido por inibir a amígdala em caso de medo, aumenta proporcionalmente ao número de sonhos assustadores.”

Constatação biológica

Com base nesses dados, os cientistas acreditam que existe uma ligação forte entre as emoções vivenciadas no sono e as sentidas quando se está acordado. Ou seja, situações assustadoras são simuladas no sono para que as pessoas reajam melhor a elas quando despertas. “Os sonhos podem ser considerados um treinamento real para nossas reações futuras e potencialmente nos preparar para enfrentar perigos da vida real”, sugere Perogamvros.

Para Sidarta Ribeiro, vice-diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e autor do livro O oráculo da noite, a história e a ciência do sonho, o estudo suíço mostra dados consistentes e que entram em concordância com ideias defendidas por um neurocientista conhecido. “Existe uma teoria antiga do finlandês Antti Revonsuo, chamada Threat simulation theory (Teoria da simulação de ameaças, em tradução livre), que diz que todos os sonhos são pesadelos e que eles simulam um perigo futuro, com o objetivo de criar uma adaptação ao que pode acontecer durante a vida. Com esses dados, temos maior consistência biológica para essa proposta”, explica.

O psiquiatra Primo Paganini acredita que o estudo trata de um tema bastante discutido por especialistas e se destaca pelo foco dado a uma área específica do cérebro. “Esse sempre foi um dos mistérios da medicina: a função dos sonhos. Freud foi um dos que tentaram explicá-los. Para ele, os sonhos seriam a realização de um desejo. Já essa pesquisa fala que seria uma forma de lidar com inseguranças do estado de vigília”, compara. “O que me chamou mais atenção foi que os cientistas chegaram a essas conclusões por meio da análise da amígdala, que, sabemos, está completamente relacionada ao medo. Vemos que adolescentes que passam por situações traumáticas têm hipertrofia na amígdala e são mais agressivos, por exemplo”, explica.

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