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Correio Braziliense

Cientistas desvendam como o ecstasy pode ajudar a curar traumas

Quando explorados de forma controlada, mecanismos cerebrais ligados ao vício na substância despertam comportamentos capazes de auxiliar pacientes a seguirem no tratamento contra o transtorno do estresse pós-traumático, mostra pesquisa americana


postado em 12/12/2019 06:00

(foto: AFP / NOEL CELIS)
(foto: AFP / NOEL CELIS)
O tratamento de pessoas que sofrem com transtorno do estresse pós-traumático (TEPT) ainda enfrenta obstáculos. Isso acontece porque, para essas pessoas, é muito difícil acessar a memória ligada aos traumas e, dessa forma, conseguir tratá-los. Especialistas têm estudado o uso de mecanismos ligados a substâncias como o metilenodioxi-metanfetamina (MDMA), mais conhecido como ecstasy, para ajudar nesse processo. Nesse sentido, uma equipe norte-americana conseguiu identificar as vias cerebrais relacionadas à vontade de repetir o consumo da droga. Para eles, os dados podem ajudar a desenvolver uma abordagem terapêutica eficaz.

Os autores relatam no artigo da pesquisa, divulgado na revista Science Translational Medicine desta semana, que o ecstasy é usado por 3 milhões de americanos. É principalmente uma droga de festa, porque oferece uma sensação de bem-estar e deixa o usuário extremamente sociável, despertando até empatia por estranhos. Essas características podem, de alguma forma, ajudar pessoas com TEPT, segundo os cientistas. Com esse objetivo, eles resolveram analisar como a droga age no cérebro humano.

Eles explicam que o potencial de vício do MDMA decorre de sua capacidade de estimular o circuito de recompensa do cérebro, mais precisamente uma conexão crucial entre ele, neurônios e o núcleo accumbens. Quando esses neurônios liberam dopamina, o núcleo accumbens acumula sinais cerebrais que induzem uma sensação de recompensa. “Esse circuito de recompensa nos diz que algo é bom para nossa sobrevivência e propagação. Ele evoluiu para nos dizer que a comida é boa quando estamos com fome, a água é boa quando estamos com sede e o calor é bom quando estamos com frio. Para a maioria de nós, sair com os amigos é divertido porque, ao longo da nossa evolução, isso promoveu nossa sobrevivência”, detalha, em comunicado, Robert Malenka, um dos autores do estudo.

Armadilha

Também professor de psiquiatria e ciências comportamentais do Instituto de psquiatria Nancy Friend Pritzker, nos Estados Unidos, Robert Malenka explica que drogas de abuso enganam o cérebro, causando um aumento não natural da dopamina no núcleo accumbens. “Esse aumento maciço é muito mais alto e mais rápido do que o obtido com o consumo de um sorvete ou o sexo, por exemplo”, compara. Esses mecanismos estão relacionados ao potencial de um possível abuso da droga, mas deixa em aberto a questão do efeito social provocado pelo MDMA.

Avançando na investigação, a equipe descobriu que outra substância química cerebral, a serotonina, é a responsável por isso. Eles chegaram a essa conclusão após realizar várias análises manipulativas com ratos de ambos os sexos. Observou-se que, durante o consumo da droga, os neurônios liberadores de serotonina enviam projeções para a mesma parte do núcleo accumbens onde estão neurônios liberadores de dopamina. “Descobrimos como o MDMA promove a interação social e mostramos que é diferente de como gera potencial de abuso entre seus usuários”, frisa Robert Malenka.

Em um dos experimentos, os cientistas bloquearam um subtipo específico de receptor de serotonina que domina o núcleo accumbens, o que inibiu totalmente o efeito pró-social do ecstasy em ratos. Além disso, deram às cobaias um medicamento liberador de serotonina, que não causa liberação de dopamina, e conseguiram imitar os efeitos pró-sociais do MDMA sem causar efeitos viciantes e recompensadores.

Mamíferos

Os cientistas acreditam que os mesmos efeitos seriam, provavelmente, observados em humanos, porque as áreas cerebrais analisadas no estudo foram notavelmente conservadas entre as espécies de mamíferos ao longo da evolução, ou seja, elas mantêm grande semelhança. “Você não pode perguntar aos ratos como eles estão se sentindo em relação a outros ratos. Mas você pode inferir isso do comportamento deles”, diz Robert Malenka.

Os pesquisadores acreditam que mais análises precisam ser feitas, mas defendem que entender os mecanismos por trás da ação da droga no cérebro humano é a melhor estratégia para o desenvolvimento de novas terapias. “Se você não sabe onde algo está acontecendo (no cérebro), você pode atrasar muito os resultados de um tratamento”, justifica Malenka. A equipe  também ressaltou que, devido a seus efeitos cardiovasculares e neurotóxicos a longo prazo, o MDMA dificilmente será adequado para uso diário, mas que a utilização em poucas sessões pode impedir que ocorram efeitos desagradáveis.

 

Com acompanhamento especializado 

Apesar de inicial, por ter sido conduzida em ratos, a pesquisa norte-americana traz dados relevantes para a área científica, na avaliação de Eduardo Schenberg, neurocientista e especialista em substâncias psicodélicas e diretor do Instituto Plantando Consciência, em Goiânia. “Já sabemos da ativação desses neurotransmissores pelo MDMA, a dopamina, a serotonina e temos até um terceiro, a neuroadrenalina, mas o estudo detalha o papel de cada um dos dois primeiros. Eles mostram que o efeito social é causado pela serotonina, e a dopamina está relacionada ao consumo, mas não podemos dizer que esse efeito é a mesma coisa de vício”, pondera. “Uma pessoa pode beber uma cerveja e, depois, querer beber outra mais tarde, por exemplo. O vício causa crise de abstinência.”

Segundo o especialista, pesquisadores já estudam os efeitos do MDMA no tratamento de pessoas com TEPT, mas com acompanhamento médico especializado. “Eu e meu grupo vamos publicar os resultados de uma pesquisa que fizemos com essa substância, com pacientes em Goiânia, e que obtivemos resultados positivos. Mas destacamos que todos os cuidados necessários são tomados. O paciente é acompanhado durante o uso da substância, no consultório, por dois terapeutas que ficam com ele o tempo todo. Não temos abuso do uso. Das 15 sessões, somente três usam o MDMA”, detalha.

Nesse caso, explica Eduardo Schenberg, a substância é usada apenas como uma ferramenta para o paciente acessar as memórias traumáticas e poder tratá-las com um especialista.  O médico acredita que mais pesquisas sobre o tema surgirão, principalmente conduzidas por cientistas estadunidenses. “Possivelmente, pelo número de pessoas que sofrem com a guerra. Essa é uma motivação deles”, justifica.

Segundo  ele, a expectativa é de que a substância seja autorizada para esse tipo de uso terapêutico em 2022 nos Estados Unidos. “Nosso grupo também dará continuidade às análises. Pretendemos observar mais pacientes, que vivem em outras cidades”, adianta  Eduardo Schenberg. A equipe tem autorização do governo para conduzir os estudos.

Palavra de especialista 

Associado com a psicoterapia

“Quando os pacientes com transtorno do estresse pós-traumático (TEPT) lembram os traumas sofridos, isso ativa áreas do cérebro relacionadas ao medo, causando efeitos como taquicardia, alterações cognitivas, pesadelos e flashbacks, por exemplo. Os especialistas propõem o uso do metilenodioxi-metanfetamina (MDMA) para aumentar o fluxo sanguíneo no córtex pré-frontal, que é a área que freia as regiões neurais relacionadas ao medo. Temos pesquisas que têm mostrado isso. Os estudos com uso de MDMA para tratamento de TEPT ainda estão sendo realizados em ambiente acadêmico, são incipientes, mas têm mostrado respostas promissoras. É necessário sempre lembrar que o uso dessa substância para terapia é sempre associado à psicoterapia assistida. Apesar de ainda no início, parece uma chance de fornecer um tratamento duradouro e eficaz, sempre com a psicoterapia. Existem outras medicações para o TEPT, mas nenhuma que aja sozinha e com efeitos robustos. Então, quanto mais oportunidade de tratamentos nós tivermos, melhor”, Lucas Toledo, psiquiatria da infância e da adolescência.

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