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Correio Braziliense

Estudo aponta as semelhanças genéticas de distúrbios psiquiátricos

Cientistas americanos identificam 109 alterações no DNA ligadas à ocorrência de ao menos duas complicações incidentes, como depressão, anorexia e esquizofrenia. A descoberta poderá ajudar no desenvolvimento de terapias mais eficazes


postado em 13/12/2019 06:00

(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
Desvendar a origem de doenças psiquiátricas instiga cientistas e médicos. Vários especialistas se dedicam a decifrar esses mistérios porque as respostas podem ajudar no desenvolvimento de tratamentos mais eficazes. Um trabalho desenvolvido por um consórcio de cientistas internacionais avança nesse sentido. A equipe realizou um levantamento genético inédito de estruturas relacionadas a enfermidades incidentes. O trabalho, publicado na última edição da revista especializada Cell, revela mais de 100 variantes genéticas que afetam o risco de ocorrência de mais de uma complicação de saúde mental.

Um gene é constituído por segmentos de DNA, e uma alteração na sequência de DNA produz uma variante genética que pode aumentar ou diminuir o risco de uma doença ocorrer. Os cientistas foram em buscas de variações que estivessem relacionadas a uma série de distúrbios psiquiátricos. “Identificar variantes genéticas que influenciam o risco de mais de um distúrbio psiquiátrico é um passo importante para melhorar o diagnóstico e o tratamento dessas condições”, frisa, em comunicado, Jordan W. Smoller, professor de psiquiatria na Faculdade de Medicina de Harvard, nos Estados Unidos, e um dos autores do estudo.

Na pesquisa, foi usada a técnica chamada associação geral do genoma para analisar dados genéticos de 494.162 indivíduos saudáveis e 232.964 pessoas diagnosticadas com pelo menos um de oito distúrbios psiquiátricos comuns. A análise identificou 109 variantes genéticas que afetam o risco de ocorrência de mais de uma complicação psiquiátrica.

Três grupos

Como os distúrbios compartilhavam muitas variantes, os investigadores os dividiram em três grupos de doenças geneticamente relacionadas: distúrbios caracterizados por comportamentos compulsivos (anorexia nervosa, transtorno obsessivo-compulsivo e síndrome de Tourette em menor grau), transtornos do humor e psicóticos (transtorno bipolar, depressão maior e esquizofrenia) e distúrbios do desenvolvimento neurológico de início precoce (distúrbio do espectro do autismo, TDAH e síndrome de Tourette).

Segundo os cientistas, essas descobertas podem contribuir para uma melhor compreensão das doenças analisadas e suas semelhanças “mecânicas”. “Entender como variações genéticas específicas podem contribuir para um amplo espectro de doenças pode nos dizer algo sobre em que grau esses distúrbios podem ter uma biologia compartilhada”, ressalta Smoller.

Os pesquisadores também identificaram variantes genéticas individuais que afetam o risco de distúrbios psiquiátricos específicos. No entanto, eles explicam que os genes geralmente são pleiotrópicos, o que significa que produzem múltiplos efeitos no organismo. Essa característica é algo que contribui negativamente na busca de tratamentos para essas doenças, pois uma alteração nas variantes pode desencadear uma atividade em cadeia, causando uma série de danos ao organismo.

Graziela Paronetto, membro da Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica (SBGM), acredita que o trabalho americano usa um tipo de análise já conhecido, mas se destaca pela quantidade de variações genéticas encontradas e pela possibilidade de agrupá-las. “Não é novidade a relação das variações genéticas que apontam a predisposição a sofrer com enfermidades. Temos algumas já identificadas para a esquizofrenia, por exemplo. Mas o que difere são a relação desses grupos distintos que os cientistas conseguiram fazer, as similaridades observadas e também a quantidade contabilizada”, diz a também geneticista da clínica de Reprodução Humana FertilCare, em Brasília.

A especialista também ressalta que as variantes identificadas apontam apenas o risco aumentado de se ter uma enfermidade, mas não são a certeza de ocorrência. “Temos enfermidades que são provocadas por mutações específicas, mas as variações nos ajudam apenas a calcular ao risco de uma pessoa sofrer com determinado problema de saúde. Por mais que ela tenha (a mutação), pode ser que a doença não se manifeste. Usamos as variações para dizer, por exemplo, a chance de alguém vir a sofrer com a depressão por meio de uma porcentagem”, detalha.

Uso clínico

Para os cientistas, o maior ganho da pesquisa é oferecer um banco de dados que pode servir de base para o desenvolvimento de terapias. “Na medida em que esses genes possam ter efeitos amplos, eles podem se tornar alvos em potencial para o desenvolvimento de tratamentos que consigam amenizar várias condições”, frisa Smoller.

Paronetto também acredita em um desdobramento nesse sentido. “Quando você tem um gene com uma determinada alteração, existe a esperança de poder modificar isso e, dessa forma, evitar o problema de saúde. Mas assim como os cientistas falam no estudo, os genes pleiotrópicos são uma barreira. Ao serem alterados, eles podem resultar em uma reação em cascata e causar uma série de problemas”, frisa a geneticista.

A médica acredita que o trabalho dos cientistas americano deverá se concentrar em “dissecar” as variações detectadas  em cada um dos três grupos de doenças. “É importante entender essa ‘maquinaria’. Se temos as mesmas variações relacionadas a mais de uma condição, o que elas têm em comum? Como isso pode ajudar na área terapêutica? É importante saber como essas variações trabalham para tentar desenvolver estratégias de tratamento”, opina.

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