Publicidade

Correio Braziliense

Saiba quem são os 10 cientistas do ano segundo a revista 'Nature'

Quatro mulheres e seis homens são eleitos pela revista especializada 'Nature' como protagonistas de alguns dos eventos científicos mais significativos do ano. O brasileiro Ricardo Galvão, diretor exonerado do Inpe, abre a prestigiada lista


postado em 18/12/2019 06:00 / atualizado em 18/12/2019 01:15

(foto: Luis Macedo/Camara dos Deputados)
(foto: Luis Macedo/Camara dos Deputados)
Já é tradição: em uma das últimas edições do ano, a revista britânica Nature, que completou em 2019 um século e meio, publica a lista de 10 pessoas que se destacaram nos meses anteriores por contribuir significativamente com a ciência. “Não é um prêmio ou uma relação dos mais importantes. Em vez disso, as histórias desses 10 iluminaram alguns dos eventos científicos mais significativos em 2019 em uma variedade de questões, que vão desde nossas origens profundas ao futuro do mundo. Nossa lista explora alguns dos momentos mais importantes do ano na ciência, destacando pessoas que tiveram papéis-chave”, explica Rich Monastersky, editor-chefe de notícias da Nature.
 
Neste ano, a edição abre com o brasileiro Ricardo Galvão, que foi exonerado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) por divulgar dados sobre o aumento do desmatamento na Amazônia. “A reputação brasileira como líder ambiental tem se deteriorado em anos recentes. O país conseguiu reduzir o desmatamento mais de 80% entre 2004 e 2012, mas a legislação ambiental agressiva acabou provocando uma reação política e a volta do desflorestamento”, diz a revista no texto sobre o físico, intitulado “O defensor da ciência”.

Os escolhidos

Ciência acima de tudo

(foto: Luis Macedo/Camara dos Deputados)
(foto: Luis Macedo/Camara dos Deputados)

 

Quem é: Ricardo Galvão, professor da USP e ex-diretor do Inpe
Ricardo Galvão contou à Nature que, quando descobriu ser alvo dos ataques do presidente Jair Bolsonaro, desmaiou. “Minha mulher teve de me trazer um copo d’água”, disse o físico de 72 anos. À época no comando do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), uma das mais prestigiadas instituições científicas do mundo, Galvão coordenou o grupo de pesquisadores que anunciou um aumento expressivo no desmatamento na Amazônia. Bolsonaro não gostou da constatação, baseada em imagens de satélite, e acusou o cientista de “estar a serviço de ONGs estrangeiras”.

Se Bolsonaro esperava que o presidente do Inpe se retratasse, o que ocorreu foi o contrário. Galvão reafirmou os dados quantas vezes foi procurado. A postura do cientista lhe valeu o cargo. Exonerado, retornou à Universidade de São Paulo (USP), de onde é professor desde a década de 1980. No mês passado, o mesmo Inpe divulgou que, entre agosto de 2018 e julho deste ano, uma área de 9.762 quilômetros — maior que Porto Rico, para comparação — foi devastada. Trata-se de um aumento de 30% em relação ao período anterior e duas vezes maior, se comparado com 2012. “Cientistas e conservacionistas afirmam que a retórica antiambiental de Bolsonaro mandou um sinal aos fazendeiros e aos grileiros que, mais uma vez, podem limpar a Floresta na Amazônia sem punição”, observou a Nature.

Porta-voz do planeta

(foto: Cristina Quicler/AFP)
(foto: Cristina Quicler/AFP)
 

 

Quem é: Greta Thunberg, ativista ambiental
O mundo conheceu Greta Thunberg, 16 anos, em setembro, durante uma audiência sobre mudanças climáticas no congresso norte-americano. Segurando um relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), ela foi direta: “Não quero que vocês me ouçam, quero que ouçam os cientistas”. O discurso da jovem sueca viralizou, e ela conseguiu chamar mais atenção sobre as consequências globais do aumento da temperatura que a própria comunidade científica, há anos empenhada em convencer os líderes mundiais sobre as catástrofes associadas às mudanças no clima.
 
Desde então, Thunberg marcou presença em outros encontros sobre o tema, o mais recente, em Madri, onde ocorreu a COP25. A jovem foi alvo da fúria de negacionistas das mudanças climáticas, como o presidente norte-americano, Donald Trump, e seu colega brasileiro, Jair Bolsonaro. Ambos tuitaram sobre ela — Bolsonaro a chamou de pirralha. Greta nem ligou. Com maturidade, fez pouco das críticas e continua inspirando milhares de jovens, cientistas e formuladores de políticas públicas.

Linha tênue entre vida e morte

(foto: Jerry Domian/University of Yale)
(foto: Jerry Domian/University of Yale)
 

 

Quem é: Nenad Sestan, neurocientista da Universidade de Yale
Em abril, o neurocientista norte-americano Nenad Sestan, 48 anos, desafiou o que se pensa sobre a fronteira entre vida e morte ressuscitando o cérebro de porcos que haviam morrido horas antes, em uma fábrica de processamento de carne. O laboratório de Sestan, em Yale, desenvolve um sistema de suporte de alta tecnologia que evita a rápida decomposição do órgão horas após a morte, o que permitiu reavivar a atividade de alguns tipos de células cerebrais.
 
O BrainEx consiste em bombear uma solução chamada perfusato Bex — mistura de agentes de proteção, estabilização e contraste, que atuam como substitutos do sangue — nas artérias principais do cérebro, mantido à temperatura natural do corpo (37ºC). Os órgãos processados com Bex mostraram redução na morte celular e preservação das arquiteturas anatômica e celular, restauraram a estrutura dos vasos sanguíneos e circulares, e recuperaram respostas inflamatórias da glia (células que nutrem os neurônios). Segundo Sestan, o resultado sugere que levar agentes protetivos ao cérebro por meio da densa rede de vasos sanguíneos poderá melhorar as taxas de sobrevivência e reduzir os deficits neurológicos após traumatismos, como derrames e infartos. 

Investigadora de explosões cósmicas 

(foto: Rachelle Paree S. /Divulgaçãoi)
(foto: Rachelle Paree S. /Divulgaçãoi)
 

 

Quem é: Victoria Kaspi, astrofísica da Universidade McGill
Victoria Kaspi já foi reconhecida por importantes premiações, como a medalha Gerhard Herzberg, mais importante honraria científica do Canadá. Ela é, hoje, considerada a maior especialista em estrelas de nêutrons, remanescentes muito antigas das maiores estrelas massivas que já habitaram a Via Láctea. Em janeiro, um estudo publicado por ela anunciou que o radiotelescópio Chime, do qual Kaspi, 57 anos, é a principal pesquisadora, capturou, nas Columbia Britânica, 13 novas fontes de um fenômeno misterioso extragalático conhecido como explosões rápidas de rádio (FRBs, sigla em inglês).
 
Tratam-se de picos poderosos de emissões de rádio que emanam de galáxias além da Via Láctea e duram apenas milissegundos. A origem dessas explosões ainda é desconhecida, e um dos objetivos da astrofísica é desvendar esse mistério. Para ela, as detecções iniciais do Chime sugerem que o radiotelescópio de US$ 13 milhões será uma ferramenta poderosa para rastrear mais FRBs. Em agosto, seu laboratório voltou a anunciar a detecção do fenômeno. Dessa vez, foram oito explosões. Kaspi espera registrar muito mais eventos do tipo com Chime para, enfim, descobrir como se formam esses jatos.

O virologista que derrotou o ebola

(foto: Matthieu Alexandre/AFP)
(foto: Matthieu Alexandre/AFP)
 

 

Em 1976, então aos 34 anos, o virologista Jean-Jacques Muyembe-Tamfum, da República Democrática do Congo, foi o primeiro médico a ver um paciente de ebola. Desde então, ajudou a lutar contra todas as sete epidemias que assolaram o país africano. Agora, aos 77 anos, o chefe do Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica de Kinshasa continua ativo na tentativa de derrotar um micro-organismo que, desde o ano passado, atingiu 2,7 mil pessoas, com ao menos 1,8 mil óbitos.
 
Em agosto, a luta de Muyembe foi recompensada. Duas drogas testadas durante o surto deste ano reduziram significativamente a taxa de mortalidade. “De agora em diante, não podemos mais dizer que o ebola é incurável”, comemorou o virologista, que liderou os estudos em seu país. O brilhantismo do cientista já foi reconhecido em todo o mundo, seja por meio de importantes premiações, seja por  títulos de honoris causa. Porém, para ele, o principal prêmio foi o resultado do estudo. “Passei quatro décadas da minha vida pensando como tratar pacientes com ebola. Então, essa foi a realização da minha vida”, contou à BBC.

HIV na mira da edição de DNA

(foto: Universidade de Pequim/Divulgação)
(foto: Universidade de Pequim/Divulgação)
 

 

Quem é: Deng Hongkui, imunologista da Universidade de Pequim
Em 2006, a revista Nature publicou nomes de cientistas promissores, nos quais se deveria “ficar de olho”. Entre eles, estava Deng Hongkui, imunologista chinês, diretor do Instituto de Pesquisas com Células-Tronco da Universidade de Pequim. Passados 13 anos, ele entrou para a lista dos que mais contribuíram para a ciência em 2019. É o reconhecimento por uma pesquisa liderada por ele que, pela primeira vez, utilizou o método de edição genética Crispr na tentativa de curar um paciente de HIV.

Deng implantou, no paciente, as células editadas em laboratório. Elas foram alteradas para se tornarem resistentes à infecção do vírus. Embora o objetivo não tenha sido atingido, o método foi considerado um avanço pela comunidade científica, que viu, no estudo do chinês, uma possibilidade de se conseguir eliminar o HIV com a ferramenta de edição do DNA. O princípio fundamental do estudo estava correto, disse o cientista, que, agora, trabalha no aperfeiçoamento da técnica não só para combater o vírus da Aids, mas na expectativa de, também, encontrar uma cura para a leucemia.

(Re)escritor da história

(foto: Cleveland Museum /Divulgação)
(foto: Cleveland Museum /Divulgação)

 

Quem é: Yohannes Haile-Selassie, antropólogo do Museu de História Natural de Cleveland
O curador do Museu de História Natural de Cleveland tem pesquisado a região de Woranso-Mille, na Etiópia, em busca de pistas sobre as origens humanas nos últimos 15 anos. Naquele local, que ele denomina “o berço da humanidade”, o antropólogo coletou mais de 12,6 mil espécimes fósseis, representando cerca de 85 espécies de mamíferos. Mas a descoberta mais recente de Selasssie estava além de qualquer coisa que o pesquisador esperava encontrar no local.
 
No que o antropólogo definiu como “momento eureka”, ele encontrou um crânio completo de um hominídeo que viveu há 3,8 milhões de anos, pertencente à espécie Australopithecus anamensis. O MRD, nome recebido pelo espécime, foi apresentado em agosto passado. As características anatômicas e a idade do fóssil reviraram as teorias anteriores sobre a natureza da evolução dos hominídeos. Os pesquisadores acreditavam que a transição de A. anamensis para A. afarensis (a espécie de Lucy) era um processo linear, chamado anagênese. Essa teoria postula que A. anamensis morreu e deu origem ao recém-evoluído A. afarensis. No entanto, graças à pesquisa de Selassie, sabe-se, agora, que as duas espécies se sobrepuseram por pelo menos 100 mil anos.

Um alerta para o mundo

(foto: S./Mod./Casa Rosada/Divulgação)
(foto: S./Mod./Casa Rosada/Divulgação)

 

Quem é: Sandra Díaz, ecóloga da Universidade Nacional de Córdoba
Um dos três copresidentes da Plataforma Intergovernamental Ciência-Política sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), a ecóloga Sandra Díaz deu o recado ao mundo em maio passado: 1 milhão de espécies estão em vias de extinção devido à atividade humana, e somente medidas drásticas e rápidas podem evitar a tragédia. Em entrevista à Nature, a pesquisadora argentina, da Universidade Nacional de Córdoba, afirmou: “A taxa de extinção de espécies é pelo menos dezenas a centenas de vezes mais rápida do que a média nos últimos 10 milhões de anos. Nossa rede de segurança está esticada quase até o ponto de ruptura”.

Para chegar a essa conclusão, Díaz, ao lado de Eduardo Brondíziom, da Universidade de Indiana Bloomington, e Josef Settele, do Centro Helmholtz de Pesquisa Ambiental em Halle, coordenou o trabalho de especialistas de 51 países, pesquisando mais de 15 mil fontes de informação. O relatório, com 1,5 mil páginas, diz que os países não conseguirão atingir a maioria das metas globais em biodiversidade e desenvolvimento sustentável, a menos que façam mudanças maciças, como abandonar a ideia de que as economias devem crescer constantemente.

Luta humanitária

(foto: Macquarie University/Divulgação)
(foto: Macquarie University/Divulgação)

 

Quem é: Wendy Rogers, bioética da Macquarie University
Wendy Rogers, bioética da Macquarie University em Sydney, na Austrália, abriu caminho para mais de duas dúzias de retratações de pesquisadores chineses que publicaram artigos envolvendo transplantes. No país, há uma polêmica antiga sobre a origem dos órgãos utilizados nessas cirurgias. O governo admitiu que retirava fígados, rins e mesmo corações de prisioneiros. Mas garantiu que a prática não existe mais desde 2015. Wendy Rogers, porém, duvidou.

Ela resolveu investigar a origem dos órgãos se debruçando sobre publicações científicas chinesas. A bioética passou noites em claro lendo os artigos e identificou que, em 400 deles, foram usados órgãos de presidiários sem provas de que foram voluntários. Os trabalhos, publicados entre 2001 e 2017, relataram mais de 85 mil transplantes. A equipe destacou 17 revistas que publicaram cinco ou mais artigos, e quase todas retiraram esses estudos, publicando retratações. Desde 2016, a bioética é presidente não remunerada do Comitê Consultivo Internacional da Coalizão Internacional para Acabar com o Abuso de Transplantes na China (ETAC), um grupo de defesa sem fins lucrativos em Sydney.

Ultravelocidade

Quem é: John Martinis, físico, pesquisador da Universidade da Califórnia e do Google
Em outubro, John Martinis realizou um sonho da juventude, quando assistiu a uma palestra sobre computadores quânticos e decidiu que adoraria trabalhar em uma máquina dessas. O físico, que trabalha no Google e na Universidade da Califórnia, liderou o trabalho de um grupo de pesquisadores do Google que anunciou a demonstração do primeiro computador quântico capaz de realizar um cálculo mais rápido que o melhor computador convencional.

Martinis passou 17 anos aprimorando o hardware do computador quântico da empresa, chamado Sycamore. Uma equipe de mais de 70 cientistas e engenheiros mostrou que, para um desafio específico — calcular a propagação de saídas de um tipo de gerador quântico de números aleatórios —, a Sycamore poderia fazê-lo em 200 segundos. O melhor supercomputador que existe levaria 10 mil anos para executar a mesma tarefa. Para o futuro, ele pretende criar chips quânticos melhores e abrir o Sycamore para uso de pesquisadores externos em um sistema em nuvem. 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade