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Correio Braziliense

Melhoramento genético torna quinoa mais resistente ao aquecimento global

Nativa dos Andes, planta de onde se extrai o nutritivo grão não tolera temperaturas altas. Em um planeta cada vez mais quente, cientistas desenvolvem método eficiente de seleção e melhoramento genético de espécies mais resistentes


postado em 27/12/2019 06:00

Plantação na Bolívia, onde, graças ao clima mais frio, a quinoa cresce com facilidade. Aumento do consumo e aquecimento global exigem variedades adaptadas ao calor(foto: David Mercado/Reuters )
Plantação na Bolívia, onde, graças ao clima mais frio, a quinoa cresce com facilidade. Aumento do consumo e aquecimento global exigem variedades adaptadas ao calor (foto: David Mercado/Reuters )
Queridinha das dietas saudáveis, a quinoa tem atraído o interesse de agricultores devido ao aumento do consumo — no Brasil, uma pesquisa do Euromonitor International estimou um crescimento no mercado de alimentos saudáveis, incluindo esse grão, de 3% ao ano até 2022. O problema é que, nativa da Cordilheira dos Andes, a planta não tolera altas temperaturas. Muitos dos métodos disponíveis atualmente para torná-la resistente são caros e demorados e, para ajudar a resolver esse problema, pesquisadores da Universidade Estadual de Washington estão desenvolvendo tecnologias mais acessíveis e eficientes.


“Temperaturas acima de 35ºC geralmente resultam em um menor rendimento de sementes”, explica Kevin Murphy, professor da instituição que lidera as pesquisas. “Portanto, o objetivo desse estudo foi testar métodos novos e eficientes no campo. Isso pode nos ajudar a encontrar tipos de plantas tolerantes ao calor em nosso programa de melhoramento e incorporar essa genética em novas variedades.” Murphy conta que começou a pesquisar a quinoa devido ao valor nutritivo do grão, que contém nove aminoácidos essenciais. “É uma proteína completa. Comecei a consumi-la em 1993, quando morei no Equador por seis meses. Escolhi estudá-la porque adoro comê-la e achava que poderia contribuir com seu cultivo.”

No estudo, os pesquisadores instalaram dispositivos portáteis perto das plantas para medir a luz que elas absorvem e refletem. “Por exemplo, as plantas podem refletir luz infravermelha enquanto absorvem a luz vermelha. Avaliando essas características da quinoa, podemos ter uma ideia de quão bem ela está crescendo sob certas condições, como sob alta temperatura. Isso fornece informações a respeito da tolerância ao calor ou da quantidade de grãos que ela é capaz de produzir.”

Energia

Embora envolvam cálculos complexos, essas medições são fáceis, baratas e rápidas de serem realizadas em campo. Chamadas de índices de reflectância espectral, trata-se de aferições do comprimento de onda da energia coletada. “O principal benefício desse método está no fato de ser mais barato, mais rápido e mais eficiente selecionar plantas tolerantes ao calor com essas tecnologias”, diz Murphy. “Isso é especialmente útil quando analisamos milhares de linhagens genéticas distintas durante as diferentes etapas da pesquisa”, destaca.

No estudo mais recente, a equipe de Murphy pesquisou 112 tipos de quinoa geneticamente diferentes. Introduzindo as plantas ao estresse térmico e medindo a intensidade da cor verde das folhas, além do rendimento das sementes, foram identificadas oito variedades. Dessas, quatro foram consideradas como potencialmente tolerantes ao calor, e o restante como suscetíveis à alta temperatura. Em seguida, essas variedades foram plantadas no campo. Novas medições tentaram prever a quantidade de grãos que produziriam em diferentes condições, como calor.

Os pesquisadores descobriram que um tipo de medida, a intensidade da cor verde da folha, pode ser útil para avaliar a tolerância da quinoa ao calor. Eles também constataram que uma medida chamada índice de vegetação de diferença normalizada (NDVI, sigla em inglês), é adequada para prever o rendimento da planta. O NDVI é calculado a partir de imagens de satélite. “O índice pode ser útil no processo de seleção de mudas”, explica o pesquisador. Murphy destaca que buscar meios de plantas tolerarem o calor é algo cada vez mais importante, considerando que o planeta está em processo de aquecimento.

Melhoramento 

No Peru, pesquisadores do Instituto Nacional de Inovação Agropecuária (Inia) também buscam variedades de quinoa resistentes — não ao calor, um problema que não se enfrenta na região, de onde a planta é originária, mas ao míldio, um fungo microscópico que afeta fortemente essa cultura. Uma equipe de cientistas liderada por Rigoberto Estrada Zuñiga, especialista em grãos andinos, coletou 192 amostras de plantas doentes em 20 províncias de cinco regiões produtoras do grão e analisaram o material em testes realizados em estufas e nos laboratórios do Inia. As 100 variedades selecionadas por meio do projeto serão usadas em programas de melhoramento, com objetivo de tornar a quinoa resistente a esse fungo letal nos campos de produção do sul do Peru, e contribuir para neutralizar a incidência dessa doença, reduzindo as perdas de produção. 

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