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Correio Braziliense

Imagens do Ártico em realidade virtual reduzem percepção da dor, diz estudo

Segundo os pesquisadores, há evidências crescentes sobre potencial da realidade virtual para ajudar pacientes com dor crônica


postado em 28/12/2019 08:00

Os pesquisadores acreditam que a RV tem, de fato, potencial de tratar pacientes com dor crônica(foto: Wikicommons/Paul Gierszewski/Divulgação)
Os pesquisadores acreditam que a RV tem, de fato, potencial de tratar pacientes com dor crônica (foto: Wikicommons/Paul Gierszewski/Divulgação)
A realidade virtual (RV) está cada vez mais presente no dia a dia, seja no entretenimento ou em áreas como arquitetura, engenharia, educação e moda, entre outros. A medicina também tem se valido desse recurso e, agora, um estudo do Imperial College London, na Inglaterra, mostrou, mais uma vez, o potencial da tecnologia para aliviar dores intensas. De acordo com eles, o resultado sugere que a RV poderá ser uma ferramenta a mais no tratamento da dor crônica.

Em um pequeno estudo de prova de conceito — quando se tenta provar, na prática, uma teoria —, publicado na revista Pain Reports, a equipe do Imperial usou um vídeo de realidade virtual para reduzir a pontuação que as pessoas atribuíam à dor contínua que sentiam, bem como sua sensibilidade a estímulos dolorosos. Os participantes usaram fones de ouvido e óculos que os imergiram em cenas de icebergs, oceanos congelados e paisagens do Ártico. Segundo os pesquisadores, há evidências crescentes sobre potencial da RV para ajudar pacientes com dor crônica.

“Uma das principais características da dor crônica é que você tem maior sensibilidade a estímulos dolorosos. Isso significa que os nervos dos pacientes estão constantemente disparando e dizendo a seus cérebros que estão em um estado elevado de dor”, explica Sam Hughes, primeiro autor do artigo. “O nosso trabalho sugere que a RV pode interferir com os processos no cérebro, no tronco cerebral e na medula espinhal, que são conhecidos por serem partes-chave de nossos sistemas de combate à dor e são fundamentais para regular a propagação de aumento da sensibilidade a ela.”

Simulação

A realidade virtual tem sido testada como um método para distrair os pacientes da dor, com algum sucesso em procedimentos odontológicos menores, que requerem anestesia local. Mas o estudo de agora procurou descobrir se ela poderia funcionar em um modelo simulado de dor crônica. No experimento, 15 voluntários saudáveis receberam um creme tópico na pele da perna, contendo capsaicina — o composto ardente nas pimentas chilis que faz a boca queimar. A substância sensibilizou a pele, tornando a área mais sensível a estímulos dolorosos (um choque elétrico muito leve) e simulando a sensibilidade aumentada de pessoas com dor crônica, como dores nas costas, artrite ou nevralgias.

Foi pedido aos participantes que classificassem a dor causada pelo creme de capsaicina em uma escala de 0 a 100 (de “nenhuma sensação” a “pior dor imaginável”) enquanto assistiam a uma cena de RV da exploração do Ártico com a ajuda do equipamento. Outros voluntários apenas ficavam olhando para um imagem estática do Ártico em um monitor. Todos também foram convidados a dizer quando um estímulo aplicado diretamente à área sensibilizada da pele era percebido como doloroso.

A equipe constatou que a percepção da dor foi reduzida com a imersão na RV, e que a sensibilidade aos estímulos dolorosos na pele também diminuiu. No entanto, o mesmo efeito não foi observado nas pessoas que olhavam para imagens estáticas do ambiente polar, indicando que a imersão é o fator chave. Os pesquisadores explicam que, embora os resultados iniciais sejam encorajadores, o estudo é limitado pelo pequeno número de participantes saudáveis, sem dor crônica. Futuros ensaios clínicos randomizados com pacientes que sofrem da condição poderão ajudar a confirmar seu potencial benéfico analgésico.

Alternativa

No entanto, os pesquisadores acreditam que a RV tem, de fato, potencial de tratar pacientes com dor crônica que, muitas vezes, sofrem por nenhuma alternativa disponível funcionar para eles. Os cientistas da Imperial sugerem que o uso da tecnologia será uma terapia alternativa para algumas condições de dor crônica, melhorando a atividade nas regiões do cérebro envolvidas nesses sistemas de alívio dos estímulos dolorosos.

“O objetivo desse estudo foi mostrar que a RV tem a capacidade de alterar o processamento patológico associado à dor crônica”, explica Paul Strutton, do Departamento de Cirurgia e Câncer da instituição, e um dos autores do estudo. “O uso dessa abordagem parece reduzir a intensidade geral da dor que já está se sentindo, bem como a resposta a um estímulo de dor. Acreditamos que possa haver alterações nos sistemas de alívio do corpo, que podem afetar o processamento da sensibilidade da medula espinhal”, diz. “Ainda há muitas coisas para descobrir, mas um aspecto interessante do nosso estudo é que o design de RV que usamos é completamente passivo — o que significa que os pacientes não precisam usar os braços. Isso pode significar que os pacientes que estão acamados ou não conseguem mover seus membros, mas os que sofrem com a condição, se beneficiarão dessa abordagem.”

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