Um estudo norte-americano revelou que bactérias que vivem nas vias aéreas superiores podem estar relacionadas à gravidade dos sintomas da asma. A descoberta foi feita graças a um experimento científico com mais de 200 crianças e divulgada na revista britânica Nature Communications. Segundo os cientistas, os dados poderão ser usados para o desenvolvimento de tratamentos mais eficazes para esse problema respiratório.
“Há uma necessidade urgente de desenvolver melhores terapias da asma para as crianças”, destaca, em comunicado, Avraham Beigelman, professor e pesquisador da Universidade de Washington. Beigelman e sua equipe destacam que, nos Estados Unidos, mais de 6 milhões de crianças têm asma, o equivalente a um em cada 12 jovens. No país, é a principal doença pediátrica crônica e o motivo mais frequente para crianças não irem à escola, de acordo com a Asthma and Allergy Foundation of America.
Para entender melhor essa doença e, com isso, desenvolver melhores terapias, os cientistas analisaram o microbioma das vias aéreas superiores de 214 crianças, de 5 a 11 anos, com asma leve a moderada. Os autores do estudo coletaram amostras de muco nasal de todos os jovens e analisaram a composição do material. Descobriram que aqueles que apresentavam sintomas da doença tinham mais bactérias dos grupos Staphylococcus, Streptococcus e Moraxella nas vias aéreas superiores.
Por outro lado, as crianças com boa saúde apresentavam vias aéreas com predomínio de bactérias Corynebacterium e Dolosigranulum. “Nossos dados demonstraram uma mudança relevante da microbioma das vias aéreas nas crianças que viveram estágios diferentes da doença”, detalha Yanjiao Zhou, também pesquisador da Universidade de Washington e autor do estudo científico.
A equipe também descobriu que os participantes cujas comunidades microbianas das vias aéreas deixaram de ser dominadas pelas bactérias Corynebacterium e Dolosigranulum para apresentar maior quantidade de micro-organismos do grupo Moraxella apresentavam maior risco de agravamento dos sintomas da asma, quando comparados àqueles cuja comunidade microbiana havia sofrido outro tipo de alteração.
Mais estudos
Ângelo Rizzo, membro do Departamento Científico de Asma da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), destaca que a pesquisa mostra dados que podem ajudar a entender melhor a relação da microbiota com a asma. “Esses micro-organismos que vivem no nosso corpo são extremamente importantes para a saúde. Estão na pele, na garganta, no intestino e nos ajudam a absorver nutrientes e a impedir que outras bactérias ocupem seu espaço, o que evita doenças. Sabemos de sua grande importância em alguns pontos. Por isso, é bastante possível que eles possam realmente estar relacionadas à asma”, diz.Com base nessas descobertas, os pesquisadores pretendem realizar mais estudos em camundongos. Eles querem analisar o microbioma de vias aéreas cuidadosamente e comprovar se as comunidades de bactérias podem influenciar a asma e seu nível de gravidade.
Rizzo acredita que o estudo pode ajudar a entender melhor a doença e, dessa forma, contribuir para tratamentos, mas ressalta que mais análises são necessárias. “A asma é uma doença multifatorial, temos que deixar isso claro. Então, por mais que se comprove que as bactérias que povoam as vias aéreas podem influenciá-la, isso não resolveria o problema como um todo. Mas, com certeza, seriam novas terapias bastante bem-vindas”, pondera.
Para o especialista, a preservação das bactérias é algo que também tem sido bastante explorado pelos cientistas e que pode render ainda mais dados. “Uma das preocupações está relacionada ao uso de antibióticos, pois eles podem extinguir uma série de bactérias que podem ser benéficas.