Ciência e Saúde

Pesquisa aponta que sepse mata duas vezes mais do que o estimado

A complicação responde por 20% das mortes no mundo, segundo estudo baseado em dados de 195 países. Para os autores, falhas nos registros médicos levam ao recorte subestimado. A maioria das vítimas vive em locais de baixa ou média renda

Correio Braziliense
postado em 17/01/2020 06:00
Descoberta pode ajudar na alimentação de pacientes da UTI: mais vulneráveisO sistema imunológico defende o organismo o tempo todo, destruindo vírus e bactérias potencialmente perigosos. Porém esse mesmo exército de células especializadas pode provocar uma reação exagerada diante de uma infecção e, em vez de proteger, acaba levando os órgãos à falência. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece essa condição — a septicemia ou sepse — como um grave desafio global. Contudo, um artigo publicado na revista The Lancet mostra que, até agora, o número de mortes em decorrência dessa complicação estava subestimado. De acordo com os pesquisadores, a mortalidade associada ao problema é duas vezes maior do que se acreditava.

Uma em cada cinco mortes no mundo é causada pela sepse, garantem os pesquisadores da Universidade de Pittsburgh e da Universidade de Washington. Os cálculos foram feitos a partir de estatísticas de incidência e mortalidade locais, regionais e nacionais, colhidas de 1990 a 2017, de mais de 100 milhões de pessoas, cruzadas com o Estudo Global de Carga de Doenças. Trata-se de uma análise epidemiológica coordenada pelo Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME) da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington, composto por dados enviados pelos sistemas de saúde do mundo todo, inclusive do Brasil.

Segundo os autores do artigo, as estimativas globais mais recentes de sepse foram baseadas em dados de adultos que deram entrada em hospitais de sete países de alta renda. Dentro desse cenário, a incidência de casos severos foi de 19,4 milhões, com 5,3 milhões de óbitos. Porém, ao se debruçar sobre os dados de 195 países, os pesquisadores encontraram outra realidade: 48,9 milhões de ocorrências mundiais em 2017 e 11 milhões de mortes.

A maioria dos casos — 85% — concentrou-se em países de baixa ou média renda. O impacto maior foi encontrado na África Subsaariana, nas ilhas do Pacífico Sul próximas à Austrália e no sul, leste e sudeste da Ásia. A incidência de sepse foi maior entre mulheres do que homens. Em relação à idade, ela atinge o pico na primeira infância, com mais de 40% de todas as ocorrências na faixa das crianças menores de 5 anos. O Brasil está em uma posição intermediária, com 440 a 540 mil casos anuais em cada 100 mil pessoas. Para fins de comparação, o Canadá tem os menores índices das Américas (120 a 200 em 100 mil), seguido por Estados Unidos e Chile (200 a 270 em 100 mil). Já a Nigéria, entre outros países africanos, registrou a incidência de 2,5 mil a 3,4 mil no mesmo período, 2017.

“A maioria das estimativas nacionais depende de bancos de dados administrativos hospitalares potencialmente imprecisos e usa definições de casos variadas, levando a estimativas díspares mesmo dentro da mesma população e dificultando a comparabilidade ao longo do tempo ou por local”, aponta o autor sênior do artigo, Mohsen Naghavi, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington. “A maioria dos estudos é restrita a pacientes internados nos hospitais e exclui crianças, ignora a causa subjacente da doença e avalia os dados por apenas um ou poucos anos.”

Prevenção

No caso da mortalidade, os números foram ainda mais distantes do que se estimava anteriormente. O pior cenário é o da República Centro-Africana, onde de 50% a 65% dos óbitos registrados em 2017 foram em decorrência de sepse. No Brasil, esse percentual ficou entre 16% a 20%. “Estamos alarmados ao descobrir que as mortes por sepse são muito maiores do que as estimadas anteriormente, especialmente porque a condição é evitável e tratável”, observa Naghavi. “Precisamos de um foco maior na prevenção da sepse entre os recém-nascidos e no combate à resistência a antibióticos, um importante impulsionador da doença.”

A principal autora do estudo, Kristina E. Rudd, do Departamento de Medicina Intensiva da Universidade de Pittsburgh, contou, em nota, que foi motivada a pesquisar sobre a realidade da incidência e da mortalidade por sepse depois de trabalhar na zona rural de Uganda, onde, segundo ela, “a sepse é o que víamos todos os dias”. “Assistir a um bebê morrer de uma doença que poderia ter sido evitada com medidas básicas de saúde pública realmente marca você. Quero contribuir para solucionar essa tragédia, por isso participo de pesquisas sobre sepse. No entanto, como podemos saber se estamos progredindo se nem sabíamos o tamanho do problema? Se você olhar para as 10 principais causas de mortes globalmente, a sepse não está listada porque não foi contada”, criticou.

Apesar das estatísticas assombrosas, o estudo também revelou que as taxas estão melhorando. Em 1990, havia um número estimado de 60,2 milhões de casos de sepse e 15,7 milhões de mortes; até 2017, a incidência havia caído 19%, para 48,9 milhões de casos, e as mortes, 30%, para 11 milhões. A causa subjacente mais comum de morte por sepse em 1990 e 2017 foi infecções respiratórias, como pneumonia.

Os autores do estudo destacam algumas medidas que podem ajudar a reduzir mais a incidência da mortalidade. “Para começar, é uma infraestrutura básica de saúde pública. Vacinas, garantia de que todos tenham acesso a um banheiro e a água potável, nutrição adequada para crianças e assistência à saúde materna abordariam muitos desses casos”, diz Rudd. Imunizar-se contra a gripe e pneumonia é essencial, destaca o pesquisador e médico intensivista. “Além disso, precisamos fazer um trabalho melhor na prevenção de infecções adquiridas em hospitais e doenças crônicas, como diabetes, que tornam as pessoas mais suscetíveis a infecções.”

Dieta ocidental pode agravar a condição 

O risco de desenvolver sepse grave pode ser maior em pessoas habituadas a consumir uma dieta ocidental rica em gordura e açúcares, segundo estudo da Universidade Estadual de Portland. O artigo, publicado na revista Pnas, analisou como esse estilo de se alimentar interfere na gravidade e nos prognósticos da reação do organismo a uma infecção, capaz de levar a choque e falência de órgãos.

No estudo, ratos que foram alimentados com a dieta ocidental — caracterizada por ser pobre em fibras e rica em gordura e açúcar — mostraram aumento da inflamação crônica, gravidade maior da sepse, e taxas de mortalidade mais altas do que camundongos que receberam uma dieta normal. Brooke Napier, principal autora da pesquisa, diz que as descobertas sugerem que as cobaias tinham sepse mais grave e estavam morrendo mais rapidamente por causa de algo em sua dieta, não devido ao ganho de peso ou ao microbioma, a comunidade de bactérias do corpo.

“O sistema imunológico dos ratos na dieta ocidental parecia e funcionava de maneira diferente”, conta ela. “Parece que a dieta está manipulando a função das células imunológicas para que você fique mais suscetível à sepse. E quando você fica com sepse, morre mais rápido.

UTI

Napier afirma que as descobertas podem ajudar os hospitais a monitorar melhor a alimentação dos pacientes na unidade de terapia intensiva (UTI), já que eles são os internos com maior probabilidade de desenvolver a condição. “Se você sabe que uma dieta rica em gordura e açúcar se correlaciona com maior suscetibilidade à sepse e aumento da mortalidade, quando esses pacientes estão na UTI, você pode garantir que comam as gorduras certas e na proporção correta”, aponta. “Se o hospital puder intervir na dieta enquanto o paciente estiver na UTI, isso poderá influenciar os prognósticos.”

A pesquisadora conta que a equipe também identificou marcadores moleculares em camundongos alimentados com a dieta ocidental que poderiam ser usados como preditores para pacientes com alto risco de sepse grave ou para aqueles que precisam de tratamento mais agressivo. 

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