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Correio Braziliense

Saúde: coronavírus coloca autoridades em alerta e ocupa cientistas

Enquanto a OMS avalia que o vírus misterioso ainda não é uma emergência internacional, pesquisadores correm para descobrir a origem do patógeno que matou ao menos 18 pessoas na China. Estudos mostram que morcegos e cobras podem ser os transmissores


postado em 24/01/2020 06:00

Turismo na capital , Pequim, será prejudicado: festividades do ano-novo chinês foram canceladas. País tem mais de 600 casos confirmados(foto: NICOLAS ASFOURI / AFP)
Turismo na capital , Pequim, será prejudicado: festividades do ano-novo chinês foram canceladas. País tem mais de 600 casos confirmados (foto: NICOLAS ASFOURI / AFP)
Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), está “muito cedo” para decretar que o coronavírus que apareceu na China e começou a se espalhar por outros países constitui uma “emergência de saúde pública de alcance internacional”. A decisão foi tomada nesta quinta-feira (23/1), após uma reunião em Genebra, na Suíça. Também atentos à situação, pesquisadores tentam desvendar a origem do micro-organismo misterioso, responsável por ao menos 18 mortes. Dois estudos científicos sinalizam que morcegos e cobras podem ser os portadores da cepa. Como não há consenso sobre os dados, espera-se os resultados de novas investigações.


A situação, portanto, é de pesquisa e alerta. “Não se equivoquem, é uma emergência na China. Mas ainda não é uma emergência sanitária mundial. Pode se tornar”, avisou Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor da OMS. Ele também pediu às autoridades chinesas que garantam que os bloqueios de transporte em várias cidades sejam estratégicos. “A China tomou medidas que considera apropriadas para frear a propagação do coronavírus em Wuhan e em outras cidades. Esperamos que sejam curtas e eficazes”, disse Ghebreyesus. “Sabemos que há transmissão entre pessoas na China, mas, até agora, parece estar limitada a grupos familiares e a trabalhadores de saúde que atenderam a pacientes infectados.”

Nos laboratórios, os trabalhos têm se voltado para os animais que transmitem o vírus para os humanos. Um estudo publicado, na terça-feira, na revista Science China Life Sciences, patrocinado pela Academia Chinesa de Ciências de Pequim, analisou a relação entre a nova cepa e outros vírus. O estudo revelou que o coronavírus misterioso está estreitamente relacionado a uma cepa existente em morcegos. “O fato de os morcegos serem os hospedeiros nativos seria um raciocínio lógico e conveniente, embora ainda seja provável que haja hospedeiros intermediários na rede de transmissão de morcegos aos seres humanos”, destacaram os autores do trabalho, em um comunicado à imprensa.

Um segundo estudo, publicado na quarta-feira, no periódico Journal of Medical Virology, apontou as cobras como possíveis responsáveis pelo vírus. “Para procurar um potencial reservatório do vírus, realizamos uma análise completa de sequências genômicas e comparações. Os resultados da nossa análise sugerem que a cobra é o reservatório mais provável entre os animais silvestres”, ressaltaram os autores. Eles também destacaram que as conclusões requerem “maior validação por meio de estudos experimentais em modelos animais”.

Cientistas contestaram os resultados desse estudo alegando que ainda não existem provas de que o vírus possa infectar espécies que não sejam mamíferos e aves. “Nada apoia o envolvimento de cobras”, declarou à revista britânica Nature David Robertson, virologista da Universidade de Glasgow, no Reino Unido. O especialista explicou que é improvável que o coronavírus responsável pelo surto tenha infectado qualquer hospedeiro animal secundário por tempo suficiente para alterar seu genoma de forma significativa. “Leva muito tempo para que esse processo aconteça”, justificou.

Virologista da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Eduardo Brandão tem opinião parecida. “Eles não têm evidências de que as cobras possam ser infectadas por esse novo coronavírus e servir de hospedeiro. Não há evidências consistentes de coronavírus em hospedeiros além de mamíferos e aves”, afirmou também à revista Nature.
 
(foto: AFP)
(foto: AFP)
 

Animais exóticos

O mercado de pescados da cidade de Wuhan, onde acredita-se que o vírus apareceu, oferece uma variedade de fauna exótica à venda, incluindo raposas vivas, crocodilos, filhotes de lobo, salamandras gigantes, cobras, ratos, pavões, porcos-espinhos e carne de camelo, entre outras. Nesta quinta-feira (23/1), em Pequim, o diretor do Centro Chinês de Controle e Prevenção de Doenças, Gao Fu, destacou que as autoridades acreditam que o vírus provavelmente veio de “animais selvagens no mercado de pescados”.

O combate efetivo do coronavírus começou quando um cientista chinês admitiu que o vírus pode ser transmitido de humano para humano, e não apenas de animal para humano. Outra preocupação é sua semelhança genética com o micro-organismo da mesma família responsável pela síndrome respiratória aguda severa (Sars). Segundo Arnaud Fontanet, chefe do Departamento de Epidemiologia do Instituto Pasteur, em Paris, 80% da genética do novo vírus é igual à do micro-organismo que matou cerca de 650 pessoas, na região, entre 2002 e 2003. Na ocasião, os morcegos foram apontados como transmissores dos patógenos para os humanos.

Mais de 18 milhões em quarentena

Há casos de pessoas infectadas pelo novo vírus em sete países, além de regiões semiautônomas chinesas. Para conter a disseminação do patógeno, o governo chinês colocou mais uma cidade em quarentena. Além de Wuhan, local apontado como origem do surto, Huanggang está sob controle. A cidade vizinha, a 70 quilômetros de distância, tem 7,5 milhões de moradores.

Desde as 10h desta quinta-feira (23/1), nenhum trem ou avião pode, em princípio, deixar Wuhan, metrópole de 11 milhões de habitantes situada no centro da China. Todas as mortes ligadas à infecção pelo vírus foram registradas lá ou no entorno. “Os moradores não devem deixar Wuhan sem uma razão específica”, anunciou o organismo responsável pelo combate à epidemia no nível municipal.

Segundo o órgão, a decisão foi tomada para “impedir efetivamente a propagação do vírus”. Com as restrições, os táxis triplicaram os preços. “É muito perigoso sair no momento, mas precisamos de dinheiro”, disse um motorista à Agência France-Presse (AFP) de notícias. A prefeitura também impôs o uso de máscara respiratória, que a maioria dos habitantes começou a usar desde o início da semana.

Festividades canceladas

Ainda é possível chegar a Wuhan de trem ou de avião, mesmo com a maioria dos voos cancelados e os trens praticamente vazios, um cenário estranho para a véspera do feriado de ano-novo. Outra medida de segurança tomada pelas autoridades chinesas foi o cancelamento das festividades do ano-novo chinês em Pequim, que começariam neste sábado (25/1). Anualmente, centenas de milhares de pessoas se reúnem em parques da cidade para os festivais.

Na segunda-feira, o presidente Xi Jinping pediu um combate “resoluto” da epidemia, que, até então, não havia chegado às manchetes dos jornais. Em Washington, um porta-voz do Departamento de Estado observou “sinais encorajadores de que o governo chinês entendeu a gravidade do problema”. Como medida de prevenção, os controles de temperatura corporal se espalharam por vários aeroportos da Ásia, do Pacífico e também do Reino Unido, da Nigéria e da Itália. Em Dubai, todos os viajantes procedentes da China serão submetidos a análises por câmeras térmicas.

Na época da Sars, em 2002-2003, a Organização Mundial da Saúde (OMS) criticou enfaticamente Pequim por ter demorado a avisar sobre a doença, tentando ocultar a extensão da epidemia. A Sars matou 774 pessoas em todo mundo, sendo 648 na China, incluindo Hong Kong, e esteve relacionada ao consumo de carne de civeta asiático, um mamífero carnívoro. Muitas espécies exóticas ainda são amplamente consumidas na China e em outros países asiáticos, onde são consideradas uma iguaria. 

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