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Correio Braziliense

Cientistas apontam que ovário policístico pode apresentar complicações

Os efeitos da síndrome duram mais do que o estimado e podem afetar o estado psicológico de mulheres, mostra estudo finlandês com dados de quase 6 mil voluntárias


postado em 25/01/2020 07:00

(foto: Valdo Virgo)
(foto: Valdo Virgo)
A síndrome do ovário policístico (SOP) é uma das complicações mais comuns à população feminina e  provoca uma série de dificuldades. Em uma pesquisa finlandesa, observou-se que ela causa danos até os 40 anos, ou seja, mesmo depois do auge do período fértil, por volta dos 35. Com base nos dados, os pesquisadores defendem uma atenção médica maior a mulheres com esse problema, principalmente em relação à saúde mental. Um segundo estudo, feito nos Estados Unidos, mostra que a composição da microbiota pode estar relacionada ao surgimento da SOP.

Na pesquisa finlandesa, publicada no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, os autores destacam que a síndrome é uma condição comum, mas subdiagnosticada “A maioria dos estudos concentra nas mulheres durante a idade reprodutiva, mas sintomas como problemas de saúde mental e crescimento excessivo de pelos continuam presentes até os 40 anos”, destaca, em comunicado, Terhi Piltonen, principal autora do estudo e pesquisadora da Universidade de Oulu.

Piltonen e sua equipe analisaram dados de 5.889 mulheres com idade entre 31 e 46 anos e diagnóstico de SOP.  As com a síndrome tinham saúde e qualidade de vida precárias até os 40 anos de idade, em comparação às não acometidas pela doença. “Nosso estudo mostra que mulheres com SOP têm menor satisfação com a vida e problemas de saúde até seus últimos anos reprodutivos, algo que ainda não havia sido visto cientificamente”, detalha a autora do estudo.

O sofrimento mental foi o fator que mais contribuiu para a baixa qualidade de vida das participantes com a síndrome. Elas experimentam mais problemas como ansiedade e depressão. “São necessárias intervenções para melhorar a qualidade de vida dessas pessoas quando elas têm entre 30 e 40 anos. Elas devem ser examinadas regularmente quanto a problemas de saúde mental e tratadas para outros sintomas angustiantes, como o excesso de cabelo”, defende Piltonen.

Mais estudos

Fábio Lage, ginecologista do Instituto Castro e Santos (ICS), em Itajaí, Santa Catarina, acredita que os dados são de extrema importância, apesar da necessidade de aprofundamento. “O interessante da pesquisa é que ela tenta relacionar os sintomas da síndrome com alteração psiquiátrica, que pode se estender até a mulher adulta”, justifica. “Inegavelmente, essa síndrome aparece mais em mulheres jovens, mas, pelo que o estudo mostra, os sintomas podem se perpetuar até a menopausa. ”

“É necessário ressaltar que é uma pesquisa recente e que ainda poderá sofrer alterações, mas já nos alerta para o cuidado multidisciplinar que a mulher deve ter desde o período de puberdade, principalmente em relação à prevenção de doenças psiquiátricas depressivas, que podem aparecer na fase da menopausa”, segue Fábio Lage.

O médico também acredita que os dados podem auxiliar na prevenção de problemas mais sérios. “Esses estudos podem levar a novas estratégias de prevenção de doenças crônicas, principalmente as psiquiátricas. Esse foi um pontapé inicial, em que se tenta correlacionar enfermidades psiquiátricas com outras doenças. Mas o que realmente se destaca é o conhecimento de que todo ser humano, nesse caso, as mulheres, não são seres isolados. Todos nós somos sistêmicos, ou seja, uma alteração em qualquer parte do corpo leva a alterações em todo o sistema”, afirma.

Palavra de especialista

Novas estratégias

“A síndrome dos ovários policísticos acomete mulheres jovens em idade reprodutiva, levando a diversos sintomas, sendo um deles a obesidade com resistência à insulina Seria de grande contribuição termos mais estudos de doenças hormonais relacionadas à flora intestinal alterada. Assim, poderíamos estabelecer estratégias de mudanças de estilo de vida, incluindo a alimentação, e modificar o meio ambiente nocivo para um ambiente saudável. Esse tema da bioflora intestinal é um dos mais estudados na atualidade. No Brasil, um grande centro de estudo é a Unicamp, talvez um dos pioneiros desse tema no mundo. Já temos estudos que descobriram as bactérias mais relacionadas à obesidade e aos ovários policísticos, além das bactérias que têm mais relação com o emagrecimento.”, Jamilly Drago, endocrinologista da clínica Metasense, em Brasília.

Influência da flora intestinal

Uma pesquisa também publicada na revista Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism indica que a formação do microbioma intestinal pode influenciar no surgimento da síndrome do ovário policístico (SOP). “Trabalhos anteriores mostraram que o microbioma das fezes é diferente em pacientes com alterações metabólicas e mulheres adultas com SOP, mas isso não foi avaliado em jovens com SOP. Estávamos particularmente interessados nesse tipo de trabalho, pois ele pode levar a uma maneira diferente de tratar a doença”, conta ao Correio Melanie Cree Green, uma das autoras do estudo e pesquisadora do Children’s Hospital Colorado, nos Estados Unidos.

Adolescentes com a síndrome também costumam lutar contra a obesidade e têm um risco maior de diabetes tipo 2, infertilidade e depressão. Por meio de observações de 58 jovens, a equipe descobriu que meninas obesas e com SOP têm um microbioma intestinal alterado, em comparação às não acometidas pela síndrome. Constatou-se ainda a existência de mais bactérias “não saudáveis” nas fezes, o que está relacionado a níveis mais altos de testosterona e de outros marcadores da síndrome metabólica, como pressão alta, inflamação do fígado e triglicerídeos plasmáticos. 

Os autores acreditam que os dados vistos na pesquisa podem contribuir para o aperfeiçoamento do tratamento da doença, apesar da necessidade de mais estudos sobre o tema. “Nosso trabalho estabelece que há uma diferença em adolescentes com SOP e que o perfil não saudável está relacionado a alterações metabólicas e testosterona, que é a principal anormalidade hormonal na síndrome. Trabalhos futuros devem ser realizados para verificar se a alteração do microbioma via dieta, probióticos ou medicamentos diminui os sintomas da SOP” diz Green.

“Atualmente, estamos realizando dois ensaios clínicos, um com suplemento nutricional e outro com um medicamento para diabetes. Avaliaremos se uma dessas intervenções altera o microbioma das fezes em conjunto com melhorias na saúde metabólica e nos sintomas da SOP”, adianta a cientista.

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