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Correio Braziliense

Em busca de tratamentos: cientistas correm para tentar barrar o coronavírus

Pesquisadores testam terapias para os pacientes infectados pelo novo coronavírus, numa batalha contra o tempo para barrar a sua disseminação, enquanto países adotam medidas preventivas. EUA declaram emergência e pedem a cidadãos que não viajem à China


postado em 01/02/2020 07:00

Equipe médica de hospital de Wuhan, cidade chinesa epicentro da epidemia: Pequim decide repatriar seus cidadãos para evitar discriminação(foto: AFP / STR)
Equipe médica de hospital de Wuhan, cidade chinesa epicentro da epidemia: Pequim decide repatriar seus cidadãos para evitar discriminação (foto: AFP / STR)
Em parelelo aos alertas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e às medidas preventivas adotadas pelos governos de vários países, a comunidade científica se debruça no estudo de várias pistas de tratamentos do novo coronavírus, que emergiu na China e se espalha rapidamente mundo afora. Até o momento, não existe uma terapia verificada. Os pesquisadores devem se apoiar em trabalhos sobre o Sars (Síndrome respiratória aguda grave) e o Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), outros dois coronavírus que originaram epidemias letais.

Segundo o médico Yazdan Yazdanpanah, diretor do Instituto de Imunologia, Inflamação, Infecção e Microbiologia do Inserm, o instituto francês de pesquisa médico, três estratégias estão em nível avançado de estudo. Yazdanpanah, especialista no âmbito da OMS, mencionou que a primeira delas consiste em utilizar exclusivamente o Kaletra, medicamento anti-HIV/Aids que associa duas moléculas antivirais (lopinavir e ritonavir).

Na verdade, por enquanto, é o tratamento que se conhece melhor e o único disponível, por ter sido usado, sobretudo, na pós-exposição ao HIV. “Vários colegas chineses o usaram na China em testes clínicos, dos quais ainda não se têm os resultados”, informou.

A segunda opção, segundo ele, consiste na associação desse medicamento ao interferon (antiviral e imunoterapêutico), uma combinação utilizada contra o coronavírus Mers, em um teste clínico ainda em curso. A terceira e última abordagem se baseia no uso do remdesivir, outro antiviral usado para tratar o ebola. Há muito poucos dados sobre sua eficácia, mas, de acordo com um artigo da revista Nature, “parece maior do que a do Kaletra”.

Yazdanpanah cita ainda uma quarta pista, que consistiria no aproveitamento de tratamentos à base de “anticorpos monoclonais”. O especialista ressalva, porém, que esse estudo está “menos avançado” do que os demais.

“A OMS começará rapidamente um teste clínico aleatório internacional (n.r: baseado em exames comparativos mediante sorteio). Entretanto, gostaríamos de usar alguns tratamentos em pacientes em estado grave pelo menos”, observou. Entraria aí o que já foi estudado sobre o Mers e o Sars. Yazdanpanah destaca que a possibilidade de cultivar o novo coronavírus “permite também por à prova moléculas, algumas das quais já estão disponíveis para outras patologias”.

O especialista da OMS citou, ainda, outra estratégia em avaliação, que consistiria em verificar se pessoas expostas foram infectadas pelo vírus antes do aparecimento dos sintomas, o que poderia fornecer um tratamento precoce.

Uma das questões que intrigam os cientistas é por qual motivo a doença se agrava no sétimo dia. Esse é considerado um elemento primordial para poder projetar uma estratégia terapêutica, segundo Yazdan Yazdanpanah, que também é chefe do serviço de doenças infecciosas do hospital parisiense de Bichat, que recebeu um turista chinês de 80 anos em estado grave.

Mea culpa

Até o início da noite desta sexta-feira (31/1), o novo coronavírus havia deixado 258 mortos, e o número de pacientes infectados na China continental beirava os 10 mil — mais de 100 mil estão em observação. Vários países aumentaram as medidas preventivas, adotaram proteção de suas fronteiras e aceleraram processo de repatriação dos seus cidadãos. “Estou me sentindo culpado e com remorso. Se tivesse tomado as medidas restritivas antes o resultado teria sido melhor do que o atual”, admitiu Ma Guoqiang, secretário do Partido Comunista Chinês (PCC) em Wuhan, o epicentro da epidemia.

Por sua vez, o embaixador chinês para a ONU em Genebra, Xu Chen, comentou que “não há motivo para entrar em pânico desnecessariamente, nem tomar medidas extremas”, e ressaltou que “a OMS confia plenamente na China”. Na quinta-feira, a agência das Nações Unidas declarou emergência internacional, depois de fortes críticas pela demora em alertar sobre a gravidade do cenário. Tentou, de qualquer forma, não estigmatizar a China.

Entretanto, as medidas de precaução continuam aumentando. Os Estados Unidos decretaram emergência no país e emitiram uma advertência de viagem de nível quatro, para pedir aos americanos que “não viajem” à China. A iniciativa criou um mal-estar com Pequim. Hua Chunying, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, assinalou que as medidas de Washington “não são corretas nem apropriadas”.

Em outra corrente, países como Vietnã, Mongólia, Cingapura, Israel, Guatemala e El Salvador decidiram vetar a entrada de turistas procedentes da China. Algumas nações africanas colocaram equipes de saúde nos aeroportos e suspenderam vistos de entrada dos chineses.

Propagação

Gradativamente, vários países têm detectado infecções, principalmente de pessoas que chegam do países asiáticos. No Reino Unido, os primeiros casos foram confirmados nesta sexta-feira (31/1), em membros de uma mesma família. A Rússia também informou que há dois casos de coronavírus em seu território, e anunciou a retirada de vários de seus cidadãos de cidades chinesas. Registros de pessoas infectadas foram igualmente feitos na Suécia e na Espanha.

Por conta do número de chineses diagnosticados com o vírus no exterior, Pequim decidiu enviar aviões para repatriar os moradores de Wuhan, alvos de preconceito. Outros países também iniciaram as operações para tirar seus cidadãos do território chinês. Os Estados Unidos e o Japão foram os primeiros, ainda na quarta-feira. Washington impôs a quarentena aos 195 americanos que chegaram a uma base militar na Califórnia. Nenhum deles apresentava sintomas ao desembarcar.

Nesta sexta-feira (31/1), uma  avião transportou 83 britânicos, 19 espanhóis, um polonês morador da Espanha e uma chinesa casada com um espanhol, quatro dinamarqueses e um norueguês de volta aos seus respectivos países. Nenhum deles apresentou sintomas segundo exames realizados.

Uma aeronave francesa aterrissou no sul do país levando 200 pessoas que estavam em Wuhan. Os repatriados permanecerão em observação por 14 dias, próximo a Marselha. Itália, Alemanha, Canadá e Bangladesh também organizam suas operações de repatriação.

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