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Correio Braziliense

Choro pauta debate no Twitter: entenda por que chorar é importante

Por tristeza, felicidade, medo, raiva... Não importa o motivo, uma coisa é certa: as lágrimas sempre estarão presentes em nossas vidas


postado em 09/02/2020 10:34

Primeira forma de comunicação do ser humano com o mundo, o choro começa a ser exercitado pelo homem já a partir do nascimento(foto: Pixabay)
Primeira forma de comunicação do ser humano com o mundo, o choro começa a ser exercitado pelo homem já a partir do nascimento (foto: Pixabay)
Quem entrou no Twitter na manhã deste sábado (8) certamente se debarou com a "Tabela do Choro" nos Trending Topics. A brincadeira consiste em somar pontos a cada resposta positiva para uma série de locais e situações em que a pessoa possa ter derramado lágrimas. A lista vai desde o transporte público, a paranóia e até dor física. Primeira forma de comunicação do ser humano com o mundo, o choro começa a ser exercitado pelo homem já a partir do nascimento, quando as glândulas lacrimais ainda estão sendo desenvolvidas. Mesmo assim, os sons emitidos pelo recém-nascido bastam para avisar a quem está ao redor de que algo não vai bem numa fase da vida em que ele ainda não consegue verbalizar as próprias necessidades. Com o passar dos anos, o ato de chorar ganha novos contextos e significados. Porém, uma característica parece se manter inalterada. O choro é uma forma de expressão, seja de tristeza, seja de alegria, raiva, dor, culpa, emoção.

 

De acordo com o psicólogo Luciano da Costa Espírito Santo, o choro é um fenômeno inespecífico do ponto de vista psicológico, uma vez que ele pode representar sentimentos variados. Além disso, o ato de chorar nem sempre significa alívio de sofrimentos ou traz algum outro benefício para quem chora. “O choro também pode ser usado como estratégia de interação social, produzindo simpatia ou atenção por parte dos interlocutores daquele que chora”, completa Espírito Santo, diretor do curso de psicologia da Universidade Católica de Brasília.

 

Um estudo publicado no fim de 2008, resultado de uma parceria de psicólogos pesquisadores da Universidade do Sul da Flórida, nos EUA, e da Universidade de Tilburg, na Holanda, também concluiu que nem sempre o choro tem um efeito catártico. Embora a maioria dos participantes tenha afirmado que se sentiu melhor depois de chorar, um terço do total relatou não ter sentido qualquer diferença — alguns até disseram que o humor piorou. Os pesquisadores observaram ainda que quem recebeu apoio enquanto chorava tinha maior probabilidade de notar alguma melhora depois da experiência.

 

De acordo com a professora de psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Magda Vaissman, a maioria dos homens tem dificuldade para chorar por conta da criação. “Eles não são fortes, eles são como as mulheres. O choro é uma manifestação, assim como o riso. E a falta de capacidade de expressar emoções pode acarretar um problema mais sério”, defende a especialista. Foi com esse pensamento que o vendedor Júlio Sousa, 23 anos, diz ter crescido. “Nunca fui muito amoroso ou melancólico, mas acho que varia de cada um essa necessidade de chorar. Eu não vejo motivo. Posso ficar sensibilizado, mas não chego a chorar”, afirma Sousa, que diz não chorar há anos. “A última vez ainda era criança.”

 

 

Ainda segundo Magda, para pessoas muito racionais, independentemente do gênero, pode ser mais difícil chorar e é preciso estar atento, pois, se isso se tornar um incômodo para o indivíduo, é recomendável buscar auxílio psicológico. Da mesma forma, ela afirma que o choro fácil, aliado a outros sintomas, como desânimo, fadiga mental e ansiedade, também exige acompanhamento profissional.

 

A psicóloga Luciana Rizo, professora de pós-gradução da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tem uma visão parecida e também considera o choro algo benéfico para o homem. “Chorar faz bem à saúde. A expressão das emoções é algo importante para o ser humano, mas é importante também trabalhar a forma da externalização para que esse processo seja saudável. Liberar a tensão, expressar o que passa em seu mundo interno é importante para o homem. E o choro é uma dessas formas.”

 

Ela acredita ainda que o assunto deve ser tratado com naturalidade desde a infância. “Deixar de expressar as emoções é nocivo ao homem. É uma forma de comunicação importantíssima. Precisamos saber expressar nossos sentimentos e compreender os sentimentos do outro para que possamos construir a empatia, ou seja, entender como o outro se sente e conseguir se colocar no lugar dele.” Para Luciana Rizo, se uma criança ouve sempre a frase ‘engole o choro’, ela não consegue expressar o que sente, percebe a pouca empatia daquele que profere a frase e entende que não se deve dar atenção ao sentimento do outro. “Ou seja, cria-se um indivíduo com pouca ou nenhuma empatia. O que é extremamente prejudicial para as relações interpessoais dessa pessoa.”

 

De acordo com a especialista, na infância deve-se tomar um cuidado especial em relação à causa do choro. “É preciso se preocupar com a motivação do choro infantil. Em primeiro lugar, tentar entender o que o choro dessa criança quer mostrar, seja dor, seja necessidades básicas ou sentimentos, e criar um diálogo a partir disso para tentar resolver o problema.” Há também um segundo fator, em que o choro é usado para manipular o comportamento dos pais. Se, toda vez que a criança chora, o responsável faz o que ela quer, fica aprendido que o choro é a senha para conseguir o que se quer e é criado um ser humano manipulador.

 

A psicóloga da UFRJ também chama a atenção para os problemas que chorar demais pode causar. “É importante atentar para o excesso de choro, que pode sinalizar algum problema a ser trabalhado, como o estresse, a depressão, a raiva excessiva etc. Caso isso aconteça, é importante procurar um psicólogo para ajudar a pessoa a lidar com esses problemas ou aprender a manejar de forma saudável os sentimentos”, afirma.

 

De acordo com a psiquiatra Magda Vaissman, a frequência do choro varia durante a vida porque o homem aprende a controlar melhor a emoção com o passar dos anos. Os fatores sociais também influenciam em como a pessoa vai lidar com ele. A falta de vontade de chorar ou o choro em excesso só poderá ser um problema se houver a presença de outros sintomas, como ansiedade e estresse. Na ocasião da perda de uma pessoa querida, a psicóloga Luciana Rizo afirma que é importante expressar emoções, falar sobre o que se sente para encontrar novas estratégias para lidar com a falta e a saudade.


 Por que choramos?

 

O choro acontece quando o indivíduo se emociona. Ou seja, o sistema límbico, localizado no cérebro e responsável pelos sentimentos, associa esse estímulo emotivo com aqueles já armazenados a partir de experiências anteriores, gerando algumas respostas fisiológicas, sendo uma delas o choro. Há também outras, como a sudorese e o aumento da frequência cardíaca.

 

Esse processo faz com que outro sistema nervoso libere várias substâncias envolvidas no processamento das emoções, como os hormônios noradrenalina e serotonina. O sistema nervoso autônomo, responsável por ações motoras, como o piscar dos olhos, provoca a contração da glândula lacrimal, liberando a lágrima.

 

O ser humano produz lágrimas 24 horas por dias, afirma o oftalmologista Emerson Moraes. A composição da lágrima é água, cuja função é lubrificar e proteger o olhos; gordura, que não deixa a água evaporar tão rápido; e proteína, que contém anticorpos e ajuda a prevenir infecções.

 

A lágrima também serve como um mecanismo de defesa, uma vez que sua produção aumenta quando algum corpo estranho entra no olho. Nesse momento é feito um tipo de lavagem. Contudo, Moreas explica que o choro em si não tem uma função para o corpo, pois as lágrimas já são produzidas normalmente, sem necessidade da alteração de emoções que o provoca.


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