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Correio Braziliense

Cientistas apontam uma nova história para a Ilha de Páscoa

Estudo da Universidade de Oregon sugere que a sociedade construtora das estátuas monolíticas da Ilha de Páscoa não entrou em colapso no século 15, como amplamente divulgado


postado em 15/02/2020 07:00 / atualizado em 15/02/2020 18:56

Espalhados por toda ilha, imensos e misteriosos blocos de pedra esculpidos tinham funções religiosas e culturais, como em funerais(foto: Martin Bernetti/AFP)
Espalhados por toda ilha, imensos e misteriosos blocos de pedra esculpidos tinham funções religiosas e culturais, como em funerais (foto: Martin Bernetti/AFP)
Quando os europeus chegaram à longínqua Ilha de Páscoa, a 3 mil quilômetros da América do Sul e distante 2 mil quilômetros do território habitado mais próximo, encontraram uma sociedade muito peculiar, que construía imensos monumentos no local, chamado originalmente Rapa Nui. A história tradicional conta que o desembarque dos visitantes do Velho Mundo coincidiu com o colapso desse povo, provavelmente por brigas internas e exploração desordenada dos recursos naturais. Esse capítulo, porém, pode estar errado, segundo um estudo da Universidade de Oregon, nos Estados Unidos.

“O pensamento geral é de que a sociedade que os europeus viram quando apareceram pela primeira vez havia entrado em colapso”, diz Robert J. DiNapoli, candidato a doutorado no Departamento de Antropologia da universidade, que liderou a análise. “Nossa conclusão é de que a construção de monumentos e os investimentos nessas estátuas ainda eram partes importantes das vidas dos ilhéus quando esses visitantes chegaram.”

De acordo com DiNapoli, acredita-se que Rapa Nui tenha sido colonizada no século 18 por marinheiros polinésios. Eles logo começaram a construir estátuas megalíticas e grandes chapéus usados para rituais culturais e religiosos, incluindo enterro e cremação. Uma narrativa amplamente aceita é de que a fabricação dos monumentos parou por volta de 1600, após um grande colapso social.

Na pesquisa, publicada no Journal of Archaeological Science, a equipe de DiNapoli apresenta uma cronologia para a construção das estátuas, integrando as datas de radiocarbono existentes com a ordem de montagem necessária para fabricar monumentos e os registros escritos de viajantes holandeses, espanhóis e ingleses. Em conjunto, disse o cientista, os dados indicam que ilhéus de Rapa Nui continuaram a construir, manter e utilizar os monumentos por pelo menos um século e meio depois de 1600.

Relatos

O projeto começou como parte da dissertação de DiNapoli, focada no processo de construção da arquitetura dos monumentos. Analisando 11 locais, os pesquisadores examinaram a sequência necessária de montagem, começando com o erguimento de uma plataforma central, e adicionando diferentes estruturas e estátuas.

Isso ajudou a entender as diferentes datas de radiocarbono encontradas em vários locais de escavação da ilha. A fabricação dos monumentos, segundo a equipe, começou logo após o assentamento polinésio inicial e aumentou rapidamente, em algum momento entre o início do século 14 e meados do 15 com uma taxa constante de construções que continuaram muito além do colapso hipotético e da chegada dos europeus.

Quando os holandeses desembarcaram, em 1722, as observações deixadas em diários de viagem relataram que os monumentos eram usados para rituais. Os textos não apresentavam evidências de decadência social. O mesmo foi narrado em 1770, quando marinheiros espanhóis chegaram à ilha. “As estadias dos europeus foram curtas, e as descrições, breves e limitadas”, conta DiNapoli. “Mas eles fornecem informações que nos ajudam a pensar sobre a cronologia das construções e o uso das estruturas monolíticas como parte da vida cultural e religiosa local.”

No entanto, quando o explorador britânico James Cook visitou Rapa Nui quatro anos depois, em 1774, ele e parte da tripulação descreveram uma ilha em crise, com monumentos tombados. Só a partir daí, é que, de acordo com a pesquisa da Universidade de Oregon, de fato, a sociedade local começa a desmoronar — embora jamais tenha sido eliminada.

Resiliência

“Eventos como assassinatos, roubo de escravos e epidemias tiveram, sem dúvida, efeitos devastadores”, afirma um dos coautores do estudo, o antropólogo Carl Lipo, da Universidade Binghamton, em Nova York. “No entanto, o povo Rapa Nui — seguindo práticas que lhes proporcionaram grande estabilidade e sucesso ao longo de centenas de anos — continua suas tradições. O grau em que sua herança cultural foi transmitida — e ainda hoje está presente, por meio da linguagem, das artes e das práticas culturais — é bastante notável e impressionante. Acho que esse grau de resiliência foi negligenciado anteriormente devido à narrativa do colapso, mas merece, agora, reconhecimento”, conclui.

A pesquisa norte-americana junta-se a outros estudos que tentam desvendar os mistérios de Rapa Nui. Já se sugeriu que a decadência da sociedade construtora das estátuas gigantes foi impulsionada por mudanças climáticas e culturais, especialmente devido ao contato com os europeus.

Um desses trabalhos, do Conselho Nacional de Pesquisa da Espanha, baseou-se em amostras sedimentares para refazer uma história de 3 mil anos, para demonstrar que as secas e as estações chuvosas podem ter influenciado os ilhéus. As viagens marítimas, por exemplo, dependiam desses padrões climáticos. Por isso, os locais passavam longos períodos de intercâmbio cultural ou de isolamento. A chuva era importante para a manutenção das florestas de palmeiras nativas, diz o estudo, publicado na revista Frontiers in Ecology and Evolution. Já a estiagem contribuía para o desmatamento cíclico da ilha.

A equipe espanhola também usou datação por radiocarbono e análise de DNA de artefatos e de restos mortais humanos para descobrir onde os habitantes viviam na ilha, o que cultivavam e comiam e a influência das culturas além de seus ancestrais polinésios. Os dados ecológicos e culturais sugerem, segundo os pesquisadores, que, diferentemente do que vem sido sugerido há séculos, não houve um desmoronamento abrupto dos Rapa Nui.

“Nossas descobertas desafiam as teorias clássicas sobre um colapso e pintam um quadro de um longo e gradativo processo, estimulado tanto por mudanças ecológicas quanto culturais. Em particular, as evidências sugerem que não houve um colapso repentino antes da chegada dos europeus”, diz a pesquisa, em consonância com o que diz, agora, o estudo da Universidade de Oregon.

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