Ciência e Saúde

Cientistas apontam uma nova história para a Ilha de Páscoa

Estudo da Universidade de Oregon sugere que a sociedade construtora das estátuas monolíticas da Ilha de Páscoa não entrou em colapso no século 15, como amplamente divulgado

Paloma Oliveto
postado em 15/02/2020 07:00
Espalhados por toda ilha, imensos e misteriosos blocos de pedra esculpidos tinham funções religiosas e culturais, como em funeraisQuando os europeus chegaram à longínqua Ilha de Páscoa, a 3 mil quilômetros da América do Sul e distante 2 mil quilômetros do território habitado mais próximo, encontraram uma sociedade muito peculiar, que construía imensos monumentos no local, chamado originalmente Rapa Nui. A história tradicional conta que o desembarque dos visitantes do Velho Mundo coincidiu com o colapso desse povo, provavelmente por brigas internas e exploração desordenada dos recursos naturais. Esse capítulo, porém, pode estar errado, segundo um estudo da Universidade de Oregon, nos Estados Unidos.

;O pensamento geral é de que a sociedade que os europeus viram quando apareceram pela primeira vez havia entrado em colapso;, diz Robert J. DiNapoli, candidato a doutorado no Departamento de Antropologia da universidade, que liderou a análise. ;Nossa conclusão é de que a construção de monumentos e os investimentos nessas estátuas ainda eram partes importantes das vidas dos ilhéus quando esses visitantes chegaram.;

De acordo com DiNapoli, acredita-se que Rapa Nui tenha sido colonizada no século 18 por marinheiros polinésios. Eles logo começaram a construir estátuas megalíticas e grandes chapéus usados para rituais culturais e religiosos, incluindo enterro e cremação. Uma narrativa amplamente aceita é de que a fabricação dos monumentos parou por volta de 1600, após um grande colapso social.

Na pesquisa, publicada no Journal of Archaeological Science, a equipe de DiNapoli apresenta uma cronologia para a construção das estátuas, integrando as datas de radiocarbono existentes com a ordem de montagem necessária para fabricar monumentos e os registros escritos de viajantes holandeses, espanhóis e ingleses. Em conjunto, disse o cientista, os dados indicam que ilhéus de Rapa Nui continuaram a construir, manter e utilizar os monumentos por pelo menos um século e meio depois de 1600.

Relatos

O projeto começou como parte da dissertação de DiNapoli, focada no processo de construção da arquitetura dos monumentos. Analisando 11 locais, os pesquisadores examinaram a sequência necessária de montagem, começando com o erguimento de uma plataforma central, e adicionando diferentes estruturas e estátuas.

Isso ajudou a entender as diferentes datas de radiocarbono encontradas em vários locais de escavação da ilha. A fabricação dos monumentos, segundo a equipe, começou logo após o assentamento polinésio inicial e aumentou rapidamente, em algum momento entre o início do século 14 e meados do 15 com uma taxa constante de construções que continuaram muito além do colapso hipotético e da chegada dos europeus.

[SAIBAMAIS]Quando os holandeses desembarcaram, em 1722, as observações deixadas em diários de viagem relataram que os monumentos eram usados para rituais. Os textos não apresentavam evidências de decadência social. O mesmo foi narrado em 1770, quando marinheiros espanhóis chegaram à ilha. ;As estadias dos europeus foram curtas, e as descrições, breves e limitadas;, conta DiNapoli. ;Mas eles fornecem informações que nos ajudam a pensar sobre a cronologia das construções e o uso das estruturas monolíticas como parte da vida cultural e religiosa local.;

No entanto, quando o explorador britânico James Cook visitou Rapa Nui quatro anos depois, em 1774, ele e parte da tripulação descreveram uma ilha em crise, com monumentos tombados. Só a partir daí, é que, de acordo com a pesquisa da Universidade de Oregon, de fato, a sociedade local começa a desmoronar ; embora jamais tenha sido eliminada.

Resiliência

;Eventos como assassinatos, roubo de escravos e epidemias tiveram, sem dúvida, efeitos devastadores;, afirma um dos coautores do estudo, o antropólogo Carl Lipo, da Universidade Binghamton, em Nova York. ;No entanto, o povo Rapa Nui ; seguindo práticas que lhes proporcionaram grande estabilidade e sucesso ao longo de centenas de anos ; continua suas tradições. O grau em que sua herança cultural foi transmitida ; e ainda hoje está presente, por meio da linguagem, das artes e das práticas culturais ; é bastante notável e impressionante. Acho que esse grau de resiliência foi negligenciado anteriormente devido à narrativa do colapso, mas merece, agora, reconhecimento;, conclui.

A pesquisa norte-americana junta-se a outros estudos que tentam desvendar os mistérios de Rapa Nui. Já se sugeriu que a decadência da sociedade construtora das estátuas gigantes foi impulsionada por mudanças climáticas e culturais, especialmente devido ao contato com os europeus.

Um desses trabalhos, do Conselho Nacional de Pesquisa da Espanha, baseou-se em amostras sedimentares para refazer uma história de 3 mil anos, para demonstrar que as secas e as estações chuvosas podem ter influenciado os ilhéus. As viagens marítimas, por exemplo, dependiam desses padrões climáticos. Por isso, os locais passavam longos períodos de intercâmbio cultural ou de isolamento. A chuva era importante para a manutenção das florestas de palmeiras nativas, diz o estudo, publicado na revista Frontiers in Ecology and Evolution. Já a estiagem contribuía para o desmatamento cíclico da ilha.

A equipe espanhola também usou datação por radiocarbono e análise de DNA de artefatos e de restos mortais humanos para descobrir onde os habitantes viviam na ilha, o que cultivavam e comiam e a influência das culturas além de seus ancestrais polinésios. Os dados ecológicos e culturais sugerem, segundo os pesquisadores, que, diferentemente do que vem sido sugerido há séculos, não houve um desmoronamento abrupto dos Rapa Nui.

;Nossas descobertas desafiam as teorias clássicas sobre um colapso e pintam um quadro de um longo e gradativo processo, estimulado tanto por mudanças ecológicas quanto culturais. Em particular, as evidências sugerem que não houve um colapso repentino antes da chegada dos europeus;, diz a pesquisa, em consonância com o que diz, agora, o estudo da Universidade de Oregon.

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