Ciência e Saúde

Nasa mostra queda na poluição chinesa durante epidemia de coronavírus

Imagens de satélite revelam que concentração de dióxido de nitrogênio foi muito menor na China durante paralisação de fábricas por causa da epidemia

Thays Martins
postado em 06/03/2020 17:01

Poluição na China antes e depois do coronavírusFotos divulgadas pela agência espacial dos Estados Unidos, a Nasa, nesta semana, serviram para chamar a atenção sobre um inimigo mais antigo e tão ameaçador quanto o novo coronavírus: a poluição, que, segundo estudo publicado na terça-feira (3/3), é responsável por cerca de 8,8 milhões de mortes por ano no mundo.

O número é muito maior do que o de fatalidades causadas por enfermidades como HIV (que matou 770 mil pessoas em 2018) e doenças transmitidas por mosquitos, como a dengue (700 mil óbitos anuais).

As imagens da Nasa mostram a concentração de dióxido de nitrogênio sobre a China entre 1; e 20 de janeiro e 10 e 25 de fevereiro (veja acima). Nesse último período, a produção industrial chinesa quase parou, devido ao avanço da epidemia. Ao mesmo tempo, a poluição (representada pelas manchas amarelas, laranjas e vermelhas nos mapas) praticamente desapareceu. O mesmo efeito é visto quando se compara a poluição recentemente com o mesmo período do ano passado (foto abaixo).

Poluição na China antes e depois do coronavírus

Os cientistas da Nasa disseram ainda que a redução nos níveis de dióxido de nitrogênio ocorreu primeiramente perto da cidade de Wuhan, onde o vírus apareceu, e depois se espalhou pelo país. E o jornal South China Morning Post, de Hong Kong, publicou um vídeo que mostra um céu azul em várias cidades chinesas durante a interrupção da produção.

Agora, a partir da retomada da produção chinesa, as paisagens nubladas por poluentes devem retornar ao país asiático. De acordo com uma análise feita pelo Centre for Research on Energy and Clean Air, a emissão de dióxido de nitrogênio aumentou 50% esta semana em relação ao início de fevereiro, embora ainda esteja 20% menor do que o mesmo período do ano passado.

Maior poluente do mundo

A China é hoje o país que emite mais poluentes do mundo, sendo seguida de perto pelos Estados Unidos. O país asiático já chegou a registrar níveis 45 vezes maiores do que o limite diário de poluentes considerado aceitável pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Nos últimos anos, o país tem conseguido diminuir significativamente essas taxas, graças, especialmente, à desativação de fábricas à base de carvão. Segundo estudo publicado em 2019, na revista Nature Energy, o ar poluído no país é tanto que prejudica até a captação de energia por painéis solares.

De acordo com a professora Maria de Fatima Andrade, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG/USP), é justamente por a China ser um dos países mais poluentes do mundo que uma queda em sua produção impacta tão significativamente na qualidade do ar. "Uma fonte importante de poluição na China é a emissão industrial e de geração de energia (com termelétricas). Assim, se há uma redução na produção industrial, a poluição vai diminuir", explica.

[SAIBAMAIS]Colega de Andrade no IAG/USP, Adalgiza Fornaro salienta que as fotografias de satélite da Nasa não são suficientes para afirmar que a queda drástica na poluição chinesa se deve à redução da atividade industrial provocada pelo coronavírus. "Pode ter acontecido uma coincidência de fatores, ou seja, somados à diminuição das emissões pelas indústrias podem ter acontecido processos atmosféricos como vento ou chuvas que ajudaram a diminuir o total de poluentes", explica.

Porém, ela diz que as indústrias estão certamente ligadas aos níveis de poluição. "A diminuição das emissões industriais realmente diminuem os poluentes atmosféricos. Há muito estudo sobre isso na Europa e nos Estados Unidos. Mesmo aqui no Brasil e em São Paulo, em especial, a legislação de controle de emissão de poluentes no últimos 30 anos tem sido a principal razão de a qualidade do ar não ser pior", ressalta.

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