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Correio Braziliense

Quarentena pode desencadear estresse pós-traumático, alertam especialistas

Pesquisa na China, o centro da pandemia, mostra que até 20% da população já apresentam sinais do distúrbio


postado em 22/03/2020 11:05 / atualizado em 22/03/2020 12:02

(foto: Lucas Pacífico/CB/DA Press)
(foto: Lucas Pacífico/CB/DA Press)
Wuhan é, hoje, uma cidade diferente de duas semanas atrás. Considerada o epicentro da pandemia do novo coronavírus, já não contabiliza novos casos, os hospitais foram esvaziados e, aos poucos, as pessoas retomam as atividades. Porém, pode demorar muito tempo para que a capital de Hubei e o restante da China, de fato, voltem ao normal.

A doença física está passando. Mas, segundo um estudo publicado há cinco dias por pesquisadores da Universidade Médica Naval de Shangai, até 20% dos habitantes da nação asiática apresentam sinais de transtorno de estresse pós-traumático (TSPT), um distúrbio psiquiátrico que também prevaleceu no país após a epidemia de síndrome aguda respiratória grave (Sars) em 2003.

O artigo, publicado no site médico medRvix, dá uma pequena amostra do que pode ocorrer após uma população ser submetida ao isolamento social enquanto um inimigo invisível ameaça dizimá-la. Os pesquisadores da Faculdade de Psicologia e Saúde Mental da universidade estudaram a prevalência e os fatores de risco para TSPT agudo por meio de uma enquete on-line realizada na China continental após o auge da epidemia — entre 30 de janeiro e 3 de fevereiro.

A pesquisa consistiu em dois questionários autoadministrados: no primeiro, havia questões sobre informações sociodemográficas, histórico de exposição recente a Wuhan, localização no momento do estudo e qualidade subjetiva do sono. Já no segundo, foram apresentados 20 sintomas de TSPT listados no Manual Estatístico de Distúrbios Mentais, a bíblia da psiquiatria. Um total de 2.091 chineses de 10 a mais de 60 anos participaram do estudo.

A prevalência do transtorno foi de 4,6%: 5,2% na população geral de baixo risco, 18,4% na de alto risco e 4,4% nos profissionais de saúde. “Como apenas uma pequena amostra era confirmada ou suspeita de ter Covid-19, acreditamos que os sintomas de TSPT podem ser muito mais graves em toda a população como resultado da pandemia”, observa Luna Sun, um dos autores do artigo. “Ao fazer as análises por sexo e características individuais, acreditamos que seja necessário dar atenção especial às mulheres e aos com alto risco de infecção, bem como às pessoas de regiões com alta prevalência da doença e tiveram contato próximo com os pacientes.”



O TSPT costuma emergir após situações como guerras, desastres naturais e pandemias, embora também possa atingir pessoas que passaram por experiências negativas em nível individual. “Confusão, raiva, tristeza, ansiedade, episódios de pânico — sintomas não muito diferentes dos observados no estresse pós-traumático — podem aumentar à medida que a população se autoisola para evitar o contágio”, diz Frank A. Ghinassi, do Departamento de Saúde Comportamental da Universidade de Rutgers, nos EUA. “Muitos desses sintomas, e da gravidade deles, dependem de alguns fatores. Por exemplo, se a quarentena é voluntária ou forçada pelos governos, assim como a extensão da rede de suporte social. Acesso a notícias precisas também media esse processo. Já informações  repetitivas que permeiam o ciclo de notícias de 24 horas podem piorar o estresse”, alerta.

Estigmas

O especialista lembra que a falta de acesso a necessidades básicas e o medo da recessão econômica também são fatores de risco. “Para muitos, o isolamento social inclui não poder trabalhar e, como resultado, pode significar perda financeira e insegurança como estressores adicionais. Também há estigma sentido por aqueles que estão em quarentena. Eles sentem que têm a culpa e são rotulados como alguém que precisa ser evitado.”

Esse foi um sentimento comum em Hong Kong, epicentro da Sars em 2002 e região do mundo mais afetada pela doença, com 1.755 casos confirmados. No ápice da epidemia, os habitantes viviam de máscara e sob um medo disseminado. Assim como agora, aqueles com doenças crônicas tinham mais razões para se preocupar: além de mais suscetíveis à infecção devido à saúde comprometida.

Para completar o quadro, a população de Hong Kong teve de lidar com o estigma social de ser rotulada como potencial disseminadora de vírus. Segundo um estudo da época, citado no artigo Applying the Lessons of Sars to Pandemic Influenza, da Universidade de Toronto, quase 90% dos residentes da região administrativa sofreram discriminação ou eram evitados por parentes e colegas. Não à toa, pesquisas realizadas depois da epidemia constataram altos níveis de estresse pós-traumático e de deterioração mental entre os moradores.

Embora seja uma situação de medo justificado, especialistas afirmam que é possível minimizar os danos à saúde mental com estratégias simples. Manter os vínculos sociais, apesar da distância física, é fundamental, defende Stephen D. Benning, diretor do Laboratório de Psicofisiologia da Emoção e da Personalidade da Universidade de Las Vegas e pesquisador de processos emocionais básicos. “Ao usar a tecnologia para se manter conectado, priorize a manutenção de conexões mais profundas e significativas com as pessoas. Use mensagens de vídeo para ver e ouvir pessoas importantes. Converse no telefone para manter uma conexão vocal”, ensina.


Palavra de especialista

Insegurança é inevitável

“Mesmo sabendo que os que fazem parte dos grupos que estão mais suscetíveis a pegar a Covid-19 são os idosos e as pessoas com a saúde debilitada, a população como um todo se sente ameaçada e amedrontada. São milhares de informações a todo o momento, sem contar as notícias falsas e tendenciosas que acabam se espalhando. É inevitável surgir um misto de insegurança e uma grande necessidade de autoproteção. Imagine que, em uma escala de valores, a crise de pânico começa com a falta de conhecimento, pois a pessoa vive em um estado de tensão que ela não controla. A partir do momento em que essa ansiedade se exacerba, entra uma sensação de medo, impotência, desânimo e, finalmente, a sensação de pânico, em que ela acredita que não tem mais saída, que não tem mais opções. Precisamos aumentar o nosso nível de tolerância para aguentar a pressão, as cobranças e a agressão que essa situação está provocando na população como um todo.”

Leonard F. Verea é médico, formado pela Faculdade de Medicina e Cirurgia de Milão, Itália. Atua no Brasil como psiquiatra desde 1985


Artigo

por Antônio Geraldo da Silva

Saúde mental em tempos de pandemia

Estamos na primeira semana de decretos governamentais que alteram a rotina da população. A maioria das manifestações oficiais indica, acertadamente, o isolamento físico para casos de síndrome gripal e a quarentena daqueles que puderem ficar em casa, trabalhando de forma remota, a fim de evitar a propagação exponencial do coronavírus.

Além do cuidado físico necessário ao momento, há de se preocupar também com os aspectos psíquicos e mentais que o isolamento e a quarentena podem trazer à população, não só individualmente, mas também à coletividade. Em estudo publicado pelo jornal científico The Lancet em 14 de março, uma revisão bibliográfica cuidadosa destacou as principais preocupações com os impactos da pandemia na saúde mental.

Os efeitos psíquicos e psicológicos negativos podem incluir estresse, confusão e raiva, principalmente associados aos estressores mais comuns da condição de pandemia. Duração da quarentena, medos de infecção, frustração, tédio, informações inadequadas, perda financeira e estigma foram os mais citados fatores causadores de estresse na população.

Quando falamos do impacto nos profissionais de saúde, a quarentena é considerada um preditor de sintomas de estresse pós-traumático em funcionários do hospital, mesmo após três anos da epidemia. Esse público também sente maior estigmatização do que o geral, sendo o mais afetado psicologicamente, relatando raiva, aborrecimento, medo, frustração, culpa, desamparo, isolamento, solidão, nervosismo, tristeza e preocupação.

Urge cuidar também da saúde mental da população neste momento de pandemia. Estratégias de preservação do psiquismo de pacientes, médicos, profissionais de saúde e da população como um todo devem ser adotadas prontamente.

Se você está em casa, isolado ou de quarentena, cultive hábitos saudáveis. Mantenha sua rotina, preserve horários de sono e refeições, continue fazendo atividades físicas, leia um livro, ou vários, coloque em dia as séries e filmes dos serviços de streaming. Medite, alongue, faça um relaxamento, brinque e dê atenção às crianças também longe das telas.

Ao buscar informações, atenção às fontes oficiais das autoridades sanitárias e tenha cuidado ao compartilhar notícias falsas entre sua rede de contatos. Limite a quantidade de notícias relacionadas à pandemia a uma ou duas vezes por dia, no horário dos resumos jornalísticos, por exemplo.

Em resumo, reduza o tédio e melhore a comunicação. Se cada um fizer a sua parte, passaremos pelo período de crise da forma mais tranquila e consciente possível e, claro, cuidando da nossa saúde mental.

Antônio Geraldo da Silva é presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP)

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