Ciência e Saúde

Cientistas procuram ratos de laboratório na luta contra o coronavírus

Eles não possuem um receptor sensível ao coronavírus, o que permite a este penetrar nas células

Agência France-Presse
postado em 27/03/2020 12:07
Eles não possuem um receptor sensível ao coronavírus, o que permite a este penetrar nas célulasParis, França - Cientistas do mundo inteiro lutam para encontrar um tratamento ou uma vacina contra o coronavírus, mas também procuram ratos de laboratório e nem todos servem: devem ser roedores transgênicos, atualmente em escassez.

"Os ratos de laboratório habituais não podem ser utilizados para estudar o SARS-CoV-2", explica à AFP Christophe D;Enfert, diretor científico do prestigioso Instituto Pasteur de Paris.

Eles não possuem um receptor sensível ao coronavírus, o que permite a este penetrar nas células: portanto "não somos capazes de infectar estes ratos de maneira eficaz", acrescenta D;Enfert.

Por este motivo são necessários ratos especiais, chamados ACE2, geneticamente modificados e fornecidos por empresas especializadas, que neste momento enfrentam uma demanda extremamente elevada.

Este tipo de roedor foi utilizado para estudar a Sars, que afetou a Ásia entre 2002 e 2003, mas uma vez superada a epidemia "ninguém se interessou mais por eles" e os laboratórios deixaram de ter estes animais, segundo D;Enfert.

"Fizemos um pedido e vamos recebê-los, mas vai demorar um tempo", completa. "São necessárias três semanas de gestação e três meses para contar com uma geração", ou seja, com ratos capazes de se reproduzir, explica o cientista.

Fertilização in vitro

Com sede nos Estados Unidos, o Jackson Laboratory é um grande fornecedor de K18-hACE2 - seu nome completo - e está acelerando a produção para suprir a demanda dos superratos.

As demandas procedem de "laboratórios e organizações de todo o mundo há várias semanas", indica à AFP Cat Lutz, diretor da área de "Ratos" do Jackson Laboratory.

Geneticamente modificados para poder contrair o coronavírus, os ratos "reproduzem as complicações respiratórias provocadas pela infecção, o que significa que representam um bom modelo para (estudar) a doença", segundo Lutz.

Estarão, portanto, destinados "a testar os (possíveis) tratamentos e vacinas", completa Lutz.

Para acelerar a produção, o Jackson Laboratory recorre à fertilização in vitro, ao invés da reprodução tradicional: o esperma de apenas um macho permite fecundar centenas de ovócitos, que depois são transferidos aos embriões das fêmeas para gestação.

A empresa espera fazer as primeiras expedições limitadas "no início de maio", antes de uma entrega mais ampla "algumas semanas depois".

Novos modelos

A boa notícia é que estes prazos não impedem o trabalho dos cientistas sobre o novo coronavírus, afirma D;Enfert.

"Desacelera um pouco a investigação, mas não nos impede de avançar", explica. É possível, por exemplo, testar uma vacina em um rato normal e ver se produz anticorpos eficazes, explica o cientista.

Sua equipe tenta desenvolver os próprios ratos modificados e examina se alguns roedores disponíveis no Instituto Pasteur não teriam, por caso, genes sensíveis ao SARS-CoV-2.

Paralelamente, a empresa de biotecnologia GenOway, com sede em Lyon (França), busca criar outros modelos transgênicos, "mais pertinentes" que os ACE2.
[SAIBAMAIS]

"Estamos em uma segunda geração, com um modelo ;relevante;, que permite prever com precisão o que pode acontecer no organismo do homem", explica à AFP o diretor da empresa, Alexandre Fraichard, que espera contar com o novo rato no segundo semestre do ano.

"Além disso, tentamos preparar instrumentos mais vastos visando as próximas pandemias. Mas é um desafio a médio prazo, de vários anos. Os modelos de ratos não são produzidos tão facilmente, como se fosse um simples celular".






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